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11/11/2019

Roberto Amaral e o programa “Mais Guerra Contra Médicos”


Roberto Amaral e o programa “Mais Guerra Contra Médicos”

O ex-ministro do Lula, meu amigo Roberto Amaral (1), engrossou as fileiras dos governistas que apoiam as medidas da presidente Dilma quanto ao que determina o programa “Mais Médicos”, este que se transformou rapidamente no programa que ficaria melhor com o nome de “Guerra Desnecessária aos Médicos”.

A conversa é semelhante a de outros governistas, ao menos em parte: ele diz que bons hospitais todos com médicos iguais os que operam Lula e Dilma só daqui a cinquenta anos. Por enquanto é necessário mesmo trazer médicos de fora para, após três mandatos do PT no governo federal, finalmente iniciarmos um real atendimento da população brasileira no campo da saúde pública. Esquecendo-se que o ensino público já é pago por quem estuda nas universidades federais, porque os pais de alunos pagam impostos como quaisquer outros brasileiros, Roberto Amaral acha normal adotar uma tese não raramente defendida pela direita política, a de que os estudantes devem pagar com trabalho para o SUS o que receberam do Estado (articulistas da revista Veja defendem o mesmo!).

Não creio que seja necessário explicar que essas ideias governistas são inúteis, e de certo modo até nocivas, no sentido de criar uma política de saúde para o Brasil. Dezenas de argumentos já foram expostos por médicos e sociólogos dizendo que isso tudo é um erro crasso. Qualquer pessoa do PT estaria contra tudo isso se fosse uma proposta do PSDB, e pelo caráter que ela tem, poderia ser mesmo. Aliás, essas propostas já apareceram em programas de Serra e de Maluf, em diferentes épocas de suas carreiras políticas. Sobretaxar o ensino público e trazer mão de obra do exterior para, no limite, fazer baixar o preço da mão de obra interna, já esteve na cabeça de muita gente. Foi uma ideia do começo da República, e no início do ano o conselheiro do PT, o economista Delfim Neto, disse claramente que o Brasil deveria importar mão de obra.

No começo do ano eu escrevi na Folha de S. Paulo dizendo que essa seria a saída para o governo, a importação de mão de obra qualificada, e não só mão de obra médica, porque havíamos negligenciado medidas necessárias na política educacional, e isso em todos os governos democráticos e em alguns da Ditadura Militar. Deu no que deu. Agora, direita e esquerda se mostram iguais e, então, o governo que está aí (e que poderia ser o da atual oposição conservadora, não mudaria nada) parece não saber fazer outra coisa senão jogar a população contra os médicos, através de uma campanha onde se fomenta o ressentimento de uma população mal atendida, dirigindo tal energia negativa contra cada médico. Repentinamente, o médico solitário, no hospital precário e ganhando mal, passou a ser o responsável pela política de saúde inexistente.

Tudo isso é sabido. Não é isso que me chama a atenção. O que me chama a atenção, como filósofo, é o espírito que guia a digitação do homem de esquerda Roberto Amaral em seu artigo. Filósofos têm essa mania: discutir aquilo que é banal demais e que, por isso mesmo, ninguém acha que tem lá alguma importância. O que é banal? O fato de Roberto Amaral solicitar dos médicos um espírito de sacrifício. Primeiro os médicos devem, sem apoio governamental garantido, ir para o interior servir a população brasileira, depois de um tempo, podem então voltar e, como ele mesmo diz, com uma ironia que me deixou temeroso, “podem ir ficar ricos em qualquer lugar”.

Isso é banal porque está no cerne do comportamento do homem educado no campo da esquerda comunista. E é mais banal ainda porque não tem nada a ver com Marx e, sim, com o jesuitismo brasileiro.

