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22/09/2017

Rorty e Sloterdijk


Mantendo-se na tradição holista do pragmatismo americano, o filósofo Richard Rorty desinteressa-se das dicotomias metafísicas como “espírito versus matéria”, ou as da filosofia da ciência como “mentalismo versus fisicalismo”. Também desdenha as dicotomias epistemológicas do tipo “idealismo versus realismo” e, por isso mesmo, Rorty sai do paradigma moderno, cuja principal invenção em teoria do conhecimento foi a dualidade sujeito-objeto.[1]

O pragmatismo americano aprendeu com Hegel a dar valor à perspectiva holista, mas abandonando a dicotomia sujeito e objeto, preferiu ver na prática – pragma ou práxis[2] – a trama cosmológica. Assim, passando pela “virada linguística”, deixou de lado a filosofia analítica tradicional, que fazia a divisão linguagem-mundo, para pensar as coisas em termos wittgensteinianos em que “os limites do mundo são os limites da linguagem”. A linguagem, para Rorty, é humana, “somos nós que falamos e não o mundo”. Desse modo, é a prática de “usuários da linguagem” que a filosofia investiga e descreve. Não descreve a Linguagem, mas também não se atém aos usuários da linguagem, como “o homem” ou “o sujeito” ou o Da-sein ou “o organismo” etc. É a prática no seu desdobramento que o interessa. Essa prática, na conta de Rorty, pode ser descrita na base de uma leitura sobre a linguagem a partir de Donald Davidson.

Resumindo ao máximo: a linguagem é um como um organismo em evolução, onde tudo se produz por metáforas que, envelhecidas, podem ganhar valor de verdade em determinados jogos de linguagem e, então, se transformar no que chamamos de literal.  A linguagem literal nada é senão um conjunto de metáforas mortas. É o que Davidson dá para Rorty. [3]

A perspectiva do filósofo alemão Peter Sloterdijk poderia ser chamada de pragmatista, caso o pragmatismo não tivesse, antes de Rorty, ficado marcado historicamente de modo emblemático. Mas os ancestrais teóricos de Sloterdijk, ao menos no campo filosófico, não são distantes do de Rorty. Quais? Assim: Hegel menos, mas bem mais Nietzsche e Heidegger – que encantaram Rorty – e também Marx, aquele que foi lido com boa vontade mais por Dewey que por Rorty.

Em Sloterdijk a investigação se dá em cima do que ele chama de “transferência”. Em psicanálise, trata-se de um deslocamento de amor e ódio, dirigidos a figuras outras, então redirecionadas para o psicanalista. A figura do paciente e do psicanalista não são o centro de atenção, mas sim os processos de transferência, as alterações que se produz no campo dos redirecionamentos e trocas. Nesse caso, Sloterdijk diz que se Platão colocou acima da porta da Academia “Que não entre aqui quem não sabe geometria”, ele próprio poderia colocar na entrada de sua “Trilogia das Esferas” também um lema: “que não entre aqui quem é desencorajado ao prazer da transferência e à refutação da solidão”. A ideia básica, para ele, é explicada por uma paráfrase de Wittgenstein: “os limites de minha capacidade de transferência são os limites de meu mundo”.[4]

A transferência é, no campo da vida e acontecimentos históricos e nos desdobramentos narrativos, um processo semelhante ao da evolução da linguagem em termos de caminho de metáfora para metáfora e posteriores literalizações. Não há paciente e terapeuta, não há usuário da linguagem e receptor da linguagem, não há o sujeito e o objeto, mas a transferência (Sloterdijk) e o uso da linguagem (Rorty). Fazendo assim podemos construir narrativas que falem da subjetividade, sem estarmos presos aos problemas da filosofia moderna quando tratam do sujeito, aqueles problemas que Nietzsche, Heidegger e Foucault buscaram desvendar e se desvencilhar. Além disso, com tais formas, podemos também absorver o “inconsciente” de Freud, esse elemento que tanto perturbou Sartre e muitos outros filósofos, como um estranho no ninho da filosofia.

Mas, então, qual a diferença entre Rorty e Sloterdijk? Talvez a diferença esteja naquilo que não era uma preocupação de Rorty: a intimidade. Rorty estudou a subjetividade a partir da crítica aos modelos vigentes no neokantismo. Sloterdijk não está preocupado em criticar os modelos vigentes de um modo específico, sua atenção dirige-se aos pressupostos gerais dos modelos vigentes, nem sempre revelados. Ele acredita que todos os modelos modernos não percebem que se olhamos as narrativas amplas da mitologia, religião, antropologia, costumes, filosofias, literaturas e ciências, mostrando em todas elas as transferências e entrando também no jogo de transferências, poderemos sair do paradigma liberal. Este, por sua vez, é que individualiza o homem, que toma o Da-sein já como um indivíduo solitário, singular, que só após se encontrar com outro indivíduo irá criar a situação social da qual, então, podemos falar em “humanos” etc. Para Sloterdijk devemos sair desse paradigma substancialista, herdeiro de Aristóteles e Descartes e idolatrado por Rousseau.[5] Devemos sair também dos paradigmas aparentemente alternativos, mas que o repetem com ligeiras modificações, como os que falam em intersubjetividade – uma denúncia que Agamben[6] faz a respeito do paradigma moderno, e que, a meu ver, atinge Habermas.

Todo o trabalho de Sloterdijk é, então, o de caprichar na compreensão das coisas por meio de esferas – um ambiente, um interior que tem membrana e ressonância – e que é povoado ao menos por dois polos que só se desdobram como polos no desenrolar das esferas. Desse modo, até podemos voltar a falar em sujeito, em subjetividade, mas como campo esférico. Do mesmo modo que poderíamos mesmo falar em sujeito no âmbito do paradigma de Rorty-Davidson, como o próprio Rorty fez, ao falar em “rede de crenças e desejos”.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

[1] Rorty, R. A filosofia e o espelho da natureza. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1995.

[2] Rorty & Ghiraldelli. Ensaios pragmatistas. Rio de Janeiro: DPA, 2006.

[3] Rorty, R. Contingência, ironia e solidariedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

[4] Sloterdijk, P. Bubbles – microspherology. Spheres I. Los Angeles: Smiotext(e), 2001, Preminary note.

[5]Sloterdijk, P. Neither sun nor death. Los Angeles: Semiotext(e), 2011.

[6] Agamben, G. O que é o contemporâneo. Chapecó: Editora da Unichapecó.

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One Response “Rorty e Sloterdijk”

  1. Ademar Braga
    04/09/2014 at 13:57

    Tanto roty como Sloterdijk construiram uma teoria da realidade social? O que existe é um espaço social, um campo social ao qual o sujeito se constroem. O que existiria seria um fenômeno histórico uma realidade histórica que unifica uma série de acontecimentos variados?

    E noção de Pós-conceito estaria de alguma forma ligado a essas teorias?

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