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01/05/2017

O relativismo não cético


Relativismo não implica em ceticismo, não implica em termos uma distância de paradigmas um do outro que tornam nossa vida impossível. E garantido isso, podemos pensar em educação. 

Gosto do Papa Francisco. Há muita coisa na ética cristã dele que eu compartilho, propagandeio e sigo. E isso mesmo que ele seja alguém que não dá nenhum crédito para a frase de Nietzsche que eu levo a sério: o Absoluto está morto ou Deus está morto. É que para eu adotar as práticas dele, Francisco, não preciso adotar a metafísica dele que, enfim, o encaminha para uma teologia. Muitos modernos fazem como eu.  Ele me deixaria entrar no Céu, claro, embora quando escreve não abre mão de criticar o que chama de “relativismo”. Serei eu um relativista, já que dou crédito para o funeral do Absoluto?

O problema do relativismo me é caro, e, como filósofo, tendo a equacioná-lo à maneira de Donald Davidson e Richard Rorty. Em termos brevíssimos, é como segue.

Para o neokantismo em geral, nós nos relacionamos de dupla maneira com o mundo, representacionalmente e causalmente. Eis a relação causal: algo físico nos toca e reagimos. Ou seja, reagimos a uma pedrada, a uma luz e a um miado ou, nesse caso, a uma onda sonora que mexe em nossos tímpanos. Eis a relação representacional: algo se apresenta no mundo e nós o representamos linguisticamente. Por exemplo, nesse instante vejo que Há o Pitoko na sua caminha, e então reajo criando uma representação linguística do tipo “Há o Pitoko na sua caminha”. Esse tipo de situação parece simples, parece não causar nenhum problema, mas, ao contrário, é complexa e gera sim problemas. Um deles: o da noção de verdade como correspondência. Ou seja, o fato há o Pitoko na sua caminha não seria nada (a não ser que se queira invocar a coisa-em-si) se eu já não tivesse comigo a frase possível de ser formulada “há o Pitoko em sua caminha”. Em outras palavras: não tenho  de um lado o mundo não-linguístico, com o Pitoko na cama, e de outro lado a descrição linguística em forma de representação, dizendo que o Pitoko está na cama. Essa dualidade mundo-linguagem é criada por mim, como se eu pudesse formular uma imagem do Pitoko na cama, como uma foto da realidade, sem que essa foto tivesse já sido mediada pela linguagem que me fornece a cognição, ou seja, o enunciado “há o Pitoko na caminha”. Fico sabendo do que digo que é não-linguístico pela linguagem – esse impasse o neokantismo não resolve. Desse modo, a questão das relações representacionais do neokantismo geraram um impasse. Não é um impasse para o senso comum, mas para os filósofos. Como sair disso.

O esquema para sair disso, ao menos da maneira que eu faço filosofia, é o de apelar para a formulação de Davidson-Rorty. Nesse quadro, não existem relações representacionais, só relações causais. Tudo que há na interação minha com o mundo são relações causais. Desse modo, a linguagem age junto com os sentidos, de maneira que uma luz, um cão no tapete ou uma pedra sempre me atingem de maneira causal, e eu reajo a tudo isso de maneira causal. Mas o que faz então eu achar que há relações causais que nunca mudam, que são as que mostram “a realidade como ela é”, e há outras relações que seriam causais, mas mudam, e que por isso podem não mostrar a “realidade como ela é”? Aí entra o papel da linguagem, o modo que a geramos. A solução para essa pergunta vem de pensarmos assim: há só um tipo de relação, a causal, dizem Davidson e Rorty, mas há descrições distintas dessas relações causais. Em termos filosóficos técnicos: há um monismo ontológico e um dualismo linguístico. Para explicar isso, Rorty dá o exemplo dos dinossauros.

Dinossauros se relacionam conosco por meio de relações causais. Eles são fósseis, e nós os vemos e os estudamos. Eles aparecem para nossa retina e nossa linguagem os descreve. Eles causaram tal descrição. Esse descrição é mutável, pois a cada dia mais achados de ossos e outras detalhes de pesquisa modem mudar nossa visão deles. Mas os dinossauros não se relacionam só conosco, mas também com os seus ovos. Quando descritos não em relação a nós, mas em relação ao seus ovos, eles se mostram ovíparos, e isso é uma relação causal também, eles foram causados por ovos e eles causaram ovos, no entanto, essa descrição não é mutável como a primeira. Pois eles não podem deixar de serem ovíparos. Se um dia deixarem, por termos descoberto mais coisas, eles deixarão de ser dinossauros (ainda que então conservem nomes, talvez  o nome de dinossauros não-ovíparos, se for só alguns e não todos).

Quando descrevemos as coisas assim, eliminamos o problema da representação e da noção de verdade por correspondência, que dela depende. Assim, o que temos são sempre variações de linguagem, sentenças que não precisam ser encostadas no mundo que imaginamos não-linguístico, para termos a verdade. Não temos que pensar que falar de uma relação sob uma descrição que é menos mutável é a que aponta para o real, enquanto que uma relação que sob uma descrição que é mais sujeita a mudar apontaria para o não real. Nosso relativismo é linguístico, não ontológico. O real é descrito de diversas formas segundo a relação que é descrita. Mas, ontologicamente, estamos no mesmo canto.

Essa base filosófica me permite então ser um relativista linguístico, sem precisar ser um relativista ontológico – ou seja, de partida não faria sentido o relativismo ontológico. Mas, caso houvesse sentido e eu fosse um relativista ontológico, teria de saber como falo daquilo que diga que são as mesmas coisas que os outros falam, ou que eu mesmo falo em outros momentos. Ora, faço isso, ou seja, pressuponho que falo das mesmas coisas porque o ambiente muda menos do que penso, e as relações que tenho com ele também. Tenho mais saberes verdadeiros que falsos de tudo, sei mais coisas para então não poder saber outras. Tenho um vocabulário que se fez segundo um meio que é meu posteriormente e de outros. Então, por aproximação em triangulação, entre eu, outro e um meio comum, posso ir acertando os sons que faço com os sons que outro faz ao reagir a mim e ao que há de comum entre nós, e construirmos aí um vocabulário comum. Nunca teremos uma tradução termo a termo, mas teremos sempre uma linguagem possível de gerar a comunicação ou, melhor dizendo, uma comunicação possível de gerar uma linguagem. Desse modo, meu relativismo não leva ao ceticismo, ainda que seja um relativismo.

Posso assim não ter que prestar contas com o Absoluto. Deixo o Absoluto com o Papa. Mas, na prática, a comunicação entre ele e eu se dá. Temos caridade para com  o outro, ou seja, não a caridade cristã, mas o princípio de caridade de Davidson: pressupomos caridosamente um ao outro que quando falamos nos referimos às coisas do meio ambiente que nos atinge de modo semelhante, e que, ao mesmo tempo, somos capazes de obedecer três princípios básicos da lógica, especialmente o da não contradição, ou seja, evitamos ao falar estamos tentando afirmar e negar ao mesmo tempo. Essa caridade que concedemos um ao outro, ou seja, de achar que o outro age segundo a racionalidade, nos permite a comunicação e, portanto, feitos comuns. Podemos então participar de práticas e ações comuns. Podemos participar de normas cristãs comuns.

Essa explicação sobre como a comunicação ocorre também serve para outras situações. Pode explicar o nosso entendimento para tudo, inclusive na escola. E pode mostrar como que uma certa objetividade e neutralidade no conhecimento é possível de ser aspirada. Mas, para tal, volto a dizer junto com Rorty, a liberdade é o elemento básico. Pois a comunicação só se torna comunicação se estivermos em parresia, ou seja, o falar franco, como os filósofos cínicos exigiam. Uma censura tira a parresia, tira o chão comum, destrói a comunicação, elimina o ensino e a própria vida social.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, 58. São Paulo, 22/07/2016. Para saber mais veja meus livros, em especial os que dediquei a Davidson e Rorty. Olhe a lateral do meu blog.

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4 Responses “O relativismo não cético”

  1. Ícaro
    24/07/2016 at 21:27

    Sr. Paulo, acompanho seus textos,mas me deparo com alguns termos que me fazem parar a leitura pra consultas de definições,conceitos,etc, tipo o termo neokantismo. Há alguma indicação bibliográfica pra suprir essa necessidade de uma melhor base da história da filosofia?

    • 25/07/2016 at 00:05

      Após Kant, Ícaro, você tem uma série de autores que mantém o esquema dele, às vezes abdicando do campo transcendental.

  2. Jan
    22/07/2016 at 12:53

    Essa formulação de Davidson-Rorty apresentada, não seria apenas uma descrição corriqueira de como a ciencia funciona?

    Admitindo que uma teoria científica seja uma forma de “linguagem”, na astrofísica, por exemplo, posso dizer que o sol tem uma relação gravitatória com outros objetos massivos porque (1) existe uma força inversamente proporcional ao quadrado da distância entre ambos (Newton), ou alternativamente, porque (2) o sol altera a métrica do espaço-tempo e os outros corpos seguem trajetórias geodésicas nesse espaço deformado (Relatividade Geral).

    Seriam duas descrições mutáveis e futuros “detalhes de pesquisa podem mudar nossa visão deles”. Por outro lado, o sol não vai mudar ontologicamente por causa de (1) ou (2).

    Portanto, o astrofísico também pode ser “um relativista linguístico, sem precisar ser um relativista ontológico”.

    Não tenho certeza se o sol vai sair amanhã, mas baseado em (1) ou (2) poderia calcular que a probabilidade disso é alta. Se os outros entendem a Estatísitica da mesma maneira, então também obterão um valor alto.

    Dessa maneira, o astrofísico pode dizer para seus colegas “amanhã a gente se encontra para jogar bola”, mas sem mencionar as probabilidades para facilitar a conversa. Assim, “na prática, a comunicação entre ele e eu se dá”.

    Além de não achar nada original essa formulação, fica parecendo que a cognição humana se reduz a uma mera coleção de induções justificadas operacionalmente a posteriori pela Estatística. (o universo muda pouco de ontem para hoje, o cérebro dos outros é feito mais ou menos igual que o meu para seguir regras lógicas, etc.)

    Já que foi falado sobre (neo)Kant(ismo), tudo isso lembra a teoria kantiana do juízo estético, que é universal mas não necessário, sem a força do imperativo moral. Nesta analogia:

    universal = posso me comunicar com os outros respeitando regras lógicas.
    não necessário = existe lugar para o relativismo da linguagem.

    Um detalhe final: Se o Papa estiver doente provavelmente irá recorrer à ciência médica, em lugar de simplesmente se deitar e rezar, como acontecia em tempos medievais, devido à falta geal de conhecimentos médicos. Portanto, mesmo para o Papa “Deus está morto” também, pelo menos em algumas áreas onde foi substituido pela medicina, por exemplo.

    • 22/07/2016 at 13:27

      Não Jan, sobre o início. Nada disso. Relação causal e relação representacional precisam ser vista com mais atenção da sua parte. O que está sendo analisado são sempre relações, não coisas. Repare nisso. É preciso ler sem tanta coisa na cabeça para entender. Mas caso quiser seguir a pista do assunto, veja o livro “Introdução à filosofia de Donald Davidson” (como indico na margem do blog) Ao final, sobre o Papa, religião e medicina estão separados faz tempo na Igreja.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo