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29/05/2017

Rezar e pensar se tornaram impossíveis


A destituição da oração da força de seu conteúdo de modo a torná-la ou penitência ou negociação faz parte do mesmo processo da anulação do pensamento no campo da atividade mental. Até porque tanto a oração quanto o pensamento são uma volta ao lar. A oração se efetiva por meio da evocação do passado e o pensamento se faz vigoroso pela necessidade de certa previsão do futuro. Assim, tirando o presente e o futuro da oração e do pensamento, tiramos os caminhos que os ligam ao lar, e eis que eles caem sob a rubrica do que é manipulável, do que é opaco. Efígie de moeda gasta e em tempo de inflação.

Rezar é antes de tudo voltar para a casa dos pais ou, não raro, dos avós. A oração tem nas horas de infortúnio a tarefa de nos tirar da situação importuna e nos remeter ao passado, ao lar que foi doce e que nos dava a felicidade por meio da segurança. Rezamos antes para nossos antepassados e, fundamentalmente, para o lar onde estivemos seguros (por ilusão ou não), que para Deus. Ou melhor, oramos voltados para Deus, que nunca saiu junto conosco, tendo ficado eternamente no nosso lar de infância ou no campo de nossa segurança. Sempre que conversamos com pessoas efetivamente crédulas na fecundidade de suas orações, percebemos que elas falam sempre para um pai terreno, antes que para o pai celeste. Aliás, este ganhou força quando efetivamente passou a ser um pai. O cristianismo fez esse milagre. Só o cristianismo entendeu a antropologia da oração.

Pensar é antes de tudo dirigir-se para a nossa casa, dos pais ou de nossa família atual, antes mesmo disso ocorrer. Trata-se então de avaliar as consequências do que estamos fazendo ou do que fizemos ou vamos fazer, e como isso nos atingirá como sujeitos, ou seja, como quem tem de voltar para casa e estar com outros. Voltar para estar com outros no mesmo teto é análogo a voltar para estar consigo mesmo sob o mesmo teto, sob o mesmo campo subjetivo. Pensar não é conhecer, mas é refletir sobre o que estamos fazendo e decidindo, se isso nos tornará alguém que poderá conviver conosco mesmo, ou seja, alguém que, uma vez chegando em casa, possa dormir bem, viver em harmonia consigo mesmo, olhar no espelho sabendo que ao se olhar no espelho, a imagem refletida deverá ser vista por um filho ou uma esposa ou um pai. Esse tipo de noção não veio com o cristianismo, mas bem antes, com Sócrates. Sócrates fundou a filosofia como parceira da antropologia urbana.

Enfraquecer a oração e o pensamento foi um feito da modernidade, ao nos tirar de nossas casas e nos obrigar a esquecer lares passados e imediatamente futuros. Fomos transformados, como modernos, em desterrados. Passamos a ser sem-teto. Tornamo-nos pessoas que poderiam sofrer escárnio se disséssemos ter saudade de casa, seja a dos pais seja a nossa. Saudade é para os fracos, ou melhor, para os antigos nobres, gente que teve casa ou tem casa, não para os homens do trabalho ou do entretenimento, ou seja, o homem moderno e o contemporâneo. Estes vivem no trabalho e no lúdico. Vivem na vila operária ou no seu correspondente, ou então no próprio âmbito público do circo, o de rua ou o de TV ou o virtual. Gente sem casa não tem como orar ou como pensar. Quem não tem sua esfera do passado ou do futuro próximo, para a oração e o pensamento respectivamente, não tem, portanto, que rezar ou pensar. Não tem como!

O rezar e o pensar, então, puderam se tornar obsoletos diante do pedir e do extorquir, ou diante do conhecer e do agir. E eis que deixamos de lado, para sempre, a força de Jesus e de Sócrates. Eles tentaram nos ensinar a rezar e pensar, mas nós, quando estávamos aprendendo, demos passos na direção para uma humanidade sem lar. Perdemos tudo.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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14 Responses “Rezar e pensar se tornaram impossíveis”

  1. Leandro Henrique
    14/08/2015 at 10:38

    Talvez seja um erro no blog, ou qualquer falha no sistema de Informática que tenha gerado a imagem…

    Mas enfim….

    • ghiraldelli
      14/08/2015 at 11:35

      Se sua imagem virou uma imagem de um burrinho, é porque você não usou de sua imagem para aparecer. Todos que não tem imagem ganham a imagem de um burrinho com diploma, que é fornecido automaticamente pelo wordpress escolhido. Se não foi isso, não sei.

    • Leandro Henrique
      14/08/2015 at 17:41

      Ok cara, fim de papo.
      E desculpe qualquer mal entendido.

      Ok assim??
      Que possamos então parar de Mi mi mi.

      Grande abraço

    • 14/08/2015 at 23:01

      Leandro quem está no mimimi é você. Não entende o que lê e vem encher o saco. Vai ler um blog da Ana Maria Braga. Mas antes faça o ensino fundamental, pois do modo que age não vai entender o Louro José.

  2. Leandro Henrique
    14/08/2015 at 09:19

    Que engraçado, fiz um comentário de boa e alteraram a foto do meu perfil.
    Ai lendo um pouco em alguns outros blogs encontrei um site do Luis Nassif com coisas interessantes, e acho que entendi o que houve.

    • ghiraldelli
      14/08/2015 at 09:50

      Leandro você não teve foto nenhum alterada aqui, não crie fantasminhas.

    • Leandro Henrique
      14/08/2015 at 10:36

      Ok, então eu inventei que a foto foi alterada.
      Bom, se o Nassif é o não ladrão eu não sei, não o conheço. Acredito que você deva ter prova para afirmar isso.
      O que me fez pensar um pouco mais foram os comentários que constam na página dele, que não são poucos, diga-se de passagem. De pessoas que já te conheceram e que afirmam com certa propriedade alguns aspectos seus que incluem chamar as pessoas de burra e coisas do tipo, principalmente quando mostram opinião contrária à sua, o que para um Filósofo é um pouco estranho, rebaixar as idéias e ponto de vistas das demais pessoas.
      Como não o conheço, a não ser pelas poucas vezes que tive contato por e-mail com o Sr., sempre tive certo respeito pelo seu trabalho. Mas estranhamente essa alteração na imagem acabaram se justificando pelos comentários que li lá, e não são de pessoas como eu, que sou somente leitor, e sim de professores de conceituadas universidades.

      Mas enfim…eu sei o que eu vi hoje pela manhã quando abri a página.

      Mas para evitar mais “mi mi mi” eu excluo meus comentários.e procuro outros blogs para ler e poder dialogar, e opinar tranquilamente.

    • ghiraldelli
      14/08/2015 at 11:37

      Leandro você já encheu o saco, é muito mimimi e muita desinformação proposital. Meu tempo com você já deu. Aqui o cara pode discordar um monte. Você vai encontrar até xingamentos contra mim. Mas não pode ser muito burro. O seu caso, pelo que você escreveu, é grave.

    • Leandro Henrique
      14/08/2015 at 17:40

      Mas está nesse assunto ainda??
      e eu que estou enchendo o saco??
      Acorda.

      Ok Filósofo…você está certo, e todos os comentários que li a seu respeito não fazem sentido. “mas não pode ser muito burro”. Essa expressão sua não se parece com nada do que li. Repito, não levei em consideração o que o Nassif escreveu, mas acho que se outras tantas pessoas apontam falhas, e ambos apontas as mesmas falhas, realmente devem ter razão, ou você é vítima de um complô.
      Mas enfim, tanto faz. Por mim já tinha encerrado o assunto, você que está sendo chato e se eu pareci “burro” pelo que escrevi (sendo que não escrevi nada demais, só expliquei uma situação), você não pareceu tão mais inteligente assim.

    • 14/08/2015 at 23:07

      VOCÊ NÃO PARECEU BURRO. Você é burro.

    • ghiraldelli
      14/08/2015 at 09:54

      Quando um cara como você, Leandro, não sabe que o Nassif é ladrão, bandido, que fez o que fez comigo pago com o meu próprio dinheiro, e com o seu, eu realmente desisto de conversar. Acorda.

  3. leandro Henrique
    12/08/2015 at 11:09

    Muito bacana o texto, e interessante.
    Realmente o “orar” (pelo menos na visão do cristianismo, que é o que o texto trata) tem essa visão de “voltar para casa”. Não que em outras religiões (porque não há só Cristianismo como religião, e também Jesus como lider religioso) não role algo parecido, mas posso dizer por experiência que há orações que são totalmente “pra frente” e não, com o desejo de “voltar para casa”, ou ir para trás, buscando o aconchego maternal, e tudo o mais…..
    Tenho conhecido cada vez mais o Budismo (Que cronológicamente veio muito antes do Cristianismo, o que me fez torcer o nariz com a parte “Eles tentaram nos ensinar a rezar e a pensar” (kkkk brincadeira, li o texto de boa)
    Mas então, tenho conhecido cada vez mais o Budismo, e principalmente o Budismo de Nichiren Daishonin, e percebo que a oração já não é tão voltada com essa conotação citada no texto, e sim algo no qual há o pensar, e o refletir, sobre a vida de uma forma geral (sua vida e existência e tudo o que impacta nela, e o impacto que ela gera também e poder gerar em relação a toda humanidade e tals) e dentro disso a oração já passar a ser visando o futuro, com uma sensação de “determinar” as coisas e não mais de buscar o aconchego do lar…
    é de ir pra frente, cada vez mais pra frente.
    E ai não consigo achar que isso tem impacto com a modernidade, como foi citado, pois pelo que venho aprendendo, os praticantes sempre agiram assim, como o desejo de sempre ir adiante, sendo melhores, e fazendo coisas melhores sempre, visando o bem de todos e tals..

    mas enfim….muito bacana tudo o que escreveu….

  4. Leni Sena
    11/08/2015 at 22:23

    Impressionante a distância que temos tomado de nós mesmos. A sensação é exatamente isso que você ressaltou, de desterro.
    É difícil abrir ou mesmo manter qualquer tipo de diálogo desse jeito, uma vez que, o ritmo alucinado em viver o presente não para.

  5. Matheus Kortz
    11/08/2015 at 16:59

    O pior é ver como algumas “igrejas” instituem a, e vivem da, não-reza aliada ao não-pensamento…

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Filósofo