Marx era materialista e tinha grande simpatia por Epicuro. Sua doutrina e sua própria vida sempre tiveram um lado hedonista. Marcuse soube salientar bem isso. Mas Marx, por conta de Hegel, sempre achou que havia uma certa “astúcia da razão” comandando a história, ou, em outras palavras, um Deus escrevendo certo por linhas tortas. Segundo essa ideia, muitas vezes, gerações e gerações fazem sacrifícios para que  outras, no futuro, possam ter liberdade. Essa tese hegeliana em nada combina com o hedonismo epicurista, a outra face da alma marxista. Mas a tese do sacrifício entrega Hegel, e portanto Marx, ao nosso berço histórico: a vida jesuítica. Sofremos aqui e com isso nos purificamos e ganhamos o reino dos Céus uma vez que o plano de Deus nos é meio incompreensível, mas deverá nos levar a bom termo. Sofremos fazendo o bem voluntariamente, levando a boa nova católica, e então deixamos para muitos outros também a oportunidade deles se livrarem dos reformadores luteranos capitalistas, os representantes do mal na Terra, como diria Thomas More.

Aí está Roberto Amaral, tendo ele consciência disso ou não. Ele está com os jesuítas. Ele quer o sacrifício dos médicos. Ele não leva em conta que a motivação humana, principalmente no nosso regime econômico, não se faz dessa maneira. A motivação teria de ser financeira e em torno de condições de trabalho que dessem ao médico senão dinheiro ao menos uma garantia de se sentir realmente médico, pois ele estudou – e muito – para tal. Essa não é a “motivação capitalista”, é a motivação moderna de autorrealização.

Roberto Amaral iria por essa via se olhasse para as forças do mundo moderno. Ele até olha, mas seu olhar do que é moderno qualifica os jesuítas como modernos. Em certo sentido ele está correto. Mas em termos de eficácia, ele está empurrando o barco contra a correnteza. Ele gostaria que as faculdades de medicina tivessem a disciplina de Ética, que a formação fosse diferente, e que com formação diferente, os médicos fossem mais altruístas. Aí sim ele poderia pedir o sacrifício que está pedindo. Mas, sabemos bem, esse tipo de coisa, ou seja, a introdução de um novo currículo no curso de medicina, para transformar a mentalidade dos médicos, seria um passo que não nos levaria a formar o médico humanista e mais humanizado, e sim o médico enraivecido por ter passado, na democracia, por disciplinas que soariam a ele o que soou para a minha geração a Educação Moral e Cívica. Além disso, o que Roberto Amaral fala, não leva em consideração que o Humanismo não tem mais força epistemológica e moral para tentar criar pessoas melhores. Aplicado hoje, talvez viesse mesmo a se tornar apenas doutrinação jesuítica envolta de penugem marxista ou, pior, estalinista.

O que eu defendo em um livro que está para sair pela Manole, A nova filosofia da educação, aliás, junto com minha amiga e parceira intelectual Susana de Castro, filha do Roberto Amaral, é algo bem diferente.

Minha ideia é assumir que o Humanismo está acabado como força motivadora real no interior da nossa cultura, e mais ainda em nossa escola, e que isso não tem volta. Então, se temos que educar pessoas para que elas sejam “versões melhores delas mesmas” (Rorty) enquanto gerações futuras, isso não pode mais ser feito na base da ideia de voluntarismo individual ou do jesuitismo. Em outras palavras, não se pode mais, em uma greve de professores, jogar a sociedade contra eles dizendo que as crianças estão sem aulas. Então, não se pode fazer algo parecido com os médicos. Não se pode cobrar das pessoas, hoje, um compromisso com uma metanarrativa motivadora e apontadora de sentido se esta metanarrativa não está mais no horizonte das crenças de ninguém. É necessário dar formação técnica e garantir a motivação do profissional por meio de aparato material e salário, e não por meio do fomento, na alma, de um espírito de sacrifício que remetia a uma metanarrativa que não mais tem credibilidade.

A minha saída, portanto, aplicada ao problema atual, implicaria em uma atitude do governo bem diferente. O governo deveria ter primeiro começado um investimento material na saúde e, só depois disso, iniciado uma discussão nas faculdades de medicina no sentido de ver como que os jovens gostariam de utilizar esse aparato em benefício público. E isso sem que o governo mostrasse, lateralmente, que gasta mais em propaganda que em realizações, ou que perde mais em corrupção do que investe em hospital. Aí sim, garanto, haveria uma colaboração dos jovens. Não haveria isso que estamos vendo, que é uma perda de energia em uma guerra tola, mesquinha, ineficaz entre governo e médicos.

