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20/09/2019

O psicanalista e o filósofo ou Calligaris e eu


“O sofrimento de quem pede ajuda a um terapeuta oscila entre a falta e o excesso de sentido”. É o que diz Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo (16/07), em mais um artigo inspirador. Num ato quase selvagem, troco a palavra sentido por significado e lembro uma boa definição do filósofo alemão Moritz Schlick: quem busca a verdade é a ciência, a filosofia persegue o significado. Mais uma vez então psicanálise e filosofia trabalham no beliscão mútuo atrás da porta.

Mas, se é assim, por que Calligaris não é filósofo? Ora, talvez ele seja! A diferença é que ele está interessado em ser um médico do indivíduo, querendo trazer esse seu paciente para um estado de não sofrimento, enquanto que eu, filósofo, sou apenas um Calligaris megalomaníaco, quero fazer algo semelhante em relação à sociedade em geral.

Ele, Calligaris, se envolve com a falta e o excesso de sentido. De certo modo, é isso também que faço, ainda que não a partir de um rosto específico. Se a psicanálise quer encontrar o ponto ótimo entre o peso do sentido e a leveza da vida, do meu lado a tarefa é lidar, ao menos contemporaneamente, com as chamadas “perdas de sentido” evocadas no nosso tempo, o resultado do avanço do niilismo anunciado por Nietzsche, a “desvalorização de todos os valores”.

Assim, enquanto Calligaris fica lá na sutileza da balança, pondo e tirando pacotinhos de sentido para encontrar a administração da dose certa na farmácia de manipulação, eu trabalho em um lugar mais inóspito. Sou do porto, estivador. Carrego nos braços sacos de sentidos que chegam de outros lugares de modo a empanturrar todos, pois eles não param de se esvaziar de sentido. Nossa sociedade é consumidora de sentidos. É uma goela sem fundo, nem bem repomos o sentido e logo temos de trazer mais. Pois desde Marx “tudo que é sólido desmancha no ar”. E o sentido é sólido.

O problema de Calligaris é um problema de medida. O meu é um problema de reposição de estoque. Se Calligaris acha a dose certa, aí é só encher cada capsula com o precipitado e tratar com a ciência da posologia o próximo passo. No meu caso não há dose. O que vem em saco é para ser despejado. O ideal mesmo, no caso da filosofia, talvez fosse ter um avião desses que faz a pulverização. Sobrevoaria as cidades soltando uma nuvem imensa de sentido. Seria algo tão fantástico que até mesmo o trabalho e o sexo ganhariam sentido. Há mentirosos que dizem que até o dinheiro faria sentido.

Calligaris e eu somos da velha guarda, gente meio tola, ingênua, ele quer um indivíduo melhor para se realizar um mundo melhor; eu quero um mundo melhor para se ter um indivíduo melhor. Somos ridículos nisso, dizem os tais “realistas”. A vantagem é que somos, diante dos críticos, mais inteligentes. Faz sentido!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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5 Responses “O psicanalista e o filósofo ou Calligaris e eu”

  1. Marcos Bruno Silva
    13/08/2015 at 14:23

    Também acredito que a psicanálise é um tipo de filosofia. A clínica psicanalítica revela ao psicanalista o homem concreto, mas este não estaria trespassado pela linguagem, pelos valores, sentidos e significados? A psicanálise por mais que se diga ciência, e que todo seu conhecimento se deu por meio do clinicar, não sobrevive sem a filosofia, uma vez que esta serviu de base através de alguns autores para ajudar Lacan pensar sua maneira de psicanalisar. Filósofos como Hegel, Kierkegaard, Bataille, Kojeve, Heidegger figuram como pensadores indispensáveis à Lacan.

  2. Rei Dos Cases
    16/07/2015 at 17:49

    Recomendo estudar um pouco mais de Psicanálise – principalmente a Lacaniana – para entender o que Calligaris faz na clínica. Do contrário, seu texto continuará incorrendo num erro crasso.

    • ghiraldelli
      16/07/2015 at 17:54

      Recomendo terminar o ensino fundamental para entender textos fáceis como este. Putz!

    • Sátiro Satire
      16/07/2015 at 23:58

      Qual o erro crasso do texto oh grande Rei dos burros? Estudo Lacan e sou praticante há 2 anos.

    • 17/07/2015 at 01:32

      Sátiro, o erro crasso da parte do Rei dos Cases não é um erro: a mãe dele o esperava de 11 meses e ele de fato nasceu de 11 meses.

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