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18/11/2017

Quem foi Platão e qual o seu projeto


Platão passou uma parte da vida tentando mostrar aos atenienses que Sócrates não foi um sofista. Gastou outra parte da vida procurando formular a teoria de uma cidade justa, e que deu origem ao platonismo propriamente dito. Dedicou seus últimos anos a uma severa autocrítica, no interior mesmo de sua escola, a Academia, e terminou seus dias praticamente voltando ao modo de fazer filosofia de Sócrates, e de certa maneira abandonando o platonismo. Uma vida em três grande fases.

Primeira fase.

Platão mostrou Sócrates desenvolvendo o método do elenkhós, ou seja, o método da refutação. Fez isso nos seus primeiros escritos. Nesse procedimento, Sócrates fazia perguntas do tipo “O que F?”, e nunca dava respostas finais. Dedicava-se a investigar a questão junto com um interlocutor, e não contra este. O procedimento era sempre mais ou menos este: o interlocutor dizia que acreditava em P,  Sócrates o levava a decidir se acreditava ou não também em Q. O interlocutor acabava afirmando P e Q conjuntamente. Então Sócrates mostrava que isso era contraditório, que ou se ficava com P ou se ficava com Q. No entanto, o interlocutor não conseguia mais optar, e se via num beco sem saída, numa aporia. Mas como Sócrates estava investigando conjuntamente, também ele entrava em aporia. E assim o diálogo se encerrava, mas ficava em aberto a investigação.

Segunda fase.

A partir de uma certa data, Sócrates já não precisava ser mais desenhado como um não-sofista, mas outro problema apareceu: estava parecendo um cético. Platão entrou então em uma outra fase de seus escritos. Ele buscou realmente responder “O que é F?” Fosse F a justiça, a beleza, o bem, a virtude, o grande, o forte etc., Platão colocou esses “Fs'” no mundo da Formas ou Ideias, onde tudo é perfeito e imutável e real, e criou um outro método para fazer com que cada pessoa pudesse chegar a se encaminhar para tal mundo. Os filósofos poderiam chegar a tal campo pela dialética, mas um sábio como Sócrates poderia extrair esse saber de F até mesmo de um escravo ignorante, por meio de perguntas sábias. Este método, não historicamente socrático, mas platônico, saiu da boca de Sócrates como um nítido Sócrates platonizado. Isso ocorreu Platão fez Sócrates aparecer em um diálogo em que faz um escravo ignorante resolver um problema matemático. A esse método Platão deu nome de maiêutica: arte de parir. Sócrates estão estaria parindo ideias como sua mãe fazia com os filhos das mulheres de Atenas, já que ela havia sido uma parteira oficial, um tipo de mulher com sabedoria mística e médica.

Terceira fase.

A partir de um certo momento, Platão começou a desconfiar que o platonismo, a teoria dos mundos das ideias, tinha um furo incontornável. Como fazer para que as coisas do mundo sensível possam ser imitações do mundo real, intelectivo, das Formas. Platão podia falar em participação e causação. A primeira não dava problemas, a segunda dava muitos problemas, mas parecia necessária. Se cada entidade individual tem sua características próprias retiradas da Forma real por meio de participação na Forma, tudo vai bem. Mas se é a Forma que, como algo discreto inteiramente perfeito, causa sua própria cópia, então surge o problema do “Terceiro Homem”, ou seja, há de existir uma Terceira Forma que origine a Forma que vai dar origem ao que é a cópia da Forma, ou seja, a entidade que está no mundo sensível. Assim, inicia-se uma sequência que tende ao infinito, pois a terceira forma iria pedir uma quarta e assim por diante. Aristóteles fez esse crítica a Platão. Mas Platão também fez essa crítica a si mesmo, utilizando de Sócrates, agora ainda mais personagem que nos diálogos anteriores. Platão então deu mostras de que podia abandonar o platonismo e circunscrever a filosofia apenas ao que ele dizia que o Sócrates histórico fazia, ou seja, o uso do elenkhós.

Quando não levamos em conta essas três fases de Platão, não entendemos nem Platão e a nem a filosofia que, na sua história, nada mais é que notas de pé de página na obra de Platão, como já disse certa vez Whitehead.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 13/04/2017

PS: se você está aprendendo Platão errado, onde essas fases são desrespeitadas, saia de sua escola e venha fazer filosofia na Faculdade Paulo VI (Mogi), conosco, garanto que não vai aprender Platão errado. Agora, se mora muito longe, pode nos consultar. Além disso, não esqueça de nossos livros.

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6 Responses “Quem foi Platão e qual o seu projeto”

  1. Bruno
    14/04/2017 at 03:02

    Paulo, a Forma, ou Ideia, pode ser interpretada como uma leitura de Platão do Ser, colocado por Parmênides no poema Da Natureza?

    • 14/04/2017 at 07:54

      Sim, Heidegger fez isso, mostrando que Platão não poderia ter feito isso, isso já é o “esquecimento do Ser”.

  2. João Bosco Renna Júnior
    13/04/2017 at 22:21

    Eu moro muito longe, gostaria de consultar. Na república de platão, sócrates apesar de dizer que sai da discussão sem saber nada, sem conclusão, ele também dá conclusões, como na página 30, da edição da nova cultural de 2004, ele prescreve soluções digamos assim, ele diz, que o poder não é ocupado por homens bons, portanto é preciso que haja obrigação e castigo para que aceitem governar, mais embaixo diz que se surgisse uma cidade de homens bons, é provável que nela se lutasse para fugir do poder, que um governante autêntico não deve visar seu próprio interesse, mas ao do governado. Então, eu realmente estou confuso, parece que o sócrates que não dá resposta as questões, e o sócrates platonizados, se misturam no mesmo texto, no mesmo livro, afinal sócrates ao mesmo tempo que diz que nada sabe, está dizendo como as coisas tem que ser…como eu devo enchergar isso na república? Realmente há essa confusão? O que vc tem a me dizer professor?

    • João Bosco Renna Júnior
      13/04/2017 at 22:35

      Afinal, A república de platão é o sócrates histórico, sócrates platonizado, ou as duas coisas juntas?

    • 13/04/2017 at 23:11

      A primeira parte, o “Sócrates histórico de Platão”, depois, começa o Sócrates platonizado, escrito depois de um intervalo.

    • 13/04/2017 at 23:12

      Sócrates não diz que não sabe nada, ele diz que nas perguntas sobre “o que é F”, as coisas se complicam. Veja o livro Sócrates: filósofo e educador (Cortez), de minha autoria.

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