Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

25/07/2017

Reforma do ensino médio: o buraco é mais embaixo


A Reforma do Ensino Médio em pauta agora no Congresso, via MP do governo Temer, é a mesma que foi elaborada no governo Dilma. Também é a mesma, em espírito, esboçada no governo FHC e no governo Lula. Que não se esqueça que Cristóvam Buarque, ministro da Educação de Lula, chegou a comentar que o interessante seria um exame que verificasse conhecimentos de português e matemática – só! Essa frase ecoou para além da direita e da esquerda. Pois no fundo, é hegemônica a tese de um currículo enxuto e com prioridades dadas por uma noção esquisita de que temos que nos adaptar a certa escala epistemológica, que dita o que é válido e o que não é válido ser ensinado no mundo atual. Qual escala é essa?

O currículo que temos na cabeça, quase todos nós, é moldado por um tipo de platonismo e de positivismo. Pelo platonismo, temos de aprender as matemáticas, pois elas “ensinam a pensar coisas abstratas” e nos educaria para chegar mais facilmente ao mundo das formas puras. Pelo positivismo, podemos aprender a língua pátria para nos fiarmos romanticamente na nossa comunidade e, além disso, precisamos das ciências naturais para, caso possamos sair do platonismo e acreditar que Deus está morto, ou seja, que não há absoluto, tenhamos então novos deuses: os semi-absolutos vindos dos modelos, ou melhor, resultados da ciências modernas. Querer tirar essa visão, em suas versões populares, da cabeça nossa enquanto membros da civilização ocidental, que soube absorver isso para uma sociedade tecnológica e de mercado como a nossa, é tarefa hercúlea. Talvez impossível. O mundo ocidental não consegue pensar em outro currículo para o ensino dos jovens. Para falar a verdade, até chegarmos nessa MP do Temer, o Brasil era um dos poucos países que vinha resistindo. Somos ainda uma aberração no mundo por mantermos filosofia, sociologia e história no nosso ensino médio como obrigatórias. Uma boa aberração, que não temos sabido honrar.

No fundo, resistimos ao mundo, uma boa resistência. Mas não soubemos valorizar essa conquista. Não pagamos bem os professores, não temos bom ensino, então, como não podemos falar em salário para professores no Brasil, pois isso ofende o governo e a sociedade, acabamos por encontrar um bode expiatório para nossas mazelas escolares. Descobrimos frases críticas, vejam só: temos “uma escola não atrativa”, dizem uns, “uma escola com grade curricular grande demais”, dizem outros, e finalmente a solução, “vamos tirar as perfumarias”, vamos tirar aquilo que o platonismo e o positivismo, no mundo todo, mandou tirar: as Humanidades, ou seja, o “beletrismo”, o “enciclopedismo”, o “inútil” etc. Crítica velha, feita já às vezes até corretamente pela direita e esquerda, mas em geral feita de modo catastrófico. Pela direita, essa crítica veio pelo movimento que uns chamaram de “tecnicismo em educação”. Pela esquerda, veio por vertentes da Escola Nova, na qual até boas cabeças como Anísio Teixeira, Darci Ribeiro e Paulo Freire tiveram lá sua culpa. Gente que não estuda, mas que é metida a reformador e ministro de esquerda, não sabe disso. Da direita, não cobro nada mesmo, nunca sabe nada.

Assim, do mesmo modo que não soubemos enfrentar a reivindicação do movimento Escola sem Partido, também agora não sabemos enfrentar a Reforma do Ensino Médio Dilma-Temer. No caso do movimento Escola sem Partido, a resposta foi ridícula: boa parte dos que foram contra endossaram as teses do adversário, pois decretaram que a escola é mesmo ideológica, política etc. Não souberam explicar o que é a objetividade escolar, dada pelos clássicos. Deram armas para a direita retrógrada, confirmando o que tal direita acusava em nossa escola. Agora, diante de Temer, o mesmo impasse, não se sabe falar em favor dos clássicos por eles mesmos, e o resultado é o blá blá blá imbecil de quem inventa fantasias como “sem filosofia os alunos não serão críticos”.

Temos de convencer as pessoas que Newton e Machado de Assis são importantes, que Platão e Fernando Pessoa são fundamentais, que Euclides, o Basquetebol e Mozart são tudo que precisamos. Se não pudermos dizer isso para a sociedade, que são os clássicos o conteúdo do ensino médio, vamos deixar mesmo que o Escola sem Partido e também a Reforma Dilma-Temer passem por cima de nós. Mas isso por culpa nossa, por incultura nossa, por incompetência nossa. Por nossa mania de estamos agora também achando que palestrante de mídia sabe algo de educação.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 23/04/2016.

