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26/03/2017

A psicografia e o espiritismo – um desafio para os filósofos


O filósofo Theodor Adorno disse certa vez que o espiritismo é a “metafísica dos parvos”. Em outras palavras: uma busca do transcendente pela via do misticismo mágico, não pela filosofia. Podemos hoje afirmar isso assim, sem mais?

O “Brasil espírita” não é pequeno. A ideia de que os mortos não só não estão mortos, mas se mantém como individualidades que podem influenciar nossas vidas, e até conversar conosco por psicografia, e também se perderem em inúmeras reincarnações que funcionam como purificações para a “luz” final, é algo disseminado em nossa cultura popular. Invade fileiras da religião católica, altamente racionalizadora, e que se comporta ainda como sendo a religião de maior força no Brasil. Não é o caso dos filósofos, sociólogos, antropólogos e historiadores, mesmo com a sua formação toda ligada a uma modernidade laica, dar atenção a esse fenômeno? Há mais estudos da academia sobre o candomblé que sobre o espiritismo de um modo geral.

Claro, o candomblé pode ser tomado pelo conceito amplo de cultura, levado na consideração de folclore ou de parte da ideia de cultura antropológica. Todavia, outros tipos de doutrinas que falam de conversa com mortos e re-encarnação, podem ser admitidas aqui e ali, mas nossa intelectualidade reluta em estudá-las. O espiritismo (kardecismo, por exemplo) tem bases europeias, modernas, e está ligado a um tipo de pensamento que, não raro, às vezes aparece muito mais pelo fenômeno da psicografia, ganhando então aspectos que o intelectual atual, por razões de formação, busca rejeitar de modo mais forte do que rejeitaria algo que ele poderia chamar de folclórico. Nenhum filósofo quer ser tomado como quem acredita em livros psicografados. Isso é a desonra acadêmica de um intelectual, de um scholar, principalmente de um filósofo.

Todavia, é interessante notar, isso não era assim no Brasil republicano inicial. Contra as forças ditas tradicionais, ligadas ao mundo imperial e, portanto, ao catolicismo, a oposição se formou unindo forças aparentemente divergentes: movimento operário livre (ainda não sindicalizado) de base anarquista, intelectuais positivistas e maçons, e espíritas “de mesa branca”. Durante toda a República Velha, se percorrermos a imprensa alternativa (especialmente a imprensa operária), iremos encontrar inúmeras atividades anti-clericais e de “inovação cultural” que reivindicavam estar “ao lado da ciência”, feitas pela aglutinação de pessoas desses grupos. Clubes de fotografia, centros de mútua ajuda, centro de palestras em prol da ciência, centros de cultura operário ou italiana etc. Uma onda tardia de restos de iluminismo e romantismo vieram com os ventos republicanos. Mas, se pensarmos bem, não estávamos tão defasados do mundo. Poucos anos antes, os irmãos Henry James (escritor) e William James (filósofo), ambos com currículos notáveis, mantiveram a prática de beber algumas “poções” no sentido de ter experiências místicas, algo não muito longe da psicografia. Nessa época, sabemos, apareceram os que queriam mensurar espíritos, pesá-los, obter a imagem do ecotoplasma por meio de fotos etc (a lente da máquina não se enganaria, diferente do olho humano!). Há hoje na TV americana, no âmbito do entretenimento, programas que tentam captar efeitos materiais, visíveis, através de câmeras em casas sem ninguém, ditas mal-assombradas. Claro que, depois, exorcistas de todo tipo aparecem por lá, para “resolver” o problema. Não se trata de fazer ficção, mas sim de algo na mesma linha desse movimento da transição do século XIX para o XX. Pode-se dizer que isso não esteve longe do sucesso epocal dos feitos de Mesmer e do movimento a respeito do “magnetismo animal” do século XIX.

Na verdade, há um corte entre o modo de entendermos a mente humana entre antigos e modernos. Em sociedades antigas (digo antigas, não necessariamente primitivas, claro), pautadas às vezes por um conjunto maior de crenças comuns e referências comuns, não era difícil que todos soubessem tudo que se passava na cabeça dos outros. O baixo prestígio da vida privada e a ideia da impossibilidade da mente indevassável caminharam juntos. Até mesmo no Renascimento, quando as noções de individualismo, de intimidade,  e de “interior” e “exterior”, começaram a ganhar prestígio, Montaigne escreveu com clareza sobre a noção de consciência como sendo o campo de conteúdos que está mais para a revelação que para o segredo. Ter consciência, para Montaigne, era ter o sentimento constrangedor de que, se se estava com algum segredo, certamente seria a própria consciência que iria fazê-lo vir à tona a despeito do eu não querer que isso viesse acontecer (ver Montaigne em seus Ensaios, no texto “Consciência”, e no seu contraponto, “Arrependimento”; no primeiro, a consciência revela, no segundo, a intimidade tenta guardar o segredo).

Foi a partir principalmente de Rousseau que viemos realmente a acreditar numa intimidade quase indevassável, como o lugar não só da certeza cartesiana, de ordem intelectual, mas da verdade tomada como sinceridade (“coração sincero”), algo que realmente o indivíduo e só ele podem ter acesso. Mas, de certo modo, esse romantismo de Rousseau nunca atrapalhou de fato o Mesmerismo posterior ou a entrada no íntimo pelos métodos da psicanálise ou, ainda, de se pensar que daimons podem invadir nosso pensamento, inclusive a nosso pedido, como no caso do popular espiritismo. Dizer que psicógrafos são vítimas de piadas ou fazer piadas sobre isso é uma coisa, outra coisa é, de fato, ter de admitir que psicógrafos são pessoas que conhecemos, que não são mentirosas e nem tolas, e que acreditam poder receber mensagens “de outras mentes”, inclusive vindas do pensamento que estaria no além. A ideia de “planos” e “dimensões” desconhecidas é algo que todos nós já ouvimos falar e, de uma forma ou de outra, entendemos do que se trata.

Posso, a partir do meu pensar livre, obedecer a descoberta de Nietzsche de que “não sou eu que penso”, mas “o pensamento é que me vem”. E se tenho claro isso para mim, posso também, por mecanismos vários, me deixar convencer de que o pensamento me vem de algo que está para além de mim. Uma pitada de misticismo e mágica, nesse caso, tiraria de mim a honestidade? E ser místico, nesse caso, acreditando que o pensamento “me vem” e não vem propriamente de qualquer reflexão minha mesma, é algo que devo classificar como ou desonesto ou tolo? Não seria melhor, para o filósofo, deixar de lado essas questões sobre desonestidade e tolice, e tomar o espiritismo e a psicografia, nesse caso, com o mesmo status que antropólogos sérios dão ao candomblé? Claro que a dificuldade é maior. Como disse, o candomblé sempre pode ser tomado como algo do folclore, e o folclore nós todos, escolarizados pela escola pública republicana, aprendemos a respeitar. Mas o espiritismo não aceitaria ser tratado como folclore, uma vez que é europeu, possui adeptos em setores escolarizados – há mais médico espírita do que podemos imaginar. É nisso que as coisas ficam conflituosas. Talvez seja este o ponto crítico, o elemento que faz com que o espiritismo ganhe adeptos na universidade, mas em silêncio, sem que os próprios intelectuais possam tomá-lo como objeto de estudo.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 01/10/2016

Imagem: A. Kardec

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9 Responses “A psicografia e o espiritismo – um desafio para os filósofos”

  1. 24/03/2017 at 12:09

    A psicografia e o espiritismo – um desafio para os filósofos – Paulo Ghiraldelli Galera, acessei o site Namoro Espirita e finalmente achei um site para espíritas e simpatizantes a fim de relacionamento sério! Muito Bom! http://www.namoroespirita.com.br Aprovei:)!

  2. 26/10/2016 at 21:28

    E qual a relação, por sinal, contraditória, entre Espiritismo e Positivismo, ambos oriundos do Iluminismo francês do século XVIII, em que pese o espiritualismo do primeiro e o materialismo do segundo?

  3. 05/10/2016 at 16:33

    Caro Paulo,

    A inexistência de reflexões acadêmicas tendo por base o Espiritismo deixa muitas lacunas em aberto. Na sua opinião, poderíamos pensar na possiblidade de uma herança filosófica vinda de Rousseau até Kardec via Pestallozi?

    Outra questão: a “metafísica parva” não poderia igualmente ser interpretada como uma falsa metafísica, ou uma metafísica caduca, no âmbito do Espiritismo, já que, conforme O Livro dos Espíritos, os espíritos possuem substrato material?

    • 05/10/2016 at 17:01

      Breno essas questões são para especialistas. Não é meu caso.

  4. Anderson Paulino de Souza
    03/10/2016 at 12:06

    Olá Paulo, parabéns pelo texto! A antroposofia de Rudolf Steiner buscou (e busca) construir um caminho epistemológico o mais coerente possível com aquilo que modernamente chamamos de cientificidade e o mais distanciado possível de dogmatimos, fé e crenças das religiões. Voce considera possível a construção de uma “espiritualidade científica”?

  5. Elias Manoel
    03/10/2016 at 06:55

    Penso que espiritismo é uma forma dos ricos pensarem sobre suas próprias ações e, a partir delas, sentem fortes dores na consciência, talvez pelo apegos materiais, as quais remetem a um falso sentimento cristão de compaixão com o próximo; é uma espécie de “filisteísmo” burguês, onde o espiríto considerando “mal” passa por um processo pedagógico até sua formação para um estado “bem”. Seria um folclore estilizado à intelectual?

  6. Daniel Aço
    02/10/2016 at 10:29

    Sou filósofo de formação e compreendo bem a desonestidade intelectual e a arrogância dos filósofos acadêmicos, em especial a dos intelectualoides gaúchos. Ainda assim, quer queiram ou não, eu tenho o “meu sistema filosófico” e o inseri na Filosofia ocidental.

    Sobre o preconceito ao Espiritismo em nosso país, digo apenas o seguinte: eu tinha um emprego garantido numa universidade católica gaúcha, a fim de lecionar aulas básicas de Filosofia, e só não fui contratado por disse que era espírita. Não muito tempo atrás, obviamente, eu seria lançado vivo na fogueira.

    Para todos os efeitos, a minha resposta e a minha homenagem a certas pessoas e correntes de pensamento estão neste meu e-book:

    https://www.amazon.com.br/Sistema-Filos%C3%B3fico-Espiritualista-Ocidental-Daniel-ebook/dp/B00QW3ARWA/ref=sr_1_6?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1475413608&sr=1-6

    Para quem entende os postulados espíritas e o espiritualismo em geral, a Filosofia acadêmica ocidental é uma piada infame. Detalhe: o meu livro já foi traduzido à línguas inglesa e espanhola.

    Para terminar, caso alguém queira entender a minha trajetória pelo mundo acadêmico, recomendo a seguinte leitura:

    https://www.amazon.com.br/Mem%C3%B3rias-filos%C3%B3ficas-p%C3%B3stumas-Daniel-A%C3%A7o-ebook/dp/B01BLUAE8K/ref=sr_1_3?s=digital-text&ie=UTF8&qid=1475414523&sr=1-3

    Cumprimento o autor pelo texto, que por ora rompe um pouco com o academicismo absurdo que reina nas universidades brasileiras (em contraposição, inclusive, ao “misticismo” brasileiro).

    Daniel Aço
    * Escritor

  7. Ciro Contin
    01/10/2016 at 22:12

    Concordo com as observações delineadas no texto. O espiritismo precisa ser levado a sério!

  8. Nicolas Peixoto
    01/10/2016 at 18:10

    “Talvez seja este o ponto crítico, o elemento que faz com que o espiritismo ganhe adeptos na universidade, mas em silêncio, sem que os próprios intelectuais possam tomá-lo como objeto de estudo.”

    Reconheci-me no texto, e nesse trecho em específico. Realmente, não parece haver na universidade um espaço para esse tipo de diálogo.

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Filósofo