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20/09/2019

A Rede Globo continua, o PT não


O Globo Repórter fez hoje, dia 15/04, um programa sobre como que o brasileiro consegue “com trabalho e criatividade driblar a crise”. Caso eu tivesse hibernado nos anos setenta e acordado agora, salvo a cor da tela e o cabelo grisalho de Sérgio Champelin, não sentiria qualquer diferença. A ideia é a mesma de sempre: não há crise que possa abater o brasileiro e, diante de dificuldades, pode-se esquecer a quebradeira geral, a inflação, a mendicância na rua, pois na casinha de cada um, na famosa microempresa, na economia doméstica, cada brasileirinho, como um europeu milagroso diante da Guerra, resolve tudo. Há uma mágica humana no Brasil. O brasileiro é na vida, como no futebol, criativo. Era criativo no futebol, naquela época, nos anos setenta, de fato.

Esse discurso, quando eu era jovem, acoplava-se à propaganda do Delfim Neto e de Mário Simonsen, que seguiram Roberto Campos nesse delírio de servirem ao liberalismo econômico sem democracia. O lema era “não fale em crise, trabalhe”. Algo que, se alguém começasse a contestar, logo recebia outro, não mais como conselho, mas como aviso policial: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Há certas coisas que não mudam nunca em uma empresa, senão em toda ela, ao menos em parte. Essa ideologia que, agora, se chama “empreendedorismo”, sempre esteve abrigada na Rede Globo. É a própria história que Roberto Marinho montou para ele mesmo, como sendo sua possível biografia de self-made-man. Essa ideologia sempre terá, na empresa Globo, um lugar. Durante já uns dois anos ela vem funcionando a favor do governo e do PT, que é o responsável pela crise atual. Todavia, diferentemente da Ditadura Militar, o governo do PT não pode agradecer a Globo por isso.

O governo do PT criou a Globo como uma inimiga, como uma instância mais poderosa que o governo, e que, então, é o verdadeiro poder que deve ser combatido. Tática velha do populismo mundial, mas que aqui na América Latina encontrou recanto próprio e aconchegante. Vargas, Jango, Brizola, Jânio e Collor vomitaram isso contra a Globo. Sim! Até Collor, que tinha uma concessionária da Globo, fez isso em seus dias de Impeachment.

Mas, no caso do PT, a coisa é pior. É que o PT criou uma mentira para si mesmo, fruto de uma leitura banalizada a respeito da mídia. Na base do PT não há qualquer outra teoria de mídia que não o restolho, quase que no mesmo nível de formulações cerebrais de um Bolsonaro, de uma tese infantil que diz que há uma “indústria cultural que serve ao capitalismo”. Só isso um Bolsonaro saberia dizer, se fosse do PT. Só isso o PT sabe dizer, mesmo que alguns dos que repetem isso, no partido, tenham até feito a USP. É um marxismo capenga, de boteco, misturado a jargões jornalísticos da Teoria Crítica. Tudo isso faz da Rede Globo alguma coisa que é contra a Vanguarda do Proletariado, ou seja, a vanguarda assaltante da Petrobrás em favor do estelionato eleitoral – o Partido dos Trabalhadores. Sendo assim, não há mesmo como o PT entender que hoje ele faz exatamente o que o governo da Ditadura Militar fazia, tenta cercear a Rede Globo, porque ela tem gente que lhe faz oposição, tenta desacreditá-la, e ao mesmo tempo usa de partes dela em seu favor, para propagandear uma ideologia barata de apaziguamento social. Os programas do governo ultimamente diziam exatamente o que Sérgio Champelin disse hoje.

O imbróglio formado pelos três elementos, a saber, o resto apodrecido de Teoria Crítica, o bolchevismo de gângster e a rede de blogueiros bandidos, é o que o PT tem para entender a mídia. O entendimento que emerge da práxis desse imbróglio também alimenta o entendimento do PT 2.0 e todos os criptopetistas na universidade. É como se ninguém tivesse ultrapassado os meus 16 anos. Todo mundo chegou até 1974 e dali não saiu mais. Quando tentam ler coisa nova, voltam ao que naquela época já era velho: Chomski berrando, dizendo que o povo é manipulado, só ele que não – milagroso!

Uma boa coisa que pode ocorrer com o fim do PT é, talvez, afastar de vez a Universidade dessa formulação estúpida, o que poderá dar espaço para novas teorias que, no exterior, já são relativamente clássicas.  Esse é um país que desconhece Thomas Macho, que não lê Peter Sloterdijk ou Borys Grois, que nunca conseguiu compreender Richard Rorty. É um país com uma esquerda obtusa que absorveu Foucault no seu oposto, o freudismo marxista! Aliás, o mais engraçado é que a direita, sempre imbecil, comprou esse peixe estragado. Aqui, uma teoria melhor quanto às relações entre mídia e sociedade não se desenvolvem. A burrice do PT dominou toda a esquerda. E o engraçado, como já disse, é que a direita seguiu exatamente as mesmas teorias, e vive culpando a TV e a internet por “dominar o povo”, “fazer cabeça” etc. Não há um esforço para se analisar no que uma empresa pode ou não alimentar informações que permeiam a sociedade, e como essa empresa também está inserida nessa sociedade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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7 Responses “A Rede Globo continua, o PT não”

  1. Orquideia
    16/04/2016 at 22:41

    Prof.Ghiraldelli, sempre reparei que em nosso país existe um “freudismo marxista” ou um “marxismo freudista”,e fico pensando como é possível uma união tão bizarra.
    O freudismo e o marxismo,bons ou ruins,dão menos errados,sozinhos.
    Juntos,fazem miséria em nossas mentes em todas as questões de interesse.

    Faço coro com o amigo acima.
    ‘brigada de dizer isso,’góra sei que essa idéia não era nenhum “melindre” meu.

    • Orquideia
      16/04/2016 at 22:48

      Como não sei onde a réplica vai aparecer,contarei que eu disse que “fiz coro” com o Guilherme Almeida.

    • 16/04/2016 at 22:58

      Orquídea não é união bizarra, é a base da Escola de Frankfurt. Agora, é claro que quando vira algo popularesco, de partido, fica ruim.

  2. Kaio
    16/04/2016 at 11:13

    Nesse ponto concordo contigo, apesar da Globo em certos momentos fazer uma oposiçao ao governo da Presidenta Dilma, não acho que a Globo tenha a mesma força que ela tinha no passado, antes da internet. Só não acho que será o fim do PT caso o impedimento seja aprovado, pois no Brasil temos muitos problemas sociais e o PT tem muito o que ajudar o país a superar esses problemas.

    • 16/04/2016 at 11:42

      Kaio, o PT está preocupado em roubar, só isso. E sobre a Globo, minhas observações, juro, não são tão simplistas assim, sobre oposição ou não oposição.

  3. Guilherme Almeida
    16/04/2016 at 04:01

    “É um país com uma esquerda obtusa que absorveu Foucault no seu oposto, o freudismo marxista! Aliás, o mais engraçado é que a direita, sempre imbecil, comprou esse peixe estragado.”

    Um alívio ler isto, formulado de maneira tão precisa. Sou professor de filosofia e corto um dobrado para desfazer exatamente este, que, a meu ver, é apenas um dentre tantos outros desserviços que vejo colegas professores(!), à esquerda e à direita (pouco importa neste caso), reproduzirem adiante. Às vezes minha paciência mingua, porque para aqueles que – ainda que sejam professores de filosofia, só se interessam pela atividade filosófica como recurso retórico ou erístico para interpretar os fatos ao ritmo do noticiário – talvez não haja “salvação”, nem ouvidos de ouvir : o desejo pela filosofia nunca correu em suas veias, apenas o desejo totalitário de conversão de si próprio e dos demais. Como disse Deleuze, “nem tudo convém a todos”, só nos resta desmascarar sem parcimônia tais usos da filosofia apenas em busca de claque e confete anti-isto ou pro-aquilo. Obrigado por dizer o que precisa ser dito, prof. Paulo. Acompanho seu trabalho há uns 15 anos.

    • 16/04/2016 at 08:25

      Guilherme, se me acompanha há 15 anos, pegou quase a metade. Que dureza não? Como podem as pessoas que deveriam ser bem formadas ficarem cegas pela “ideologia que está no ar”? Nós mesmos, filósofos que nos policiamos contra isso, nos surpreendemos. Não é?

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