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27/06/2017

Professores de filosofia em tempos de protesto


Promotores são pela ética de princípios, advogados de defesa deslizam pela ética do contexto. O promotor diz que o réu sabia o que era crime, podia não fazê-lo, mas o fez. O advogado diz que o réu deveria ser olhado pela situação vivida: estava faminto e na rua há dias, e o que queria era apenas apanhar uma maçã e, nisso, acabou por cair numa confusão e esfaquear o dono da feira.

Essa lógica funciona também para crises políticas. Quem acusa o faz dizendo que o PT tem culpa pela corrupção e pelas mazelas atuais e ponto final. Quem defende pede que se veja a história da corrupção no Brasil e entenda que o PT apenas deu sequência a uma trama maior aprisionada por teias culturais, a tal “cultura de levar vantagem”.

Assim, a impressão que temos é que os opositores do governo são os que não pensam e os que defendem o governo, como pedem esforço analítico, são os que pensam. Há aí uma verdade, mas só meia verdade.

É preciso notar que essas posições são intercambiáveis pelos atores sociais. Quando do fim da Ditadura Militar as forças que hoje, em parte, estão no governo, não titubeavam em dizer que tudo era “culpa do regime”. (Caso se ouça um jovem como Safatle, hoje, que talvez nem tenha vivido a Ditadura Militar, essa versão ainda permanece!). O regime militar estava tão desgastado que, então, nem era possível alguém ser ouvido se viesse dar uma de advogado e dizer, “olha, sejamos analíticos, é necessário entender como que se desdobraram as forças que vieram ao poder em 1964”.

Quem está no ataque, ao menos nos momentos mais agudos e vistos como finais, usa antes de palavras de ordem que de reflexão. Durante a “Campanha das Diretas Já” a razão se exerceu por meio da organização racional agregada ao mais profundo irracionalismo verbal. Ia-se a comícios que não eram comícios. Valia apenas gritar “Diretas Já!” e ficar contabilizando quantas pessoas havia ali no protesto para, em seguida, gritar de novo a mesma coisa. Algumas personalidades viajavam horas para subir no palanque de modo a gritar  uma vez só o “Diretas Já!” e, se possível, dar uma olhada nos peitos deslumbrantes da Fafá de Belém. Lá embaixo do palanque era um massa de pessoas que dizia que queria votar para Presidente. Pouco tempo depois realmente essa massa votou e elegeu Fernando Collor!

Manifestações populares são assim mesmo. Quem ataca sempre carrega o tiro único e talvez injusto do promotor. Anda com a bala de prata! Quem defende sempre tende a se comportar analiticamente e, de certo modo, parece pedir que a justiça venha com certa ponderação. É desse modo que vejo a manifestação do professor de ética Renato Janine Ribeiro, na atual circunstância.

Em artigo utilizado no Blog do Nassif, que é funcionário do PT, ele pediu que os manifestantes que estivessem clamando clamando por algo como a ditadura militar fossem criminalizados. Passado uns dias, ele veio à Folha de São Paulo (25/03) com um artigo menos abrupto, e aí sim usando a técnica do advogado: não temos que atacar só o PT, mas temos de distribuir a culpa. A ideia de distribuir a culpa não é muito pertinente. Cada ato denunciado tem possíveis culpados que podem ser acusados, investigados, julgados e, conforme a situação, presos. Querer fazer de todo erro humano atual algo que precisa estar ligado, nesse processo, a uma analítica que vá buscar o pecado de Adão e Eva e, em seguida, o ato bárbaro de Caim e assim por diante, serve para tese de historiador. No processo político, quando esse argumento aparece, ele raramente não é ideológico.

Posso perfeitamente olhar para os movimentos de protesto contra o governo, atuais, e ver gente autoritária posando de democrata. Claro! Por exemplo: Pondé na Folha de S. Paulo ( 23/03) deixou isso claro sobre ele mesmo com a frase: “o PT nasceu do chão da fábrica, de onde nunca deveria ter saído”. A frase pode ser lida da seguinte maneira: “sou contra a escravidão e quero ver o negro livre, mas já que ele vai sair da Senzala que fique só na favela”. É algo mais ou menos assim. Isso faz de Pondé apenas um rapaz que gosta de uma democracia especial, uma democracia sem partidos de esquerda (sim, pois ele ao longo do texto também recrimina outras agremiações de esquerda). Mas ele tem legitimidade para dizer isso que disse ao menos como cidadão. Ele pode estar suficientemente irritado com o desgoverno do PT a ponto de querer dar uma estocada desse tipo. Há até petista ou ex-petista falando isso!

Em suma, se Pondé escorregou na frase e não fez uma análise histórica, tenho legitimidade de cobrá-lo dizendo: eu esperava mais de um intelectual, ao menos ali, no artigo. Agora, se ele fez o artigo como quem vai indo para a rua, vestindo a camiseta da CBF junto com Aécio, Bolsonaro e Malafaia, aí ele pode extravasar. Se esse quarteto passar a manifestação toda berrando “Fora PT!” e “Morra Dilma”, não os verei com avançando o sinal. Estarão fazendo que se faz mesmo em época assim. Não creio na pertinência de uma ação de Renato Janine Ribeiro, admoestando-os: “não fiquem gritando isso, criem textos analíticos e considerem a história e blá-blá-blá”.

As perspectivas são diferentes não só porque as pessoas são diferentes, mas porque eles falam de lugares diferentes dependendo do momento que falam e para quem falam. Uma visão mais panorâmica, se é que conseguimos alguma, nessas horas, implica em considerar essa topologia discursiva e sua relação com o relógio.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Professor da UFRRJ e autor, entre outros, de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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3 Responses “Professores de filosofia em tempos de protesto”

  1. marcos vasconcelos de lima
    16/05/2015 at 15:13

    Paulo Guiraldelli, assisti a um video da Marcia Tiburi, sobre filosofia pop. Confesso que o termo “pop” deixou-me um pouco incomadado. Conheço filosofia platonica, aristotelica, sartreana, kantiana, etc. É claro que a Marcia recorre aos filosofos, para inaugurar “a filosofia pop”, mas convenhamos poderia chamar a atençao para quem queira se interessar por filosofia de outra maneira. Abraços

    • ghiraldelli
      16/05/2015 at 16:57

      Marcos, eu não vejo coisas dessa moça. Eu tentei, mas não consegui. É muito ruim.

  2. Raimundo Marinho
    26/03/2015 at 09:40

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    Junto a Aécio, Bolsonaro, Malafaia, Pondé, deve fazer parte também o sr. Marco Antonio Villa – coxinha ferrenho.

    Obrigado.

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