VEJA O VÍDEO: Reforma do Ensino Médio para um país de gênios

Tags: , , , , , , , ,

37 Responses “Reforma do ensino médio: o buraco é mais embaixo”

  1. 13/12/2016 at 02:28

    Ele, a bordo do seu exíguo barquinho, talvez tenha consumido, ao longo dos anos, maionese vencida e como vazo ruim não quebra, o incansável navegador foi acometido de sucessivos epísódios de botulismo e isso fez com que seu pequeno cérebro fosse seriamente afetado. Pois é, isso é que leva o indivíduo a “viajar”-ou “navegar” tanto na maionese(vencida).

  2. 12/12/2016 at 21:19

    Em entrevista à rádio CBN, na semana passada, o navegador Amyr Klimk declarou simplesmente que disciplinas como Filosofia, Sociologia, História, Literatura, deveriam desaparecer dos currículos escolares, devido à completa “inutilidade” de todas elas. Segundo ele, na Finlândia, país muito visitado por ele, uma criança, um jovem, enfim, aprende todas essas matérias de Ciências Humanas, não na teoria, mas sim, na prática, construindo, por exemplo, um iglu, aquelas casas de gelo, existentes por lá. Para ele, é outro “método” de ensino, muito mais avançado que o nosso.

    • 12/12/2016 at 21:33

      Paulo Teixeira não é à toa que ele é um navegador, não uma pessoa.

  3. Cesar Marques - RJ
    09/12/2016 at 11:41

    O que me chamou a atenção nessa propaganda foi o seguinte: Quando o aluno levanta para informar aos seus colegas de classe como será o novo ensino médio, ele elenca vários países que serviriam como referência educacional para o Brasil. Mas todos os países elencados tem uma coisa em comum e que não foi citado pelo tal aluno da propaganda, que é a alta valorização salarial que tais países dedicam aos seus profissionais do magistério, e tal valorização sequer foi comentada pelo tal aluno da propaganda.

  4. Luciano Dorkas
    09/12/2016 at 11:13

    Engraçado ninguém tocar no assunto da Língua Estrangeira Moderna. A imposição do inglês fez com que muitos professores de Espanhol fossem despedidos. Isso depois do próprio país incentivar a criação do curso de Espanhol nas universidades para suprir a falta de professores neste campo. Quantos vão para rua? Aqui em Goiânia começaram já a chamada adequação cortando essa matéria em muitas escolas ou diminuindo a sua carga drasticamente.

    • 09/12/2016 at 17:42

      Espanhol não faz parte de nossa tradição. Nossa tradição era o grego, o latim e o francês, seguido do inglês. O espanhol é tardio. Poderia, este sim, vir como opcional.

  5. Angela Peralva
    29/10/2016 at 17:34

    Prezado professor Paulo, tentei localizar a proposta de reforma do ensino feita pela presidente Dilma, não consegui. Não encontrei proposta encaminhada ao congresso. Apenas vi um comentário feito durante a campanha: ” O jovem do Ensino Médio, ele não pode ficar com 12 matérias, incluindo nas 12 matérias Filosofia e Sociologia. Tenho nada contra Filosofia e Sociologia, mas um curriculum com 12 matérias não atrai o jovem”.

    Li também todo o programa de campanha e lá nada é explicito. O Sr. poderia me dizer onde encontro o projeto? Lembro bem de falas como a de Cristovão Buarque, mas não um projeto estruturado.

    Obrigada, Angela

    • 29/10/2016 at 18:28

      Angela, fiz um artigo na Folha na época e lembro estar com o vídeo da proposta, e também uma entrevista na Globo.

  6. Patrícia de Aguiar
    27/09/2016 at 16:14

    O Temer tirou uma onda com a cara dos Filósofos ao arrancar praticamente a Filosofia do Ensino Médio. Não haverá vingança? ahahahha

    • 27/09/2016 at 16:52

      Patrícia de Aguiar fiquei com um pouco de dó de você. Brasileiros assim, que riem quando acham que é bom para o Brasil menos ensino, eu tenho dó.

  7. LMC
    26/09/2016 at 11:48

    Outra frase crítica:”Agora que
    tivemos as Olimpíadas,vão
    tirar as aulas de Educação
    Física”.Os EUA,que foi o
    país que mais ganhou
    medalhas nesta Olimpíada.
    é também o país do
    fast-food.Bah….

  8. Hugo Lopes de Oliveira
    25/09/2016 at 18:38

    Com escolas sem alimentação, sem internet, sem biblioteca, sem professor (com gente que não é formada naquilo que leciona) e sem salário para o professor, alguém acredita mesmo que o problema é pedagógico?

    • 26/09/2016 at 08:59

      Pois é Hugo, acreditam, ou querem nos fazer acreditar na força.

  9. LMC
    24/09/2016 at 11:10

    Se estivessem vivos,os mestres
    Darcy,Freire e Anísio certamente
    não aceitariam essa idéia que
    está aí em forma de MP pra
    ser enviada ao Congresso.

  10. Felipe Souza
    24/09/2016 at 07:21

    Bom dia professor. O que o senhor diria do sistema atual? Eu tenho escutado que seus conteúdos são inúteis para vida, talvez ai algo mais pessoal porque eu não diria isso no meu caso, mas é comum ouvir “nunca usei bhaskara”.

    E mais, falta a escola estimular os alunos a desenvolver o seu dom? Pior ainda, impedir isto.

    E por fim, este final foi para o Cortella? Já vi o senhor dizer que é teu amigo (rs)

    Valeu!

    • 24/09/2016 at 07:55

      Cortella não engana ninguém, ele é um autor motivacional e ganha dinheiro no circuito de palestras empresarial. O que eu não suporto são os tipos Pondé e Karnal, que ensinam errado, falam do que não leram, são ideólogos de partidos e querem se passar por professores. São falsários. Agora, no caso do Safatle eu não gosto porque ele é burro demais.
      Sobre conteúdo útil, sobre o cara que nunca usou Baskhara, é que ele não sabe a fórmula, por isso ele diz que não usou. Outros usaram no que ele faz e no material que ele usa. O ensino médio com os clássicos é para todos, mas não é para qualquer um. VEJA ISSO: https://www.facebook.com/ghiraldelli.filosofia/videos/1120558407981001/

    • Felipe Souza
      24/09/2016 at 08:19

      Já percebi isto do Pondé, mas não do Karnal, vejo ele fugir muito da História. Inclusive ando buscando material do Karnal sobre educação, mais para o lado da prática do professor.

    • 24/09/2016 at 08:30

      Felipe, meu blog aqui tem críticas ao Karnal, ele é até pior que o Pondé em certos aspectos. É mal formado .

    • LMC
      24/09/2016 at 11:07

      Pondé é pior que Karnal.É só ver a
      defesa apaixonada que ele faz do
      grande líder(?)Donald Trump.
      O Pondé é um Olavo de
      Carvalho 2.0.

    • 24/09/2016 at 11:41

      Pondé faria o mesmo para um líder de esquerda

    • Gustavo
      25/09/2016 at 01:15

      Sobre o uso de Bháskara, a afirmação responde a uma pergunta equivocada: o que é útil no dia a dia?
      E quem pode afirmar que utiliza Machado de Assis para resolver situações do cotidiano? E Homero? E Newton? E Mozart? Galileo? Platão? Aristóteles? Michelangelo? Da Vinci? Beethoven? Não se trata de ter que utilizar de forma direta os conhecimentos da cultura clássica no cotidiano, mas de receber uma formação que ao mesmo tempo é uma herança viva através da educação e que faz com que as pessoas se identifiquem mediante essa cultura. É a vivência experimentada por meio dos clássicos que nos conecta. Euclides não é importante para resolver problemas imediatos do cotidiano, é importante para aprendermos um modo de raciocinar que é rigoroso e segue regras de inferência precisas que influenciaram o pensamento por mais de dois mil anos (basta lembrar da “Ética demonstrada à maneira dos geômetras” de Espinosa). Ninguém pode dizer que sabe exatamente o que vai ser realmente útil em sua vida, tudo o que podemos ter é um repertório de saberes que possam ser articulados.

      Inté.

    • 25/09/2016 at 08:35

      Gustavo, pode ser, mas também no dia a dia eu uso coisas que sem a função de segundo grau, não conseguiria. Jogo basquete, o que tenho que fazer é uma parábola. Eu posso não saber a matemática da parábola, seu ponto crítico e a força que tenho que fazer com a bola para que a parábola seja econômica e a bola entre na cesta de seu melhor modo, mas quem me ensinou sabe, e se fez bom curso, sabe através do estudo da física. É assim que funciona a técnica, com ciência e prática acopladas. É uma questão cotidiana. Agora, com Machado, a coisa é mais cotidiana ainda.

  11. Fernando
    24/09/2016 at 00:43

    Acredito que concordamos que o ensino médio hoje é uma coleção rígida e incoerente de conteúdos. Sujeito aprende nomenclatura de compostos orgânicos mas não sabe fritar um ovo, abotoar uma camisa ou calcular um imposto de renda. Estou longe de defender Dilma ou Temer, mas veja que, com qualquer imposição, privilegia-se alguns conteúdos em detrimento de outros. Como é impossível ensinar tudo, me parece mais razoável equipar os alunos com saberes fundamentais (como trivium) e que o resto seja opcional, existindo apenas linhas mestras, permitindo os alunos exercerem suas individualidades. Com isso se perde o inesperado, é verdade. Aquele de humanas talvez não terá as dores e delícias de conhecer as equações de Maxwell, aquele de exatas talvez não se deparará com os argumentos para existência de deus de Aquino. Mas ao menos, alguns vão saber sobre Karl Marx e outros sobre Groucho Marx.

    • 24/09/2016 at 07:21

      Fernando quem ensina você a fritar um ovo é sua mãe, se você não tem mãe, não conte com o professor de Química para isso. Acorda!

    • Fernando
      24/09/2016 at 10:46

      Morei alguns anos na Suécia e lá todo mundo aprende a cozinhar na escola!

    • 24/09/2016 at 11:41

      Fernando, volte para lá e matricule-se. Aqui temos mãe.

    • 24/09/2016 at 11:42

      Fernando, matricule-se e aprenda a fritar seu ovo.

    • Fernando
      24/09/2016 at 10:49
  12. 23/09/2016 at 23:39

    Na minha opinião, tudo depende da vontade de conquistar algo, se isso existir, a pessoa estuda em casa por vontade própria, não adianta o governo mudar as regras do estudo, ele tem que fazer as pessoas gostarem de estudar.
    O mundo evoluiu, por alguns desejaram um mundo melhor, não porquê as pessoas quiseram fazer as coisas melhorar fazendo regras, tem que que fazer as pessoas desejarem, isso chama-se incentivo, as regras fazem medo, se não desejar não vai acontecer, engana-se quando se quer fazer melhorar fazendo coisas racionais, tem que fazer coisas emocionais.
    Eu aprendi que quando a emoção e a razão se alinham, as coisas saem da imaginação para o real e quando se obriga as pessoas agirem por medo de perder a razão, as coisas saem do real para a imaginação.
    O governo tem que fazer as pessoas acreditarem que podem fazer, e não inventar regras para botar medo, o medo destrói é uma coisa que alguns que se acham superiores e impõe aos outros.

    • 24/09/2016 at 07:25

      Ronaldo se você conta com a vontade você faz sua vida, agora, um país pensa em política educacional, e esta não pode contar só com a vontade, ela precisa ter regras, incentivos, canalização. Aprenda isso. Aprenda a distinguir as questões pessoais das questões gerais da política.

  13. 23/09/2016 at 20:35

    Excelente interpretação e muito boas sugestões para o conteúdo do ensino de artes e de filosofia clássica.Será que não se Vê que as gerações dos anos 60 r 70 que fizeram ginásio e cientifico estudaram filosofia e literatura clássica ,que são hoje as melhores cabeças do país? Então Temer já disse que não será retirado o ensino de filosofia , geografia, historia,educação física .Além do que sabemos como a escola do ensino médio é chata e ainda querem prender os alunos em tempo integral ?Credo!Só se for para ensinar teatro,cinema, literatura, poesias, clássicos da filosofia e princípios de nutrição, meio ambiente, saúde física e mental. Nos brinde com a sua opnião a respeito da escola integral, por favor. Obrigada!

    • 23/09/2016 at 22:22

      Dirce, a escola integral é uma necessidade, mas se for para não ensinar nada, de que vale?

  14. Alisson Guimarães
    23/09/2016 at 19:04

    uma pergunta a escola que resolvesse estudar os clássicos não poderia acabar levando a um posicionamento, se isto ocorrer em que medida poderia ser vista como ideológica?

    • 23/09/2016 at 22:23

      Alisson você nunca foi na escola? Nunca aprendeu as leis de Newton? Nunca aprendeu Machado?

    • Rafael Costa
      23/09/2016 at 23:35

      Narradores esportivos já descobriram algo que muito mídiagogo ainda não descobriu. Clássico é clássico e vice versa kkk.
      O clássico visa saberes universais. Coisa que nem a direita nem esquerda sabem diferenciar.
      No Brasil então, as pesssoas além de ficarem presas a esquerda e direita ainda são devotos de Lula, Bolsonaro, entre outros débeis.
      O mundo dos clássicos nunca será politizado, muito menos partidário. Cabeça pequena.

    • 24/09/2016 at 07:36

      A alegação será certamente ideológica …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *