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24/06/2017

Reconceituando o estresse


Nada há de mais errado que acreditar que o estresse pode ser retirado de cena se trouxermos as pessoas para uma vida na calmaria das pequenas cidades ou do campo, ou que ele seria atenuado se nossas grandes cidades tivessem uma vida mais organizada.

O vocabulário que permite ao estresse existir tem a ver com a modernidade, é claro, e mais ainda é assim com a sua patologização, com mil e uma variantes e canais especiais. Todavia, essa linguagem não tem como ser substituída por algo que a anule completamente. O estresse terá vida longa, e é habitante de todo e qualquer espaço atual.

Isso é um problema? Não! É até uma maneira de ampliar empregos, pois a indústria farmacêutica precisa ganhar e também os médicos precisam de mais doenças para mais especialidades e mais campo de trabalho. Ninguém vai ficar menos ou mais doente do que já poderia ficar, tendo agora o estresse na praça. Pois ele não é fruto de uma sociedade que torna a vida pesada, mas, bem ao contrário, só trouxemos essa palavra — stress — para o nosso vocabulário moderno porque adentramos na “sociedade da leveza”. Não o criamos por decisão voluntarista, mas certamente por liberdade.

Diminuímos as horas de trabalho de todos no mundo todo, até nos lugares pobres. Trouxemos o cuidado com a infância e a própria infantilização para todo o planeta, e com isso aumentamos o espaço de mimo e luxo. Libertamos a mulher da natureza, dando-lhe a condição de poder ter filhos e, enfim, de poder não tê-los também. Criamos uma sociedade da mercadoria mediada pelo dinheiro, fazendo cair a ideia de pertença em favor da ideia de acesso a tudo e todos, e acoplamos isso a mecanismos de meios de comunicação de todo tipo e com possibilidades instantâneas. Geramos o Welfare State para uns, horizonte para outros, e a filantropia para a América. Nenhuma outra época possibilitou tamanha leveza, tamanha capacidade de aproximar o bípedes-sem-penas de Platão aos deuses de Hesíodo. Por isso mesmo aumentamos as horas de lazer e instituímos uma sociedade do entretenimento, da individualização e do reinado do apartamento single e do sexo casual. Ampliamos nossa androgenia, reivindicações feministas e campo do homoerotismo. Até a DR virou show público e também entretenimento. Até a nossa própria DR passou a nos divertir. Aliás, temos agora tempo para usufruirmos da super morbilidade: jovens hoje falam de doença e saúde como os velhos, ou seja, eles se entretém com isso. Estar estressado é parte desse entretenimento.

Também desoneramos nosso aprendizado. Não temos mais formação alguma, lidamos com tudo na superficialidade da informação, na gugounização (“google it”) do mundo, nosso arremedo de paideia. E se precisamos de mais que isso para nos sentirmos como indivíduos que atuam como sujeitos, ou seja, gente com desinibição a partir de alguma sabedoria para um suposto jogo de “dar e pedir razões” (antigo nome da filosofia), contratamos consultorias, onde bobos sabichões do stand up fingidos de filósofos (vindos da Casa do Saber e não mais da Universidade) nos dizem coisas para podermos agir, coisas que eles não sabem. Adquirimos a liberdade de escolher quem vai nos enganar.

Numa sociedade onde todos estão leves, a ideia do tédio (Heidegger nos avisou!) se imiscui com a ideia de que é preciso repor o peso, antes que alguém morra de desgosto ou morra por ficar como em um balão sem rumo. Trata-se da insuportável leveza do ser. Não ter peso é como não estar no real. Precisamos de algum ontologia, é Deus! Então, como abolimos a vida sob necessidade, criamos necessidades. A liberdade é a liberdade de se estar escravo dela: temos de exerce-la (Sartre nos avisou!). Temos de ser livres para escolher novas necessidades. Fazemos o desporto ficar sério para que ele pareça uma necessidade (Veblen nos avisou!). E o trabalho vira desporto, pois até ele já não é de fato necessário — não como era antes. O estresse é, na verdade, a agitação de recriarmos afazeres para nosso Complexo de Ícaro. Voamos alto e como nenhum Dédalo nos chama de volta, vamos nos despedaçar. Dizer que se está estressado é uma maneira de nós mesmos sermos nossa voz de Dédalo. Voz para surdos, pois nossa música está num volume que nos faz escutar pouco.

Claro que podemos tomar remédios e nos sentir melhor. Claro que depressão existe com causa física (ou psicológica, é a mesma coisa), mas depressão não é estresse. Estar atribulado, exageradamente cansado, disposto a jogar outro jogo e passar a outro divertimento porque o que estamos já está chato demais, é alguma coisa de nossas opções. Nossa sociedade nos desonerou de tudo. Até a morte não pesa mais. Então, criamos a cada dia, principalmente a cada noite, novas onerações artificiais. É preciso notar que até mesmo sociedades de formigas fazem isso. Quando há uma sobra de elementos sem função, o que hoje já se sabe que pode ser 25% do formigueiro, há também o hobby de ter pulgões, os quais são levados para tomar sol, sem qualquer utilidade real para o formigueiro que seja uma utilidade do campo da necessidade. É como qualquer jogo: há estádios monstruosos para eles e eles geram dinheiro, mas não pertencem ao campo do necessário. São invenções de nossas elites (herdeiras da competição vinda da guerra), que durante o século XX foram se democratizando. Alias, quem diria que o futebol, proibido aos operários, virasse um jogo popular?

Os médicos podem ganhar uma visão filosófica melhor do estresse. Podem assim fazer lendo o terceiro volume das Esferas, de Sloterdijk, ou mesmo O Palácio de Cristal, do mesmo autor. Livros para filósofos, arquitetos e putas inteligentes. Vou torcer para que existam médicos capazes de tal proeza, o que não é fácil, pois atualmente temos até gente bancando filósofo lendo Mestre Eckhart sem Heidegger, Marx sem Hegel e Pascal sem Descartes. Isso sim me estressa.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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One Response “Reconceituando o estresse”

  1. Maximiliano Paim
    13/12/2015 at 20:30

    Se pode dizer em teoria que o crítico, por ser culto, não é compatível com a leveza já que está quase sempre com o seu radar funcionando?

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