Espero que o governo não teime, pois coisa igual já destruiu a profissão de professor do ensino médio. Não quero que esse governo destrua a profissão de médico do serviço público.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor e professor da UFRRJ

1. Artigo de Roberto Amaral

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35 Responses “Roberto Amaral e o programa “Mais Guerra Contra Médicos””

  1. Guilherme
    08/09/2013 at 00:26

    Como já diria um amigo em comum, educação é uma questão de inteligência

  2. 07/08/2013 at 17:30

    Olá Paulo.

    Bom saber que existem pessoas decentes e com conhecimento no Brasil. Ainda há alguma chance de mudança. Sou médico (trabalho integralmente no sistema público de saúde, no HC de Ribeirão Preto) e estou fazendo esse comentário com relação aos seus textos sobre a situação da medicina. Gostaria de ressaltar um ponto em especial, quando o sr Amaral levantou a questão da necessidade de uma disciplina de Ética e que isso facilitaria um despertar altruístico nos futuros médicos – eu asseguro, isso raramente aconteceria; me lembro muito bem, desde o primeiro ano da faculdade já era possível saber o comportamento moral de praticamente todos os alunos e estes persistiram até a residência médica. A faculdade de medicina não consegue mudar o que o aluno traz de casa.
    Compartilho diversas de suas ideias sobre a questão médica. Gostaria de convidá-lo a ver no meu blog um texto que coloquei sobre o “programa mais engodos” – renedroliveira.blogspot.com

    Nós médicos e a sociedade agradecemos.

    • 07/08/2013 at 19:01

      Renê, obrigado. Verei seu blog. Por favor, faça volume, empurre os meus escritos. Estou também como colunista do IG. VAmos empurrando aqui e ali que as coisas andam. Este governo é melhor que o do PSDB, pois ao menos ele cede a pressões.

    • 07/08/2013 at 20:13

      Sim, não podemos desistir. Adicionei seu blog à lista dos que sigo e em breve farei um post de sugestão de blog, onde colocarei o seu e sua coluna no iG.

      Abraço.

    • 07/08/2013 at 23:02

      Renê, vamos articulando essa rede! Venha também para minha página no facebook.

  3. Livia
    04/08/2013 at 08:42

    Sei que durante a ditadura a educação pública não foi aprimorada; assim como na década de 90 com o investimento zero. Não concordo com a política que o governo do PT nos ultimos anos implantou no Brasil; de incentivar a qualificação do profissional em escolas técnicas e faculdades com qualidade contestáveis (como com o PROUNI) para apenas gerar um maior exercito industrial de reserva, disposto a trabalhar maquinalmente, como na II Revolução Industrial. Mas daí a dizer que a aprovação do Mais Médicos vai piorar a educação pública é um salto bem grande… Francamente, esse projeto seria benéfico para o Brasil se junto dele fossem criados projetos que incentivem o crescimento das universidades; o aumento de vagas; a criação de novas instituições publicas; o ato de pesquisa dentro das faculdades (hoje pra se pesquisar é necessário dar aulas também); a distribuição uniforme dos fixos pelo Brasil, para que, caso um médico queira trabalhar no interior ele não se torne excluído e claro, para que as pessoas que já habitam regiões “esquecidas” nacionalmente (como o Maranhão) tenham maior visibilidade e participação no mundo globalizado; melhora nos hospitais, nas suas estruturas de funcionalidades e infraestrutura; entre outras coisas. Sou a favor da vinda de médicos, desde que essa não se torne uma medida demagógica do governo. Ainda, acredito que essa importação de mdo não significa a diminuição dos salários, já que a contratação desses médicos será feita com base na demanda (se feita como descrita no projeto), logo não haverá excesso de oferta pra que se diminua os salários dos médicos. Por fim, concordo com você quando critica a posição de , que por exaltado demais, perdeu a razão em seu comentário positivista.

    • 04/08/2013 at 11:21

      Lívia, vou só comentar uma coisa: você não sabe o que é positivismo. Usou a palavra, mas não sabe o que é. Do modo como comentou meu texto, caberia você dizer dele tudo, menos isso. Você tenta mostrar que meu texto é tendencioso, ora, o positivismo é uma doutrina da neutralidade, não do posicionamento. Esse é um problema sério nos estudantes de Humanidades, essa bagunça semântica.

  4. Anderson Alares
    28/07/2013 at 15:39

    Na verdade Paulo, já existe também um movimento de reforma curricular em Medicina, e pelo menos nas faculdades que conheço todas tel alguma disciplina semelhante a Ética. Na minha (UPE) temos um dos três eixos curriculares chamado Humanistico, onde em cada periodo se tem um módulo relacionado a isso.

  5. Wender
    25/07/2013 at 22:46

    Paulo gostei da sua solução para o problema. O governo e os médicos paressem marido e mulher que não se entendem. Se o governo soubesse como tratar aos médicos teriamos um SUS melhor parabéns por este post!

  6. Thiago Soares
    24/07/2013 at 16:16

    Paulo,
    parabéns pelos posts. Descobri seu blog depois de assistir sua entrevista no Provocações da TV Cultura. Fico contente em saber que há um espaço de reflexão crítica que coaduna com o espírito filosófico legítimo nessa selva cibernética. Um abraço!

  7. Ivan Large
    24/07/2013 at 11:33

    Paulo,
    parabens, o seu artigo foi até agora, o único que valeu a pena ser lido, sobre o assunto. Só vale a pena notar que este médico mais materialista apareceu, no Brazil uns 20 anos atras (junto com o neo-liberalismo). Antes disso, meus colegas eram como o sal, dizia Newton Cardoso: brancos, bons e baratos

    • 24/07/2013 at 18:09

      Ivan, fora o “neoliberalismo” que é uma palavra que perdeu o sentido, obrigado.

  8. Glauber Almeida
    21/07/2013 at 19:48

    Paulo, passei a acompanha-lo aqui no blog recentemente, suas constatações são brilhantes e muito inteligentes. Parabéns

    • 21/07/2013 at 23:30

      Glauber, obrigado pelo elogio. O que eu tento fazer é não fechar minha cabeça.

  9. Antônio Carlos
    20/07/2013 at 09:25

    Silvia, o HSPE não é local para marcar consulta. Consulta para especialista necessita de encaminhamento por um profissional da UBS da sua região para um AMA. Se não for assim, não há como, por motivos óbvios: se fosse assim todo mundo ia querer marcar consulta para nada. Essa é uma das desinformações que o povo não sabe e por isso acredita que faltam médicos – não conhecem como funciona o sistema. Médico no sistema tem, nesse caso, teria, mas a pessoa não soube como utilizá-lo.

    • 20/07/2013 at 21:11

      Antonio Carlos, como você vê, a situação gira nisso: desinformação de todo tipo. O que eu tenho denunciado: o uso dessa desinformação, por partidários do governo, para jogar população contra os médicos. Se há intelectuais que não estão percebendo isso porque olham para os médicos com indisposição,talvez preconceito. Isso me irrita.

    • Silva
      21/07/2013 at 01:56

      Antônio, pra mostrar que vc está falando bobagem fui tentar marcar uma consulta para minha mãe pelo site do iamspe e consegui. Marquei para 25/07 às 14:20 com o médico cirurgião plástico JORGE FAUZE DE CARVALHO SILVA. nº do protocolo: 10229940.

      O que vc me diz agora?

      Bom, agora vou desmarcar a consulta.

      obs: essa é uma das poucas áreas em que há vagas. para quase todas não há.

    • 21/07/2013 at 08:00

      Silva, eu acho que você não está entendendo nada. Meu blog não é o balcão do Procom ou um agência governamental. Vá reclamar noutro lugar. Um leitor aqui, que é médico, já fez um post explicando para você como proceder. Você não leu. Aliás, não leu também meu artigo, se leu, xiii, aí realmente teu cérebro está comprometido. Médico não vai adiantar no seu caso. Aliás, por tudo que você fez, eu acho que psicólogo também não. Talvez um biólogo com especialização em batráquios.

    • Silva
      21/07/2013 at 13:43

      Paulo, ele está falando bobagem. Está achando que o HSPE é um hospital público. Público só no nome. HSPE é exclusivo para servidores estaduais e seus dependentes e mantido via desconto no contracheque dos respectivos funcionários públicos. Portanto, não tem de passar antes em AMA ou UBS. Ou um conveniado da amil precisa passar por uma dessas unidades antes de buscar o convênio? rs É um hospital bom, conta com excelente estrutura de equipamentos e materiais e bons médicos também. Porém, ao que me parece, esses estão em número insuficiente.

    • 21/07/2013 at 16:43

      Sílvia, faz um blog de serviço social e, depois, vai no procom. Teu campo é esse. Filosofia? Nem pensar. A impossibilidade de vocês se envolverem com a filosofia os faz não leitores desse blog. Minha divergência com Amaral é filosófica. Ele pensa a partir de um mundo em que sempre existirão pobres, eu penso a partir da ex-utopia de um mundo que pode não ter pobres. Eu sou aquele que, mesmo que queira melhor a vida de outros e a minha, não vou nunca ver beleza na favela só porque ela existe e lá há o pobre, os humanos, não, eu quero acabar com a favela. Eu quero ver o dia que ninguém nunca mais se lembre a merda que foi ter de tratar favela por comunidade para poder amenizar relações e tornar a vida do pobre menos dura.

    • 21/07/2013 at 16:44

      Sílvia, faz um blog de serviço social e, depois, vai no procom. Teu campo é esse. Filosofia? Nem pensar. A impossibilidade de vocês se envolverem com a filosofia os faz não leitores desse blog. Minha divergência com Amaral é filo

    • Antônio Carlos
      21/07/2013 at 14:43

      Mas Silvia, nesse caso você não é SUS. Você tem um plano (IAMSPE) e está extremamente diferente dos outros milhões que não o tem. Vê-se pelo comentário que você não costuma utilizar os serviços de porta do sistema (UBS) e não conhece a realidade da base do sistema. Não gosto de estereotipar, mas creio que faça parte da classe média que nunca vai ser atendido pelo SUS e por médico não revalidado mas que é a favor do programa apenas para conseguir consulta mais barata e fácil – mesmo sabendo que a culpa aí não é do médico, é do convênio. Analisando esse caso em específico consegui um exemplo extremamente fácil para mostrar como a falta de gestão e o subfinanciamento estão presentes no nosso dia-a-dia: o governo federal, gestor máximo do SUS, hoje, paga em média 6 reais para consulta de um especialista e ainda demora no mínimo 3 meses para pagar – é normal ver gente recebendo 6 meses depois. Por motivos mercadológicos óbvios, a quantidade de especialistas atuando assim é mínima e próxima do zero. Para arrumar essa trapalhada federal, os governos estaduais criam os chamados “ambulatórios de especialidades” e gastam mais ainda. Por último, vem o município, lá do interior que não é atendido e nem entra na abrangência desses ambulatórios de especialidades e gastam novamente com especialistas tentando cobrir a trapalhada estadual e federal. Só aí, já foram gastos milhares de reais três vezes apenas para corrigir o problema do topo: o baixíssimo valor da tabela do SUS paga pelo governo federal. Se o valor da tabela melhorar e ser pago em dia a mágica irá acontecer: o número de especialistas no sistema vai quadruplicar, quiçá, quintuplicar. Se até o plano de saúde da esquina que paga 30 reais consegue médico, imagina o SUS pagando em dia e melhor se não ia conseguir? Mas é claro, o problema não é do sistema e dos gestores trapalhões, a culpa é do médico, que não aceita trabalhar por esses 6 reais. Por isso, vamos jogar eles nas fogueiras da inquisição. O governo é o bonzinho.

    • Antônio Carlos
      24/07/2013 at 14:55

      Relendo o comentário tive um pensamento interessante. Percebi durante todas as leituras que faço diariamente que o mais interessado nesse programa é a classe média. O caso mais específico sobre isso foi o comentário da senhora que possui um plano de saúde – estatal, mas ainda é plano – reclamando que não consegue consulta com o médico. A classe média não sabe que paga milhares por mês aos planos de saúde, que a ANS os acoberta – recente anúncio de aumento de cerca de 10% do valor – mas culpa o médico por esse aumento. Mal sabem, por exemplo, que os grandes donos dos planos de saúde nunca sentaram em consultório do lado de trás da mesa e não sabem o que é saúde. Mal sabem também que o crescimento colossal dos planos de saúde só aconteceu por dois motivos: mão-de-obra médica barata e proteção fraternal da ANS. E acham que o culpado de não conseguir consulta não é o baixo valor do pagamento do seu plano ao prestador do serviço, mas sim, o mercenário do médico. Ou seja, muitos pertencentes dessa classe acreditam que esse programa seria uma forma de pagar menos ao médico já que o custo com as empregadas domésticas subiu – nada contra essa classe, sou completamente favorável às suas lutas. Como disse, acredito que argumentar falando sobre uma característica a “pessoa” é um argumento falacioso, mas não pude deixar de notar esse estereótipo em quase tudo que li e vi. Vamos lembrar também que essa classe média não usa PSF, UBS, ESF e quando vai ao pronto-socorro tem cadeira cativa. Nunca vai precisar ser atendido por médico não-revalidado e nem pelos escravos, ops, estudantes dos 8 anos da Dilma.

  10. Silva
    19/07/2013 at 21:33

    Paulo, se não falta médico no Brasil e o problema é a falta de estrutura, por que então toda vez que minha mãe tenta marcar uma consulta no hospital do servidor público do estado de SP, que é muito bem equipado, dispondo dos melhores equipamentos aliás, é difícil ter vaga? Pelo site do iamspe é possível marcar consulta, mas o duro é achar vaga. Constantemente não há, e isso pra todas as especialidades que se busque. O jeito é ficar ligando até conseguir uma.

    • Silva
      19/07/2013 at 21:37

      Se vc quiser eu entro no site do iamspe e te mostro que não estou mentindo. Toda especialidade que eu clico aparece zero vagas. E olha que esse hospital é um dos melhores do país, a não ser pela falta de médico.

    • 20/07/2013 at 08:47

      Silva, você sabia que há professor leigo trabalhando mesmo no EStado de São Paulo. No fundamental. Sim. Professor de ensino fundamental, o que mais tem no Brasil, falta. Consegue entender ou preciso desenhar? Agora, eu não disse nada sobre falta ou não de médico. E me dá nos nervos das pessoas continuarem no Brasil querendo elas ganhar para trabalhar enquanto que o outro tem de trabalhar sem condições. Sabe Silva, gente como você deveria apanhar na bunda. De cinta. É aquele tipo de gente que nasceu sem olho e diz que vê. É aquele carinha que quando há greve de professor, vai na TV dizer que os professores estão faltando no serviço e que os filhos, tadinhos, com tanta vontade de estudar, estão em caSa. Eu achava que esse tipo de reclamação era coisa de burrão, mas agora acho que o cara é burro sim, mas é desonesto também.

    • Silva
      20/07/2013 at 17:55

      Então falta médico no Brasil?

    • 20/07/2013 at 21:06

      Mesmo que faltasse, a solução do governo nem de longe é uma solução.

  11. Bruno
    19/07/2013 at 10:02

    Já existe o FIES para depois de formado o estudante pagar pelo financiamento que o governo lhe “emprestou”. Agora resolveram confundir as coisas de propósito e justificá-las com um pressuposto exdrúxulo de que o estudante da Federal por ser filho de riquinho tem que pagar o que o pai já pagou. Estão dizendo: ” o ensino médio público é uma merda, quem faz medicina na Federal é filho de rico que estudou numa escola boa, a escola particular e, por isso, vou me vingar da minha incapacidade política educacional, assim a população que já não aceita o “status” do médico vai me apoiar. A visão que o governo passa é muito bem ensinada por você, Ghiraldelli, que o governo é incapaz de gerir a saúde então é mais fácil colocar a culpa na classe médica, uma classe que no momento ainda é a mais respeitada e ao mesmo tempo odiada por ressentidos que não compreendem o quanto esses profissionais estudaram.
    Abraços!

  12. Marcio
    19/07/2013 at 02:45

    Isso também se confunde muito com o pensamento estatista tipicamente comunista, onde afirma que a busca do lucro é imoral, e que o estado tendo os meios de produção garantiria por pura benevolência o melhor serviço possível. Paulo, existe alguma biografia que explique melhor essa história pelo lado “jesuítico”?

    • 19/07/2013 at 21:04

      Há outro lado? Marx no Manifesto Comunista fala dos tipos de socialismo de matriz feudal.

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