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29/03/2017

“Puta não beija na boca”


Puta não beija na boca. Essa é uma lenda urbana. Lenda? “Puta não beija na boca” é um semáforo de cidade pequena. Indica horas de passagem e horas de transgressão. Indica que regras só existem se tiverem chances de serem quebradas. Indica que o entretenimento tem regras. Que até a o corpo posto a venda tem regras. Escancara algo que incomoda os que ainda não entenderam o que Simone de Beauvoir disse, sobre o tornar-se mulher. 

Pode-se nascer com sexo marcado por anatomias e fisiologias distintas. Mas isso é sexo, não gênero. Mulher é gênero. Para se chegar a ser mulher é necessário, mesmo na mais permissiva situação, ainda assim ter uma regra. Há algo no corpo que não lhe concedi, diz a puta, ao não precisar proferir a lenda “puta não beija na boca”. Ou seja: à medida que sou mulher, tudo é seu, senhor do mundo, mas não a boca. Este semáforo é ainda, mesmo em cidade do interior, um semáforo. Não há ninguém aos lados, você pode atravessar. Ou podia, quando em cidades do interior, pequenas, não havia radares.

“Puta não beija na boca” quer dizer: caro homem de 58 anos, cresça, saia da adolescência, aprenda as regras da  sociedade que são as regras da prostituição. Congressistas, estupradores e pastores não aprendem nunca essas regras. Filhos de ricos também têm essa dificuldade.

Essa dificuldade entra para o lar. “Puta não beija na boca”, mas então, minha  esposa beija, ela não é puta – tem de fazer o que eu quero. Eis o resultado: já que a regra da prostituição não vale dentro de casa, a soleira da porta acaba sendo atravessada pelo estado. Aparece a lei Maria da Penha para dizer: mulheres caseiras também têm interdições. É o equivalente doméstico de “puta não beija na boca”. Não tente fazer com o corpo da mulher o que o espírito não autorizou. Casamento é uma conquista diária, e nunca deveria ser um acordo para a cama obrigatória. É difícil convencer o homem disso. É difícil também ensinar isso às mulheres. O feminismo raramente sabe ensinar isso que as putas não precisam ensinar, já que a regra da interdição é universal pelo ethos, não pela lei.

“Puta não beija na boca” é o semáforo que deveríamos começar a levar em consideração ao lidarmos com as regras sociais que obedecem nosso ethos, e que às vezes precisam ser glosadas com os nossos mores. Às vezes a moral foge do ethos. Queremos fazer coisas a quatro paredes que não cabem, porque a moral não pode ser de todo um contra-senso ao ethos. “Puta não beija na boca” é uma regra da prostituição, mulher faz do seu corpo o que o homem quer se ela autoriza, é a regra da não-prostituição e também da prostituição. Ambas as situações são dignas e regradas. Aliás, são regradas exatamente para que se mostrem dignas. Mulher é digna por ser mulher, isso já deveria bastar.

O problema todo é que a Lei Maria da Penha atinge a mulher no lar, mas não a protege fora deste. Nesse caso, a puta conta apenas com a lenda “puta não beija na boca”. Sem dúvida ela fica mais desprotegida. Então, entra para o campo da ilegalidade, ou seja, passa a exercer a prostituição com chefia, com cafetão, com agenciador. Aí a prostituição fica ilegal e, então, até mesmo o “puta não beija na boca” é ameaçado. Nessa hora, na busca de proteção, a mulher perde tudo.

Temos dado proteção para a mulher dentro de casa, mal e porcamente. Não temos dado nenhuma proteção para a que trabalha na rua, na prostituição legal ou ilegal. Isso precisa mudar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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12 Responses ““Puta não beija na boca””

  1. Orlando
    08/11/2015 at 15:14

    Prezado Paulo,

    É possível que eu não tenha lhe entendido. Ressalto que como o seu texto versa sobre questões vinculadas ao aborto e proteção à vida, entendi que o conceito de Lei aplicável à ocasião é aquele disponível no campo do Direito. “Lei é uma norma tornada obrigatória pela força coercitiva do Poder Legislativo ou de autoridade legítima, que constitui os direitos e deveres para um determinado grupo de pessoas”. Dentro desta definição conceitual entendi que você defendeu em seu texto que regras ou leis protegem a vida ou a integridade das pessoas evitando, de fato, que elas sofram os malefícios tipificados como tal nas normas legais. Não acredito que isto ocorra no mundo real, o mundo composto pela barafunda ideológica, pela algaravia de inconstância e maluquices tão comuns aos humanos nesta quadra que vivenciamos, inclusive no Brasil. Nem mesmo no passado deve ter havido alguma época em que a vida ou integridade individual tenha sido realmente protegidas pelo poder coercitivo do Estado. Se outro foi o conceito de leis e regras utilizado quando da elaboração do seu texto, por favor indique-o para que eu o entenda e redirecione a minha interpretação do que li.

    • 08/11/2015 at 15:16

      Orlando recitar definição não adianta se você não a compreende. Vou falar de modo simples, para ver se dá: a lei vem do ethos e do mores de um povo, e se está calçada nestes, tem mais facilidade de “pegar”, caso não, depende em maior grau da coerção estatal. Pronto. Nesse sentido, as leis resolvem, em graus variados, nossos problemas. Acho que agora deu, não?

  2. Orlando
    08/11/2015 at 12:29

    Prezado Paulo,

    Certamente não pretendo confrontar o seu ponto de vista sobre qualquer assunto, ou mesmo o de qualquer outra pessoa da qual tenha conhecido a opinião sobre qualquer tema. Apenas exponho o meu modo de entender os fatos sem que a forma como os entendo ou vejo tenha o caráter de verdade ou de certeza. Neste seu texto, a meu sentir, mais uma vez as regras servem apenas para o mundo da idealidade. Não existe ethos coletivo. Cada um possui o seu na intensidade das limitações da sua consciência e qualificação instrucional. Claro que como os humanos vivem em sociedade, o que cada um externa do seu ethos, constitui um conjunto que afeta ou abrange toda a população. O mesmo ocorre com o bom senso. Sabemos que qualquer direito individual ou coletivo, quer seja no campo jurídico, social, econômico etc é, antes de tudo, bom senso. Considerando que o bom senso é artigo de luxo e raro de ser encontrado, embora cada indivíduo acredite que o possui no nível desejável, o mundo sempre foi uma zona, uma Torre de Babel em sentido ampliado. Neste raciocínio, parece inquestionável que no mundo real, aquele que nos atinge a cada minuto com a surpresa do desconhecido, as regras são medidas paliativas e não garantidoras de nada. A Lei Maria da Penha não garante a integridade dos direitos da mulher nem dentro do lar nem na rua. Isto inclui o que ela deseja ou pode fazer com o seu corpo. Diariamente milhares de mulheres (apenas no Brasil) são agredidas ou mortas. E a Lei Maria da Penha continua lépida e fagueira surfando nas ondas do tempo até que o Legislativo deseje mudá-la ou extingui-la, sempre com a prévia argumentação falaciosa que está a melhorar a proteção às mulheres. Com as prostitutas ou com os homens, héteros ou não, a toada é a mesma. Todos se acreditam pretegidos por algo que não existe no mundo real, a saber: a proteção tão propagandeada quanto ineficaz sobre cujo manto se abrigam as populações ou comunidades menosres dentro de cada país.

    • 08/11/2015 at 13:02

      Orlando acho que você não me entendeu. Só isso. Está mais preocupado em escrever seu texto que ler o meu. Eu adoro crítica e confronto, mas o que lhe disse não tem a ver muito com o assunto, apenas com o conceito de regra e lei. Seu conceito é errado, e por isso você está aí dando cabeçadas quanto a entender um alcance de alguma lei.

  3. 08/11/2015 at 10:39

    este é uma boa abordagem da questão do genero, do sexo. uma boa abordagem para entender Simone de Beauvoir, mas ingrata nesse país tropical cheio de semi-alfabetizados ou analfabetos funcionais.
    a questão poderia ser aprofundada para algo impensavel nesse país conservador e católico: a legalização e regulamentação dos “trabalhadores/as do sexo”.

  4. 07/11/2015 at 19:00

    Certa vez eu ouvi de um coxinha: “se o casamento é um contrato. Quer dizer que se minha mulher não quiser transar comigo posso chamar a polícia?”

    • 07/11/2015 at 19:10

      Pois é, coxinha ultimamente compra o Contrato Social do Rousseau achando que vai encontrar modelo de contrato para ele alugar casa etc.

    • LMC
      09/11/2015 at 13:13

      O casamento civil é um contrato.
      Mas tem gente que confunde com
      o Contrato Social que,na verdade,
      não é um contrato.É um livro.

  5. 07/11/2015 at 00:27

    É fundamental que também a filosofia, e desde já parabenizo a iniciativa do professor Ghiraldelli, se digne tratar estas questões impreteríveis do cotidiano, como esta do encobrimento da prostituição, que só amplifica a necessidade de, no mínimo, um olhar carinhoso para com estas mulheres.

    • 07/11/2015 at 00:39

      Bosco obrigado. A filosofia não pode ignorar as dimensões da vida como não pode ignorar a vida.

  6. Jokas
    06/11/2015 at 17:13

    Se eu quiser beijar a puta na boca eu seria machista?

    • 06/11/2015 at 17:49

      Jokas seu caso não é de machismo, mas de alfabetização.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo