Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

27/03/2017

A privatização do mal


Em Nova York, Roma ou São Paulo você encontra pessoas e seus cães morando na rua. Boa parte é pedinte. Vários homens e mulheres desse grupo, apesar de não estar envolvida com drogas, foi castigada pela dureza da rua de tal modo que não têm mais condições de assumir trabalho.

Dentes infeccionados trouxeram para a corrente sanguínea dessas pessoas males crônicos. São pessoas que não têm ninguém. Conhecem talvez a única experiência realmente trágica e a mais aterradora, a do desamparo.  Qualquer ser galáctico, diria Kant, que tivesse um coração, se apiedaria de uma pessoa assim. Mas, para um grupo de viventes que se preocupam com o mal, esse descalabro não basta, ou melhor, não serve como elemento de preocupação e lágrima. O mal que querem colocar numa caixinha e trazerem para casa não pode ser assim, de tal modo desvalido, mendicante e sem charme.  Precisam de um mal que tenha certo apelo historiográfico, certa disposição para a teoria. Algo como “o neofascismo” é um mal charmoso. “Neofascismo” traz intelectuais para dele falar. Então, é verdadeiramente um mal. Mas o sofrimento do José da Silva na rua, sem comer e com 39 graus de febre, isolado e perdido no mundo aos 65 anos,, não é um mal, é uma moléstia individual junto de seu portador. Não é o mal que se traz para dizer de boca cheia “isso é o mal”!

Estamos vivendo a privatização do mal. Há pessoas que se acostumaram com o mal em grande estilo, um mal capaz de passeatas e de colocar desvios na história. Esse mal elas querem comprar. Exibir. Querem fazer simpósio deles. Querem falar na mídia desse mal. Querem ter essa mal em casa como quem tem um brinquedo. O mal de José da Silva não lhes arranca nenhuma lágrima. É que tais pessoas não querem o mal que arranca lágrimas, querem o mal que lhes arranque discurso. “Na Europa ressurge o fascismo!” Oh! Isso sim é o mal que querem, algo espetacular, já catalogado pela sociologia e já registrado na historiografia. Esse mal dá mesa redonda. Aí sim! José da Silva não dá mesa redonda, dá trabalho – ou daria, se alguém fosse cuidar dele. Mas esse grupo que privatizou  a ideia do que e´o mal e´que não vai, pois são pessoas muito ocupadas com o mal, não com a moléstia do miserável e desamparado José da Silva.

Cada vez que vejo as pessoas tamparem o sofrimento que está logo ali abaixo do nariz delas por conta de algum mal histórico da Europa, seja o fascismo ou o xenofobismo, tendo a ficar com um pé atrás. Algo me incomoda. Algo me diz que uma tal preocupação não é senão uma ocupação. Todos nós temos coisas horríveis que poderíamos melhorar, mas o mal lá distante sempre feito na medida do envólucro teórico, instantaneamente aparece como que uma forma de nos tirar do esforço. Somos salvos para o deleite pelo “olha lá o neofascismo na Europa!” ou coisa parecida.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 01/08/2016

Tags: , ,

14 Responses “A privatização do mal”

  1. Ícaro
    04/08/2016 at 14:31

    É o famoso mal midiática, que dá ibope,palestras, conferências,mesa redonda,etc. Temos que aprender a ser como o bom samaritano.

  2. Henrique
    03/08/2016 at 19:19

    As vezes nas escolas mesmos estudamos tanto essas e outras questões mas sempre olhando para longe, olhamos o mal como se estivesse distante no tempo e no espaço, o mal do holocausto, a banalidade do mal descrita pela filósofa Hannah Arendt, o sofrimento humano descrito por Primo Levi, mas enquanto isso tropeçamos em mendigos e em pessoas que consideramos loser e que queremos distância delas.

  3. Dr. Marcelo Braga
    03/08/2016 at 16:07

    Paulo, O texto está bem escrito! Meus parabéns! Mas parece-me que a sua mente está presa na reatividade emocional e por isso você dá tanta importância às notícias trágicas e violentas divulgadas nas mídias. Pesquise o que é isso se quiser ter saúde!

    • 03/08/2016 at 19:07

      Marcelo, o filósofo é médico da cultura, a saúde é algo outro para nós. EStou num mundo onde não há militantes políticos adorando o Grande Mal. Putz!

  4. Tony Bocão
    03/08/2016 at 10:54

    Camarada com cara de fome escorado no muro, ativa uma sensação em algumas pessoas, que digamos, uma pia de louça suja que não é dele. Mas se você pagar um misto completo presunto, queijo e ovo, que custa 4 reais (cotação de hoje), naquela manhã cheia de notícias de mal privatizado, vai aliviar um pouco o faminto, vai começar bem seu dia e principalmente vai incomodar os pobres de empatia.

  5. Hugo Lopes de Oliveira
    02/08/2016 at 17:30

    São males maiores e outros males menores, diriam uns e outros. Eu categorizo o mal para poder selecionar as minhas inquietações e intervenções.

  6. 02/08/2016 at 10:11

    Paulo cabem no seu texto bem capilarizado a reflexão que é mais fácil amar quem está longo do que o próximo

  7. Gabriel Toledo
    02/08/2016 at 02:56

    Paulo, sempre leio seus textos, não costumo comentar, mas dessa vez me senti compelido. Conseguiste colocar em palavras um certo mal-estar que eu sentia já ha muito tempo em relação a determinadas pessoas (infelizmente tenho a impressão de que são a maioria) que levantam cartazes, fazem palestras, etc., mas jamais resolvem os problemas imediatos, que estão realmente ao seu alcance. OCUPAÇÃO é certamente a palavra mais adequada para descrever essa atividade que eles chamam de altruísmo. Muito obrigado pelo texto.

    • 02/08/2016 at 09:13

      Gabriel, não são a maioria, são os “politizados”. Há muita gente que vê o mal e intervém, sem ficar esperando o “grande mal”.

    • Gabriel Toledo
      02/08/2016 at 12:27

      Tu provavelmente está certo, mas como eu disse é só uma impressão minha. Deve ser porque o mal de verdade não vende tanto quanto o “grande mal”.

    • 02/08/2016 at 12:50

      Olha, tenho dúvidas sobre isso, se é por conta de venda. Mas há em nossa época, ao menos isso é uma característica da modernidade, de tematizar a política teoricamente a partir do Mal, coisa que os antigos não conheciam, eles teorizaram sobre política a partir do Bem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo