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25/03/2017

Nem Jesus, nem Buda ou Maomé ou Marx – só uma raposa


Se você abrir a janela à noite e olhar as estrelas, sendo adulto e, enfim, escolarizado como todo adulto dever ser, encontrará um cemitério. Todas as luzes que piscam serão de estrelas que já se foram, que se apagaram. Enormes usinas nucleares que de tanto produzirem Chernobyl por aí foram anuladas pelo dedo ecológico de Deus. Deus tem estado meio verde nos últimos tempos.

Todavia, se você não for nem adulto e nem criança, mas apenas gente da epistemologia da raposa, que disse que não vemos pelos olhos, mas pelo coração, e da ética desse mesmo animal, que exige que nos responsabilizemos pelo que cativamos, então, o céu noturno lhe fará surpresa e sentido. E como somos animais em busca de sentido, tudo fará sentido! Haverá entre aquelas luzes uma delas, a de um lugar especial, no qual há alguém sorrindo para você.

O problema todo do universo reside nisso: alguém que possa não rir de você, mas sorrir para você. O sorriso que deve fazer o que Hegel disse que é o que quer todo e qualquer homem e mulher: o reconhecimento. Eu sei que você está aí e então estou sorrindo, aqui de bem longe, para você. Embora esteja onde Judas perdeu as botas, você me vê. Você me vê, pois, enxergando pelo coração, sabe que estou aqui, e sabe que estou sorrindo. Tudo culpa de ter me cativado. Não se segue conselhos de raposa impunemente.

As raposas são os seres mais ladinos da face da Terra. E possuem uma sina: caçam galinhas e são caçadas pelos homens. Mas, quando podem sair desse circuito fazem coisas que até Deus duvida e que o Diabo teme: fazem epistemologia e ética. Ensinam que o coração é órgão não de aval do conhecimento, como Rousseau, mas o próprio órgão do conhecimento, quase como a linguagem explicada por Donald Davidson. E ensinam que a melhor ética é a que favorece o conhecimento, ou seja, a do cativar e se responsabilizar. Atrair e cuidar. Quando atraímos e cuidamos, conhecemos melhor. Eis então que um turbilhão de coisas aventureiras começa a acontecer.

Nem todos têm a sorte de encontrar esse tipo raposa filósofa por aí. Uns sim, outros não. Em geral, muitas misses tiveram essa oportunidade e a jogaram fora. O mundo é muito estranho mesmo. Por que as misses tiveram de ler sobre essa raposa durante décadas, se não tinham olhos para ver e ouvidos para ouvir? O mais estranho ainda é ver o tratado da raposa nas mãos de uma moça no… BBB! E talvez a mais energúmena, se é que há escala na Ilha dos Meninos Jumentos, de Pinóquio – lembra?  Deus é um piadista quando se veste de Destino.

Mas se há algo que não devemos nunca nos esquecer, é que fora da grande mídia, fora dos holofotes, no verdadeiro canto da filosofia que é a escola, você pode encontrar a sua raposa. É que às vezes não notamos raposas ao nosso lado. Estamos tão preocupados com chaves de fenda e parafusos, consertando aviões que jamais voarão, que deixamos de lado raposas.

Um dia ainda vamos ter de encontrar com a única narrativa ontológica verdadeira: quem quer ter um carneiro, existe. Algo mais forte que “o penso, logo sou, ou existo”. Nesse dia, ao compreendermos essa frase, e só então, olhe do lado, pode haver uma raposa. Às vezes de óculos. Você saberá se é mesmo uma raposa.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo. Note aqui sobre raposas.

Adendo:

Um livro de encontros. É assim que a professora de literatura Verónica Galíndez Jorge, da Universidade de São Paulo (USP), define o livro O Pequeno Príncipe, do francês Antoine de Saint-Exupéry. Com temática existencialista, a obra segue uma das mais populares do mundo, mesmo 70 anos após seu lançamento – no Brasil, ela chegou somente em 1945, pela Agir, mas a estreia mundial ocorreu dois anos antes, em 6 de abril de 1943, nos Estados Unidos.

“Exupéry traz o reencontro do adulto com olhar perdido de criança e também o encontro da criança com questões da vida adulta”, analisa Verónica. A temática a um só tempo densa e acessível, que encontra identificação em diferentes faixas etárias, é um dos pontos indicados pela professora para explicar o sucesso persistente da obra. “Também não podemos deixar de lado o fenômeno editorial dos anos 1980, quando o livro chegou a ser lido como autoajuda”, acrescenta.

Definida pelo filósofo alemão Martin Heidegger como uma das maiores obras existencialistas do século 20, O Pequeno Príncipe é um dos livros mais traduzidos do mundo, mas não há consenso sobre o número exato: no site oficial da obra, Le Petit Prince, fala-se em 257 idiomas e dialetos, e há edições no Camboja e no Japão, por exemplo. No país nipônico, o sucesso foi tanto que há um museu dedicado ao Pequeno Príncipe na cidade de Hakone.

Desde a publicação, a trama já foi contada em diversas plataformas, como na série de desenho animado As Aventuras do Pequeno Príncipe, lançada no final da década de 1970. Mais recentemente, o livro inspirou uma animação computadorizada homônima, exibida no Brasil pelo canal de TV por assinatura Discovery Kids, e uma série em quadrinhos publicada pela Editora Amarilys.

Exupéry, assim como um dos personagens do livro, também foi piloto. No final da década de 1920, o francês, que ficou conhecido como “o poeta da aviação”, foi designado para trabalhar em Buenos Aires e chegou a pousar algumas vezes no Brasil. Um dos pontos de abastecimento estabelecidos pela empresa francesa de correio aéreo Latécoère, onde ele trabalhava, localizava-se na cidade de Florianópolis, em Santa Catarina. Ali, ele ficou conhecido entre os habitantes como “Zeperri”, e passou a fazer parte da história da cidade – hoje, a capital catarinense conta com uma avenida nomeada em homenagem à principal obra do autor, Pequeno Príncipe, na praia do Campeche.

Além da América do Sul, Exupéry participou de missões em diversas localidades, da América do Norte à Europa. Ele foi visto pela última vez em 1944, quando decolou de uma base aérea no Mar Mediterrâneo e não retornou. Um bracelete com seu nome foi resgatado do Mar de Marselha, na década de 1990, e conduziu aos destroços do avião pilotado pelo francês. As circunstâncias da sua morte, contudo, não foram esclarecidas.

O autor

Assim como um dos personagens do livro, Exupéry era piloto de avião Foto: Getty Images

Assim como um dos personagens do livro, Exupéry era piloto de avião

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2 Responses “Nem Jesus, nem Buda ou Maomé ou Marx – só uma raposa”

  1. Robson de Moura
    15/02/2016 at 21:08

    O li somente há pouco mais de dois meses! Quando terminei, passei o dedo na lágrima e me assustei: demorei quase 40 anos para o ler! É muito tempo. Mas fiquei também orgulhoso de enfim tê-lo lido. Que livro!

  2. Pedrinho, o Valente
    10/02/2016 at 22:04

    Bela homenagem, Paulo.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo