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28/04/2017

Rebeldes censores e censores rebeldes em 2015


Em entrevista recente no St John’s Divinity School no Reino Unido, Peter Sloterdijk disse que “o homem moderno e o pós-moderno não vivem somente na ‘casa do Ser’ (como Heidegger chama a linguagem), mas, implementadamente, no domicílio tecnosférico”. Essa observação dá o que pensar. Estamos longe, nesse caso, de qualquer expressão banal a respeito de vivermos numa era tecnológica. A frase do filósofo alemão lança uma comparação com detalhes filosóficos profundos. O que está em jogo é a comparação entre a ‘casa do Ser’ e o espaço, também tomado segundo a ideia de habitação, de lar, como um espaço tecnosférico.

As consequências dessa nova moradia são expressas por Sloterdijk: no mundo do dinheiro e da informação, ampliação é tudo, e o campo da inteligência artificial e da artificialidade da inteligência desenvolve-se de modo expansionista em todos os aspectos da existência. “Nesse sentido, a existência no mundo técnico per se é caracterizada por artificialização sempre crescente” – ele diz.

Como eu o leio, Sloterdijk está falando que estar na ‘casa do Ser’, a linguagem, como lar tecnosférico ou lar da inteligência artificializada, é colocar a própria linguagem sob a ordem e feitio do artificial. No plano da artificialidade, dentro “do mundo do dinheiro e da informação”, podemos ver algo como o drama entre clouds e escolas. As segundas oferecem o conhecimento institucionalizado, mas que não sabem ao certo se o que fornecem é o que tem de ser fornecido; e as primeiras, que se põem com aparente autoridade, disponibilizam o saber não institucionalizado, que reaparece como reino de mentiras e confusões, repetindo balbúrdias informativas ideológicas que já vivemos no século XX. Há impérios de fomento da mentira e da mera propaganda – e eis então que o Iluminismo não morre, pois ainda é o que enfrenta tais coisas.

Mas Sloterdijk tira mais conclusões disso tudo. Junto dessa forma de des-institucionalização do conhecimento, em companhia a tal fenômeno, a cultura pós-moderna amplia a cultura moderna em um sentido, especial, o de certo tipo de individualismo; e a reação a tal coisa se dá pelo fenômeno mundial do novo tribalismo. As pessoas se agregam a grupos, sejam eles quaisquer, para recuperar ou adquirir algum tipo de identidade que, na vida individualista em moldes do artificialismo vigente, se põe como alternativa para a identidade que não vingou. Afinal, ser indivíduo com direitos, mas solitário, parece ser uma condição, mas não uma resposta ao anseio de identidade.

No meu jargão, essa observação de Sloterdijk pode ser posta da seguinte maneira: estamos falando e gesticulando, mas não estamos de fato conversando e agindo. Estamos emitindo sons que refletem os sons do maquinário que fala e mostra imagens (nossas mesmo), e somo antes figuras agitadas que atores. Vivemos num frenesi de entretenimento e de trabalho-em-forma-de-entretenimento garantido por essas mesmas máquinas. Parece-me nítido que isso revela um retrato da vida moderna que se ampliou assustadoramente na vida pós-moderna.

Desse modo, o homem habita a linguagem como ‘casa do Ser’, mas tem também um habitat, um lar, na tecnosfera. Bem, fundimos essas moradias, e é a própria linguagem, então, que ganha suas características de coisa artificial, sua des-institucionalização, sua propensão à mistura faz proliferar os discursos que “falam qualquer coisa”. Nunca estivemos num reino–do–fala-se–qualquer–coisa como agora. Para lançar uma mentira Hitler escreveu um livro, então contou com um movimento já existente de anti-semitismo. Agora, um líder mundial pode lançar uma mentira, como a de que o Holocausto foi criado por um palestino, e ser “lido” por milhares de modo instantâneo, sem qualquer mediação do tempo (o livro permitia, ainda, o debate e a formação da resistência, não só da mobilização favorável). É o tiro rápido que arranca a energia de todos, uma vez que é preciso parar tudo para emitir uma informação contrária, uma vez que num ambiente sem hierarquias de informação, tudo vale.

Assim, a rebeldia muda de caráter. O jovem de Maio de 68 tinha uma rebeldia a partir da linguagem ideológica. Ideologia é ruim! Temos agora coisa pior. O jovem atual (sim, ele pode ter 50 anos!), que parece querer ser rebeldinho, vomita algo que se parece ideologia, mas na verdade é puro non-sense. Ele vomita informações que não são do conhecimento escolar, mas da cloud. Ele é regido pelo artifício, pelo artificial, pelo artificioso. Não há nenhum Hitler expondo bobagens para ele falar, suas bobagens são aleatórias e ele imagina, então, ao optar por ouvir hitlerzinhos diários aqui e ali (e até ser um deles), ser livre, ser diferente do soldado fascista. Ele é fascista sem ser soldado. Ele é fascista na direita e na esquerda. O fenômeno do “coxinha”, que produz do lado contrário o infernal fenômeno do jovem censor, é algo que brota no mundo todo. Faz parte também do novo tribalismo. E o novo tribalismo não afasta o comportamento fascista. Fascismo, aliás, é sempre comportamental antes que político. Aliás, existe mais fascista não político que político.

Tanto o rebeldinho quanto o censorzinho funcionam por meio do pensamento mágico gerado no ambiente do artificial. O mundo artificial lhes dá uma relação de causa e efetivo completamente tola, falsa. Quando jogo uma bola A e ela bate na bola B, deslocando-a, tenho causalidade. Quando lanço um xingamento à mãe de alguém e este revida com o um soco, além de causalidade (mão na cara, soco) tenho, antes, relações de razão, de motivos e consequências. Causas e razões são coisas distintas. Ainda que o filósofo americano Donald Davidson tenha nos ensinado que “razões são causas”, é bom mantermos, no âmbito de nosso primeiro conhecimento, a distinção. É bom também sabermos como se descobre, pela física, pela sociologia e pela psicologia, os modos corretos pelos quais falamos que certos efeitos são mesmo efeitos da causa apontada, e que certas consequências tiveram mesmo as razões apontadas e não outras. É isso que está perdido para os da casa da artificialidade.

O rebeldinho e o censorzinho (já disse, eles podem ter 50 anos!) acham que tudo é causa de tudo e que tudo é razão de tudo. Eles passam a gritar na sociedade, e trocam de papéis de cinco em cinco minutos. O rebeldinho vira o censorzinho e este passa a ser o primeiro. Um fala, e o outro acha que aquele discurso vai causar alguma destruição imediata na sociedade, e então, quer proibir a frase do outro por meio da força, por meio de ação fascista: “vou chamar minha turma para calar aquele sujeito”. E aí vem a perseguição na forma da lei, mas também da lei imoral, da ilegitimidade e da pressão popular na rua e na Internet. Não se quer só fazer o opositor parar de falar, o que se quer é que ele perca o emprego, e então desapareça socialmente. Nem mais a liberdade de cátedra é respeitada. Isso é fascismo sim.

Assim, verdades que não são verdades ou que foram mostradas como verdades, são usadas para a caça às bruxas da vez. Uma pessoa vê pornografia e, então, um tipo de feminista, de uma tribo, tira da cartola uma informação não provada de que a pornografia é a causa de um efeito chamado estupro na cidade X. Pronto! Está feita a desgraça, que cai na Internet e então detona não só a caça insana, feito fora da lei, em busca do estuprador X, mas começa algo até pior, que é a caça a quem falou que pornografia não causa estupro. Ou seja, a investigação de causa e efeito, que pertence ao campo do saber escolar, institucionalizado, perde para o saber da cloud, que está disponível no mundo sem porteiras do dinheiro e da informação. Com esse campo tecnosférico como lugar do homem, nessa nova ‘casa do Ser’, uma casa da linguagem da artificialidade da inteligência, a mágica está feita. O rebeldinho-censor ou o censor-rebeldinho, infantil por si mesmos, já criados nessa cidadela, se refestelam na orgia de falta de inteligência. São os novos guardadores do certo e do errado. Odeiam todos os que tentaram estabelecer critérios racionais para isso, os professores, as universidades, as academias, as elites do saber etc. Não à toa atacam sempre, em primeiro lugar, a escola.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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4 Responses “Rebeldes censores e censores rebeldes em 2015”

  1. Orlando
    28/10/2015 at 21:25

    Excelente texto!

  2. Osmar Gonçalves Pereira
    27/10/2015 at 11:21

    Grato, Professor.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo