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25/07/2017

“Pai, posso escolher a profissão de filósofo?”


Jovens pobres não escolhem profissão. Adaptam-se à sobrevivência, mesmo quando possuem escolarização. Os que escolhem profissão, ao menos no Brasil, são os jovens das classes médias. Desse modo, os pomposos conselhos sobre “vocação profissional” são para esses garotos e garotas. E para estes o que se ensina é sempre o tolo e o dúbio: escolha o que gosta, mas escolha o que o faz ter sucesso.

No primeiro caso, o conselho é tolo: escolha o que gosta. Ora bolas, que conselho é este? Não é preciso ouvir alguém para se tomar uma decisão desse tipo. No segundo caso, o conselho é dúbio. Afinal, o que é ter sucesso? Aí é que entra o problema. Sucesso em algumas profissões são o insucesso segundo muitos aspectos. Qual o sucesso de um médico? Ficar rico ou salvar vidas? Dá para salvar vidas e ficar rico? Até dá. Talvez! E o sucesso de um filósofo? Aí as coisas mudam um pouco: um filósofo que vende livros e é aceito por todos tem sucesso? Como filósofo, isso é perigoso de dizer. Filósofo muito aceito, sem mais, sendo acadêmico, dá para desconfiar. Por que um filósofo, um crítico da sociedade e um fustigador do pensamento alheio teria que ter sucesso? Duvido!

Há atividades sociais cujo êxito é o contrário do sucesso. Um filósofo obtém êxito nas suas críticas e, então, por isso, ganha destaque na mídia ou nos governos. É isso? Ora, se o filósofo começa a virar moda, se ultrapassa os limites normais de aceitação pelo mercado ou pelo poder, é sinal de que o sucesso veio exatamente pelo não êxito do filósofo. Quem é afiado nas críticas, sagaz nas fustigações e profundo na investigação não pode ter sucesso em seu êxito. Está profundamente enganado ao se ver como filósofo. Pode se qualificar como um ensaísta, às vezes, ou seja, aquele que vive ensaiando a peça mas não a executa. O filósofo é um animal de combate. Ao obter êxito, normalmente sai derrotado no campo do sucesso. Se está recebendo um dinheirinho a mais, pode acreditar, o que fez serve somente à corrupção. Se está ficando conhecido demais, o que está fazendo é auto-ajuda. Filosofia não pode vender muito. Pois filosofia é para todos mas não é para qualquer um. Não compreender isso é não compreender a própria filosofia.

Várias atividades não são só atividades, são também profissões. Bem, filósofo é uma atividade, a profissão de filósofo é, em geral, a de professor ou pesquisador ou, então, escritor. Um texto ou outro de filosofia acadêmica pode dar algum dinheiro. Mas se começar a vender como livro psicografado ou despontar como best seller, então a conclusão é fácil: o público comprou por um erro no título ou comprou por uma sorte inicial de marketing ou, então, exatamente por não ter nada a ver com filosofia real.  Nossa população sequer entende o Jornal Nacional quando este fala de evolução ou economia, então, obter venda de livro de filosofia com esse tipo de população nem sempre é mérito, pode ser um profundo fracasso. É necessário ter coragem de dizer isso e de assumir isso. A filosofia exige das pessoas o que “os muitos” não podem dar. A filosofia é de elites para elites. E o sentido de elite aqui é o correto, não o sentido tolo usado por direita e esquerda no Brasil.

Muitos filósofos contrariaram seus leitores com coragem, para ficar ao lado da investigação que queriam fazer e não para ficar com os seus escritos que haviam se tornado doutrina da boca dos mais tolos. Não é fácil não ceder ao seu público, ao seu gueto, ao carinho de seu grupo de leitores iniciais.  Quando o filósofo cede ao político antes de ficar com só com a filosofia, então, começa de fato a fazer política. Termina como político. Ora, política é uma coisa e a filosofia é outra – bem outra. A democracia matou Sócrates. Não vamos esquecer isso nunca.

Sempre que sou muito agredido por gente que só pensa em política e com a política, aqui no meu blog, começo a saber que estou tendo êxito.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 01/09/2016

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17 Responses ““Pai, posso escolher a profissão de filósofo?””

  1. 02/09/2016 at 18:31

    Claro, professor. Não só o Mundo não acabou, como a História e a própria Filosofia não acabaram. Foi isso que eu quis dizer. Pelo fato de Sartre ter sido um dos últimos remanescentes de um tipo de filosofar, surgido na primeira metade do século XX, a filosofia existencialista, isso não significa, necessariamente, que não possamos ter ainda, nas próximas décadas, outros talentos geniais quanto ele, Heidegger, Bergson, Cassirer, apenas para citar os mais contemporâneos. O Futuro a Deus pertence. Eu creio Nele.

    • 02/09/2016 at 18:44

      Foucault, Deleuze, Rorty, Davidson, Sloterdijk nossa, o mundo já andou!

  2. 02/09/2016 at 14:42

    Há, na atualidade, filósofos e pensadores brilhantes, porém, considero Jean Paul Sartre(1905-1980) o último grande filósofo dos cem anos que nos precedem, um gênio mesmo. Antes dele, somente o alemão Martin Heidegger(1889-1976), apesar da polêmica que cerca sua controvertida adesão ao nazismo, escondida por ele até o fim da vida. E ainda foi íntimo amigo de Hannah Arendt, judia alemã.

  3. LMC
    02/09/2016 at 11:40

    Na Folha de hoje,Vladimir Safatle
    Safado disse que Janaina Paschoal
    é afeita a discursos evangélico-
    fascistas.Nenhum terrorista
    vai pegar um caminhão e
    atropelar este jegue na saída
    da Folha,não?Estou esperando.
    kkkkkkkk

    • LMC
      02/09/2016 at 11:44

      PG,peço que retire o post que
      publiquei acima.Não gosto do
      Safatle,mas acho que exagerei
      no que escrevi acima.

    • LMC
      02/09/2016 at 13:44

      Ainda bem que o PG não publicou
      a segunda parte do meu texto no
      Facebook dele.Pois não sou de
      fazer apologia da violência na
      internet.

  4. Erik Kierski
    02/09/2016 at 10:14

    Pois é, Paulo, e ainda tem estudante de filosofia que escolhe Cortella, Safatle e Pondé como filósofos. Fico feliz de já ter ouvido professor dizendo para um aluno: “Não use Olavo de Carvalho porque ele não é aceito entre os professores.” UFA! O pior é que são os que mais vendem como “filosofia” por aí. Mas se falo em Paulo Ghiraldelli, é porque gosto de textos de auto-ajuda. É interessante observar que, na academia, os professores mais críticos são considerados os mais “chatos” ou “sem didática”, porque passam textos longos e difíceis, e falam muito. Já viu estudante de filosofia que não quer ler e discutir? São seguidores desses pretensos filósofos. Essa proliferação é preocupante.

    • 02/09/2016 at 12:06

      Erik eu entendi, mas meus textos não são de auto-ajuda. Não são fáceis. Dão a impressão porque são bem escritos. Mas há filósofos clássicos que escrevem bem. O próprio Platão é grande escritor. Mil vezes melhor que qualquer um de nós que invente de caprichar. Quer mais claro que aquilo? Quer mais profundo? Não tem.

  5. Franklin Mariano
    01/09/2016 at 22:45

    Paulo, talvez um dos problemas básicos da filosofia no Brasil é que tem gente demais se dizendo filósofo. Historiador, advogado, médico, psicanalista, etc.,.Gente que não foi treinada em filosofia se dizendo filósofo; enquanto uma parte substancial de filósofos inteligentes, ensaístas de ótimo nível, estão escondidos em suas cátedras, buscando pontos da capes e do cnpq.

    O seu caso é diferente, mas muitos de seus colegas nem são conhecidos. Eles são deixados de lado, enquanto os palestrantes de auto ajuda oferecem suposta filosofia.

    • 01/09/2016 at 23:47

      Franklin por isso fizemos o Hora da Coruja. Houve uma pressão enorme para aderirmos ao auê midiático. Não cedemos. Fomos sempre trazendo professores. Quando retomarmos vamos na mesma linha. Por isso mesmo, nunca tivemos patrocinadores que não indivíduos doadores.

  6. Joao Pedro Dorigam
    01/09/2016 at 20:21

    Paulo, poderia esclarecer essa suposta contradição?

    Sócrates morreu pelo democracia, mas sua morte foi essencial para que ele realizasse no mundo um novo formato do pensar, ou seja, se fez vivo o teatro grego.

    Se soubéssemos de tudo isso e voltassemos ao passado na figura de Sócrates, nosso fim seria o mesmo inevitavelmente, sob pena de não dar cabo ao propósito desejado.

    Daí vem Platão é e se dá mal com a teoria do rei filósofo. Nove e meio dentre 10 estudantes de filosofia querem mesmo ser o rei.

    Enfim, terminando a trilogia do tempo em que o ambiente era estável e o cidadão estava habilitado para discutir a polis, Aristóteles entende sua postura, mas aconselha o rei.

    Um pessoa que conhece o ser humano mais que outros não estaria duplamente onerando em dialogar com as elites e realizar o conhecimento fora da elite?

    Os poetas e a literatura não faz isso?

    A proposta da ciência não é essa?

    O filósofo não é um mero anão nas contas de um gigante? Se sim, como pode ser uma elite?

    • 01/09/2016 at 23:50

      Dorigan, sem qualquer pedantismo, sério, acho que pode encontrar respostas ou encaminhamentos delas no “Sócrates: pensador e educador” (Cortez), de minha autoria.

    • Joao Pedro Dorigam
      02/09/2016 at 08:15

      Paulo, fui ver o livro, tem grátis na web, mas juro que comprarei.

      Pelo que entendi, o filósofo protege a unidade da filósofia em todos os tempos. Portanto, se o Ponde tentar fazer filósofo só para seus clientes estará negando a universidade.

      É isso?

    • 02/09/2016 at 08:28

      “Universalidade”? Eu falei isso? Acho que não.

    • Joao Pedro Dorigam
      02/09/2016 at 08:16

      Universalidade.

  7. Danilo Rocha
    01/09/2016 at 16:22

    Ótimo texto

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