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26/03/2017

Dona Responsabilidade e senhora Culpa vão sair de férias?


A filosofia é a inimiga da história. Ao menos até Hegel. A sociologia, fruto moderno, é a inimiga da filosofia. Continua sendo. Pois a filosofia sempre faz uma descrição que, apesar de buscar certa objetividade, tem como missão dar diretrizes teóricas e/ou utópicas. A filosofia não perde seu rabo normativo. Ora, sabemos bem que a sociologia, no espírito do positivismo do século XIX, nasceu para escapar da filosofia política, e fazer uma descrição “científica”, sem normatividade, sem juízo de valor, na hora comentar as coisas, os eventos etc. Ainda que a escola histórica alemã quisesse se diferenciar da escola francesa positivista, considerando um conceito de ciência diferente, o anseio por certa objetividade caracterizada pela ausência do normativo, sempre esteve presente.

Isso foi um ganho! Aprendemos com a sociologia a evitar moralismos. Mas, claro, aprendemos também, logo em seguida, que ao buscar escapar de tecer normas, acabávamos, não raro, tecendo prescrições acríticas, escondidas, por conta de tirar a responsabilidade das pessoas. “Sistema”, “estruturas”, “história” e até mesmo “indivíduo” se puseram como abstrações que podiam aparecer para dizer para cada um de nós: você não tem culpa de nada. Assim, ter culpa era alguma coisa da “consciência”, algo da filosofia e da religião. O melhor seria achar causas. Causalidade limpa, sem culpa e sem moralismos. Na verdade, sem moral! Buscamos o ser, não o dever ser! Não gritamos assim?

Até hoje esse é o nosso dilema: a que ponto podemos apontar o dedo para alguém se, ao nosso lado, temos dezenas de maneiras de cortar esse dedo por meio de uma teoria científica? Se já não bastasse isso, também a consciência foi apanhada nesse torvelinho. Primeiro veio Freud, dizendo que nenhum ego era culpado, apenas partes subjacentes podiam ser responsabilizadas. Mais recentemente vieram as neurociências, querendo nos convencer que um pedaço de carne, o cérebro, é responsável pelo que fazemos, mas, pessoalmente, não somos culpados. Como diz Sloterdijk: há um movimento de desoneração do mundo. Temos que ficar mais leves. No passado distante, urramos para adquirir culpa e responsabilidade, através do mecanismo da força, da dívida, da cobrança da dívida por meio da cicatriz – assim nos ensinou Nietzsche, que descreveu o modo pelo qual o homem se tornou homem, ou seja, um animal capaz de prometer. Mas agora, que já podemos prometer, estamos buscando, em  uma época de desoneração geral, também nos desonerarmos da culpa. A sociologia e a psicologia, recauchutadas por psicanálise e neurociência, ajudam bem nisso. O inconsciente e o pedaço de carne ganham de nossa identidade, ficam com nossa identidade, e isso ajuda bem advogados que querem colocar promotores sob relho. Ninguém consegue culpar mais ninguém. Tudo é feito pelas costas dos homens.

“Estrutura”, “sistema”, “indivíduo”, “história”, “subconsciente”, “cérebro” – tudo isso responde ao que antes eram “espíritos” ou “demônios”, ou seja, entidade capazes de nos substituir nos processos jurídicos. Não estou dizendo que com os culpados de hoje não possamos por gente na fogueira. Podemos. Por exemplo, podemos fazer o processo de humilhação pública pelo facebook. Mas isso também desonera, pois é uma catarse para todos e, para aquele que é linchado no Facebook, a pena é rápida. Dois anos no máximo e pronto, tá apagado. Vida nova. Às vezes só 24 horas após o escândalo ou linchamento já se pode dizer “vida nova”, pois outro coitado caiu na berlinda virtual.

O processo de desresponsabilização geral é acompanhado, curiosamente, de um aumento assustador de processos jurídicos. Pois o mundo dos advogados não é o mundo da solução final, mas do acordo. Ninguém é totalmente culpado, então, vamos ao acordo. E disso o meio ambiente dos homens da lei tiraram até um lema: “antes um acordo que qualquer demanda”. Claro que isso que digo não significa que não sei que a população em presídios nos países populosos é espetacular e absurdo. Sei muito bem o quanto há de pobres esquecidos nos porões das prisões, com penas já cumpridas. Há ilhas que sobraram do programa da Idade Média em meio ao mundo moderno. Mas a regra, o vetor, a tendência e´que é outra.

Quanto mais “não somos responsáveis por nada” é o imperativo, mais aparecem leis, portanto, de responsabilização. Leis que podem colocar os pais na cadeia, se não pagam pensão, ou jogas nas costas de avós os erros dos pais, ou leis para punir quem abandona seu animal, ou leis para punir o professor por este ter punido um aluno, etc. Mas o processo de desoneração não pode ser bloqueado, ele é inexorável. Então, ao lado disso, há o fim das leis que punem quem faz aborto. O fim de qualquer justificativa para a tortura. A tornozeleira eletrônica. O mundo mais leve é o caminho da sociedade de mercado. Se há peso, ele deve existir em um novo patamar.

Vamos ter que entender melhor esses mecanismos que nos colocam sob o encargo de promover doçuras, levezas, e ve que eles próprios acabam, num patamar outro, por fazer cobranças diferentes, pendurar cangas com pérolas e não cangas de madeira rústica. Não são os celulares e câmeras por toda parte uma tranquilidade e ao mesmo tempo uma perturbação? Tranquilizamo-nos quanto a ladrões, mas ficamos menos tranquilos quanto às possibilidades de termos amantes.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/01/2017.

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3 Responses “Dona Responsabilidade e senhora Culpa vão sair de férias?”

  1. Afonso
    16/01/2017 at 12:21

    Professor, se ” O mundo mais leve é o caminho da sociedade de mercado. Se há peso, ele deve existir em um novo patamar” – seria esse patamar o da “dívida”? Afinal, de certo modo vivemos numa sociedade do endividamento. Parece que uma das contribuições de Nietzsche foi a de ter previsto uma conexão entre dívida, culpa e moralidade da punição (pelo menos válida no mundo antigo). Teria alguma validade (ainda) como nova forma de subjetivação esse debater-se entre o peso da ‘dívida’ (e o consumo etc aí inerente) e o imperativo de “não ser mais responsável por nada?”

    • 16/01/2017 at 15:57

      Os patamares são contínuos. Se você tem dinheiro, tem que ter segurança para não ser roubado e assim sucessivamente. Os patamares vão se tornando frívolos, mas são sofríveis do mesmo modo

  2. Everaldo Barboza
    03/01/2017 at 18:41

    Gostei do texto. Obrigado professor.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo