Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/07/2017

Pecado mesmo é não rezar o “Pai Nosso” nas escolas


Religião se faz na escola? Pode isso? Como se dá nosso laicismo?

Há leis pipocando pelos estados e municípios, todas em relação ao que se deve e não se deve fazer em escolas. Não, não estou falando novamente do completo equívoco do projeto “Escola sem Partido”, inconstitucional de cabo a rabo. Estou me referindo, agora, a lugares que decretaram, inclusive já com publicação no Diário Oficial local, a obrigatoriedade da prática da oração “Pai Nosso” nas escolas. Primeiro foi em cidade da Bahia, que depois voltou atrás. Agora acontece em cidade de Goiás, que logo deverá fazer o mesmo e retroceder.

A lei é inconstitucional, claro. Fere a liberdade religiosa claramente, que é prevista na Constituição. Aliás, como a esdrúxula fórmula da “Escola sem Partido”, fere a liberdade de expressão e a liberdade de cátedra ou de ensino. Mas, o pior talvez não seja isso, e sim as argumentações em torno dos pareceres a favor e contrários à lei. Eles sim, não raro, revelam a mentalidade brasileira calçada em situações que a própria escola deveria ter corrigido, ou deverá conseguir isso um dia.

Os que propuseram e votaram as leis, alguns vereadores, fazem ligações completamente mágicas entre o que querem e o que a lei pode dar. Um deles, o próprio propositor de lei  desse tipo numa Câmara Municipal aí da vida, disse que se os alunos rezam então a segurança está ampliada, pois cairá a violência no município. Ora, desde que o mundo é mundo assistimos mais guerras religiosas, com todos orando aqui e ali, do que guerras para simples pilhagem ou guerras para conquista de território. Oração institucional não puxa a relação de causa e efeito esperada pelo vereador que, talvez exatamente por faltar das aulas de matemática e física, não sabe o que é lei da causalidade e lei da razão. Mantém-se na esfera infantil da mágica. Tira-se um chapéu vazio aqui e pronunciada a palavra abracadabra, eis que surge um coelho. Por que surgiu um coelho? Pela força da palavra “abracadabra”.

Agora, os que são contra, não raro não evocam a simples liberdade religiosa, mas se voltam contra a religião e, nesse caso, contra o cristianismo. Dizem que a “oração na sala de aula é doutrinação”. Não, não é. A escola pública deveria, sim, pagar bem os seus professores e ter espaços de aprendizado de religião. E as crianças deveriam aprender senão todas as religiões, ao menos aquelas que fazem parte do tripé ocidental, os monoteísmos que disputam as almas de hoje. É ridículo que a religião dos três grandes monoteísmos seja relegada a um plano puramente não escolar. Claro que aos professores de humanidades, já presentes na escola, podem inserir esse conteúdo em suas aulas. Mas, creio, é preciso mais que rudimentos de cultura afro ou rudimentos de cristianismo  ou judaísmo e islamismo etc., para que as pessoas tenham formação em religião. Achar que vivemos sem deuses é um ideal do Iluminismo, mas também somos feitos de Romantismo. Não jogamos os deuses fora, assim, sem mais. Afirmar que nossa moral laica é uma obrigação do ensino da República, para garantir à família o direito de pregar uma moral religiosa, é uma grande bobagem em um país como o nosso, que conhece a religião católica por meio de gente em princípio escolarizada – os padres -, mas conhece outras religiões por meio de curiosos desescolarizados. Um aporte interessante para todos seria que a filosofia, a sociologia e outras disciplinas tivessem sua carga horária ampliada, exatamente para que se pudesse ter contato com as bases de outras religiões. Professor de filosofia e similares que não sabe e não respeita religião é tudo, menos professor dessas áreas.

Todavia, há mais ainda que penso ser útil lembrar. Como foi a minha própria educação dita laica na escola pública, aquela de boa qualidade, gerada nos anos quarenta e cinquenta e só destruída mesmo a partir dos anos setenta? Havia aula de religião no ginásio (curso intermediário entre o que hoje é o ensino médio e as primeiras cinco séries do ensino fundamental), mas não era ali que aprendíamos religião. Aprendíamos religião, a maioria de nós, antes, na escola primária, por meio dos professores, a maioria deles católicos. Alguns deles rezavam antes da aula. Rezavam o “Pai Nosso”. Feria-se, assim, os princípios da escola laica. E ninguém reclamava. Poderia ser uma fonte de criação de preconceito contra outras religiões e, de certo modo, era mesmo. Mas, para a maioria de nós, saber dogmaticamente alguma religião, em tenra idade, nos deu condições não só de aprender a relação com as divindades, mas depois, saber como criar uma ética e um moral que diferia da vigente, da dita moral religiosa não raro hipócrita. Aliás, foi esse aprendizado que nos fez questionar o quanto o que se fazia na vida de cada um e o que se pedia no “Pai Nosso” diferiam. Isso sem dizer o fato curioso de falarmos de Deus, no “Pai Nosso”, como “pai” verdadeiro, uma coisa que achávamos que era maluca quando descobríamos que outras religiões do passado, fora do monoteísmo triplo de nossa era, não ousaram ter tal intimidade com suas divindades. Afinal, nossa crença de que Zeus era para tolos e Deus para os de hoje, a humanidade agora desenvolvida, durava só algumas aulas de história, pois logo vinha a pergunta: “por que podemos dizer que os gregos eram tão inteligentes de um lado e burrinhos de outro?”

Antropologicamente, orar é uma dádiva dada a nós por nós mesmos. Saímos de casa e levamos conosco a segurança um dia existida no lar materno e paterno. Quando oramos, falamos com os deuses, e isso não é uma ida aos Céus, mas uma ida aos Céus por meio de uma volta aos lares do passado, onde uma mãe ou uma avó nos ensinou a rezar, a respeitar os limites do poderes maiores, e de saber pedir para que o Destino seja melhor. A força desse pedido é imenso. E que não nos enganemos, a maioria de nós conserva o costume greco-romano de rezar para gênios, daimons,  anjos da guarda, ou seja, entidades etéreas que nada são senão nossos antepassados mortos, guardadores de lugares. Muitos de nós diz isso claramente quando oram; fazemos pedidos em nossas orações a santos preferidos, no sincretismo religioso brasileiro, e  enfiamos nomes de parentes mortos, que cuidaram de nós na infância, no meio das entidades santificadas no contexto da oração. As pessoas abertamente rezam não para o benefício da alma de pais, mães, avós e tias mortas, mas rezam para que tai pessoas, uma vez em outro mundo, volte a guiá-las e inspirá-las. Então, o lar antigo reaparece com a sua segurança. A mão que nos guiou na infância, quando sabíamos tudo, agora volta para nos ajudar, quando, adultos, não sabemos nada (uma canção de Erasmo Carlos que diz muito). Uma tranquilidade que avassala nosso peito nos toma quando oramos e podemos pedir não só para Jesus ou outra divindade qualquer, mas para uma avó que nos deu vários momentos de sabedoria em situações difíceis. Orar e reabrir a porta da casa dos pais ou avós. Como se vê, a oração tem a ver com ter tido família!

Assim, quando defendo que possamos aprender a orar, não estou fazendo a defesa só do aprendizado intelectual da religião por via da história das religiões, estou mesmo fazendo a defesa de um ganho social. Nossa sociedade tem o direito de ver suas crianças educadas em princípios em que saberes religiosos se mesclam com saberes de nossa moral laica. Pois essa via é … natural. É assim que temos feito no Ocidente após o vagalhão burguês que modernizou o mundo principalmente a partir do século XVIII.

É um erro acreditar que as crianças, ao ficarem adultas, mantém o pensamento mágico por causa de terem tido religião na infância. Uma boa parte das pessoas mantêm o pensamento mágico por ser simplesmente composta de limítrofes (não estou troçando não!) e uma outra parte assim o faz por não ter tido boas aulas de gramática e texto, onde se aprende a ordem das razões, e boas aulas de física, onde se aprende a ordem da causalidade. A religião é poesia, ensinamento moral, sabedoria a respeito dos limites pessoais e do destino, e esses saberes são completamente compatíveis com os saberes científicos, mas isso quando os saberes científicos são bem ensinados (quando aparece um Popper para dizer o que pode ser um critério de ciência, a falsificabilidade). Há pessoas que mantém os saberes religiosos, como eu, no âmbito antropológico. Há pessoas que, sem desconhecer isso que faço, os envolvem em caráter místico e possuem fé. A maioria de nós, intelectuais, faz mesmo as duas coisas, alternadamente. Esperança laica  e fé religiosa se mesclam em nós. Por isso há geógrafos e cientistas cristãos ou judeus ou de candomblés, por isso há padres biólogos completamente conscientes que o debate criacionismo versus evolucionismo é um equívoco. O Papa é um professor de filosofia, e já disse mil vezes que a Bíblia é um poema, uma saber metafórico, uma guia moral. Há formas inteligentes de ser religioso e há formas emburrecidas de ser laico.

O “Pai Nosso” é uma oração de uma profundidade não só religiosa e moral, mas também de profundidade filosófica no sentido ontológico e epistemológico. Não fala apenas do perdão, que é uma virtude ético-moral, mas fala também da ligação entre o reino de Deus e o reino dos homens, ou seja, da ligação possível entre uma utopia (o lugar sem lugar, que pode ser todo lugar, então) e uma realidade (um lugar), e isso é feito quando se diz da vontade de Deus que deve ser feita “assim na Terra como nos Céus”. Ora, uma vontade que ocorre em espaços estabelece, então, que ela própria é o vínculo, o ligare e o religare, o que é, enfim, o religioso. Estabelece para cristianismo, que se adéqua bem a uma dualidade de mundos, a possibilidade de uma união de mundos. A utopia e a realidade não estão apartadas, diz o “Pai Nosso”, mas possuem um elo, uma ponte, uma escada, que se faz por meio da vontade de Deus. Ora, sabemos bem que esse elo se concretiza, se faz caminho real, se imitamos Jesus (Jesus é o caminho para Deus, aprende-se no cristianismo), e nisso vem a parte moral da oração, a que diz que devemos perdoar as dívidas, as faltas. Se assim fazemos, imitamos Jesus moralmente, e a ponte ontológica se estabelece e o fosso entre os mundos da utopia e da realidade desaparecem, a ponte vira chão verdadeiro. Essa teologia moderna instaurada pelo “Pai Nosso” é uma sabedoria que não perde em nada para o platonismo, aliás, se casou muito bem com ele. Dizer que religião e filosofia se apartam é uma burrice.

Como filósofo e professor de filosofia, não me furtaria de ensinar essa base religiosa que aprendi na Igreja, no Catecismo católico, e que depois aperfeiçoei nos estudos humanísticos não religiosos. A filosofia me obriga a ser inteligente.

Paulo Ghiraldelli Jr, 58, filósofo.

Gravura:  Jesus na casa de Martha e Maria, de Jan Vermeer van Delft, 1654.

 

Tags: , , , , , , ,

8 Responses “Pecado mesmo é não rezar o “Pai Nosso” nas escolas”

  1. João Bosco Renna Júnior
    01/07/2016 at 12:33

    Gostei da definição antropológica do significado da religião, eu sabia porém não conseguiria colocar em palavras… eu hoje num debate inútil com um ateu militante, tentei mostrar pra ele o quanto ele é burro, porém foi só pra confirmar o que eu já sabia, que é inútel tentar “catequizar” esse pessoal, eles se parecem mais com jogadores de futebol. Como na definição de Andre Conte – Sponville sobre dogmatismo, eles amam mais a certeza do que a verdade. O mesmo filósofo diz em seu dicionário que filosofia é o exercício constante da dúvida…apesar dele considerar que a maioria dos filósofos são dogmáticos.

    Ele disse que é ateu convicto e militante, eu respondi que isso parece um testemunho de fé religiosa, ele ficou bem nervosinho.

    Muito bom esse texto.

    Inclusive, vc tem toda razão quando afirma que há formas inteligentes de ser religioso e há formas emburrecidas de ser laico, conheço um pastor evangélico batista, que é muito inteligente, e não se prende a debates infrutíferos como criacionismo versus evolucionismo, ateísmo versus teísmo, o alienação religiosa, “o perigo das religiões doutrinadoras” kkk

    Acho que a filosofia já superou esse debate, fé e razão existem simultâneamente e cordialmente, se unindo no caso que você descreve, e se separando quando necessário, se é que é necessário.

    Parabéns, gostei muito do texto.

    • João Bosco Renna Júnior
      01/07/2016 at 12:37

      Errata. Eu quis dizer torcedores de futebol, e não jogadores de futebol.

    • João Bosco Renna Júnior
      01/07/2016 at 12:50

      Errata. Eu quis dizer ateu convicto e praticante.

    • 01/07/2016 at 16:37

      Obrigado João.

    • João Bosco Renna Júnior
      02/07/2016 at 04:31

      Interessante, que esse pastor não tem o pensamento mágico, eu perguntei se ele acreditava no diabo, ele me respondeu que acredita no mal.

      Eu tinha a cabeça fechada, como um ateuzinho convicto e praticante, isso é ruim, nunca imaginei que fosse encontrar um pastor evangélico, um sacerdote cristão assim.

  2. Orquideia
    01/07/2016 at 08:47

    Quanta inspiração,prof.Ghiraldelli!

    No meu primeiro ano do ensino fundamental, a professora orava com a classe.
    A prece era “quase laica”,falava em Deus,não em Jesus,entretanto levei muitos anos para entender isso.
    Era uma iniciativa pessoal dela,e não uma ordem da escola.
    Essa prática ao menos a mim,dava uma sensação de segurança e de “lar”.
    Adulta,migrei para outra religião.[religião mesmo,não seita…]
    Oro para antepassados, ou delego para o templo essas orações.
    Elas servem para “consolar” a eles, e fortalecer vínculos afetivos.

    Deus talvez seja mesmo nossa “casa e família”,e todos só podemos amadurecer totalmente,quando nos sentimos “amparados”.

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    30/06/2016 at 12:37

    Prof. Paulo
    Excelente e profundo texto. Só mesmo da lavra de um filósofo e professor.
    Penso que Sócrates, no seu julgamento, antecedeu ao próprio Cristianismo ao declarar: “prefiro sofrer uma injustiça do que praticá-la”. E assim como Jesus Cristo, nada deixou escrito.
    Com admiração.
    Valmi Pessanha
    P.S. Respeitosamente, cuidado com o uso do verbo defectivo adequar.

  4. Pedro de Sousa Portela
    30/06/2016 at 00:34

    Um texto excelente esse seu, prof. Paulo. Enquanto o lia, ficava pensando que é realmente uma pena que essa imensidade de religiões cristãs surgidas ultimamente acabem por confirmar as críticas que o Iluminismo fez à religião. Ao reduzirem o Cristianismo a um feixe de ritos mágicos ancorados em uma teologia da prosperidade, essas religiões acabam por justificar, na prática, o que o Iluminismo argumentou em suas teorias.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *