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24/06/2017

Profissionais do sexo no Welfare State


“Fazer sexo por dinheiro” é a caracterização geral, ainda que imprecisa, da prostituição. É uma tolice achar que isso só faz parte dos costumes humanos. Encará-la como um problema, sim, mas sua prática pode ser observada em grupos de macacos. Um macaco que consegue comida a mais que outros (especialmente carne), tem várias macacas lhe prestando serviços sexuais em troca não só da carne, mas de um posto ao seu lado. Essas macacas deixam claro que fazem o que fazem por conta da moeda de troca do momento.

No nosso grupo esse componente do ethos, a troca de benefício ou dinheiro por sexo, traz problema. Está em nosso ethos, mas parece que vai contra nosso mores. É da ética, mas não é da moral. Ou seja, a prostituição é mais ou menos aceita socialmente, dependendo de geografia e história, mas não pode ser desenvolvida em nossos lares e não deve tocar nossos lares. Aliás, atualmente o problema é justamente mais restrito a essa cláusula: que a prostituição seja sempre no campo especializado, reservado, mas que não ultrapasse a soleira da porta, que não venha para o ambiente em que as relações são de lealdade, não de mediação por dinheiro. As pessoas, tanto ricas quanto pobres, dizem isso: “não tenho nada contra ela ser puta, mas aqui não!” Resquícios de moral religiosa podem aparecer aí, mas o que comanda é o princípio da lealdade: no clã vale o vínculo de sangue ou de juramento, não de compra e venda ou de justiça.

Sejamos sinceros, Schopenhauer não estava de todo errado ao dizer que havia milhares de putas em Londres e que eram o sangue sacrificial pago no altar da monogamia!

Ora, se a prostituição tem seu lugar no campo do ethos e não do mores, ou seja, no campo dos hábitos e costumes da vida social geral, mas não dos hábitos e costumes da vida privada, particular e doméstica, então não deveríamos ter nada contra a transformação da prostituição em uma profissão como outra qualquer. A profissão, mesmo que exercida em casa, se mantém como do âmbito da vida social. Alguns países pensaram assim e passaram da criminalização da atividade de prostituição para a liberação e desta para a profissionalização. Cedo ou tarde o Brasil seguirá esse caminho.

Muitas moças de classe média, bem estudadas e com chances, se transformam em “putas

Cena real de casa de prostituição na Ucrânia

Cena real de casa de prostituição na Ucrânia

de luxo”. São garotas muito novas que frequentam universidades públicas e saem com os pais (em geral de classe média) das colegas. Algumas desenvolvem tais práticas como “amantes”, mas o nome é fora de ordem, agora são chamadas de “namoradas”, outras fazem como prostituição tradicional, assumida, com pagamento a cada serviço prestado e sem qualquer vínculo que implique presentes, aluguel de imóveis etc. Há filmes americanos mostrando uma prática que também ocorre aqui: o pai sai com a colega da filha e logo fica sabendo que seu amigo de empresa está saindo com sua filha.

Essas garotas, as chamadas “putas de luxo”, não vão querer ter carteira de trabalho ou aposentadoria por isso. A maioria nem irá precisar. Mas a prostituição mais geral no Brasil revela um trabalho árduo, sem qualquer glamour que porventura os prostíbulos de luxo do país, no passado, vieram a exibir – mais na imaginação posterior que na realidade. Nesse caso, ainda que muitas prostitutas trabalhem seriamente e como reais profissionais, uma boa parte foi para tal atividade sem muita outra escolha. A má escolarização é um fato chave nisso, mais que a necessidade de dinheiro. Seja como for, uma vez estando trabalhando, ou seja, dispendendo horas em troca de serviços, como o serviço de agradar o corpo de outro com o próprio corpo (elas já vieram a se chamar de massagistas, para poderem fazer propaganda em jornal), estão inseridas no mercado de trabalho e todos nós só temos a ganhar com a regulamentação disso. Trabalhador fora do mercado de trabalho não gera coisa boa para um estado do tipo como o nosso. Não paga imposto, mas acaba usando o serviço de saúde público e outras coisa. Onera a máquina capitalista.

O argumento de que carteira de trabalho e aposentadoria incentivam a prostituição não se sustenta. Primeiro, se incentivar, o que não é verdade, isso não causa nenhum problema. A prostituição já tem regras, é do campo da vida pública, exercida em lugares determinados, não invade o lar ou outros locais. Não pode ser tomada como algo criminoso porque isso nos levaria a nos criminalizar a todos, afinal, como mostram nossos parentes símios, é um comportamento arraigado em nossas entranhas, e não vamos extirpá-lo. Além do mais, é um trabalho árduo, equivalente ao do estivador, e com menos segurança. Por isso mesmo, a carteira de trabalho e a aposentadoria é o mínimo que um estado liberal democrático com tendências a ser um Welfare State deve fornecer. Desse modo teremos menos velhas em asilos e filhos sem apoio pelo Brasil. Além do mais, as agressões podem vir a diminuir. Com o tempo, poder-se-á ter as putas como pessoas dignas, do mesmo modo que uma série de pessoas já acredita que são mesmo. Muitos no Brasil não acreditam que trabalhar com o corpo para agradar o corpo do outros seja alguma coisa que Maria Madalena não fez, e, afinal, ela acabou como esposa de Jesus. Dizem até que mãe de filha dele!

Aliás, Jesus dignificou Madalena, mas não completou a tarefa. Trouxe-a para trabalhar em sua igreja, mas não lhe deu carteira ou aposentadoria. Bem, não tínhamos ainda o capitalismo e menos ainda o Welfare State. Agora temos, e então há a oportunidade de sermos mais cristãos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Sobre a legalização da prostituição na Holanda e sobre o Museus da Prostituição.

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4 Responses “Profissionais do sexo no Welfare State”

  1. Thiago Leite
    14/04/2015 at 11:50

    Paulo, vc está em pé de guerra com a moral cristã, é isso?

    • 14/04/2015 at 14:04

      Claro que não. A moral cristã é a melhor coisa que apareceu para nós modernos, liberais, mesmo que adoremos Nietzsche. Já imaginou um mundo em que o perdão não pudesse ser regra? A tese de doutorado de Hannah Arendt sobre Agostinho é um livro de cabeceira para mim.

  2. Claudio
    07/04/2015 at 17:57

    Cara! Já falei que te adoro?
    O senhor é meu professor e nem sabe 😀

  3. Wagner
    05/04/2015 at 18:20

    E a tormenta toma conta, no céu de algumas feministas…

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