Go to ...

on YouTubeRSS Feed

19/11/2019

De príncipes veados a príncipes homossexuais


Do mesmo modo que, nos anos cinquenta, Batman e Robin eram gays e sobre isso não ousávamos dizer uma palavra sequer, também o namoro infinito de Clark Kent e Mirian Lane dava dicas de que o Superman não tinha seu ponto fraco só na criptonita. O Mr. Walker, o Fantasma-Que-Anda, de cueca, malha colante, botas e máscara, cercado de pigmeus nus na África e sempre solitário, não era o Montaigne na biblioteca, mas sim o dono da Caverna da Caveira. Ora, quem se resigna sexualmente só pode mesmo morar em um lugar que represente morte. Tenho minhas dúvidas sobre se Mr. Walker, um dia, se abriu para o chefe pigmeu!

Os super-heróis sempre foram de gays a g0ys. De abstêmios e discretos pederastas a afeminados mais ou menos abertos, mas com seus casos também escondidíssimos. E isso de todo lado. Mulher Maravilha jamais convenceu alguém de que seu laço era outra coisa senão uma forma de prender meninas na cama. Capitão América, então, passou uma vida lamentando a perda de seu efebo, Buck Rogers. Mandrake o Lothar eu nem comento, seria covardia. E o Zorro com o Tonto (a versão dos Rangers no Brasil) chegava a montar um arco-íris no Oeste; nunca que eu poderia imaginar um cowboy mascarado andando com calça agarradinha e um indião ao lado.

Só o Spiderman nasceu com conduta hétero, trocando de namoradas antes que a coisa ficasse feia para o seu lado. Justamente em uma época de maior abertura, já após os sixties, foi possível expor a sexualidade dos super-heróis. Exatamente aí, optou-se pelo aracnídeo capaz de dar ao menos um beijo, e não na eterna frígida, como foi o caso de Superman.

Quando tudo isso veio à tona, as crianças dos anos cinquenta já estavam para lá dos trinta ou quarenta ou cinquenta. Não se importavam mais com o uso de orifícios vários de nosso corpo por parte de seus heróis do passado. Por mais que Batman tenha se tornado uma figura sombria, e não mais o ridículo do seriado da TV, ele aceitou bem a condição de, enquanto com Robin, ser um dos símbolos máximos do mundo gay, tanto quanto Village People. Em uma época que os gays já ultrapassaram o estágio do filme Filadélfia (em que “bicha”, “veado” etc. eram termos que deveriam ser evitados), podendo agora rir de si mesmos de uma maneira que o preconceito mostra-se superado pelo pós-conceito, tudo caminha mais rápido. A homofobia é combatida em vários níveis e frentes, e a própria acusação de homofobia começa a se tornar mais qualificada. E uma época assim o universo gay pode ganhar novas amplitudes. Uma última revelação pode ser posta à prova: a verdade sobre os príncipes dos contos de fadas.

Os príncipes nunca foram outra coisa senão veados mimados e pressionados pelos seus pais. Aliás, só mesmo um príncipe veado poderia fazer uma Bela Adormecida despertar! Ela despertou para o casamento, mas não para o sexo. Era uma menina anorgásmica que encontrou não o homem que a fez feliz no sexo, mas que casou com ela contanto que ela permitisse que ele mantivesse casos com todos os homens preferidos da Corte. Nada melhor para a anorgásmica! Com esse casamento de fachada, que vingava demais na corte (em realidade agora nas casas de inúmeras famílias), eles não podiam ser outra coisa senão felizes para sempre. Pois então, agora, que as fadas apresentem o que sempre souberam.

príncipes veadosEis a matéria do jornal O Globo: “No reino mágico de Evergreen, a princesa Elena é sequestrada por uma bruxa. Em resposta, seu pai, o Rei Rufus, lança o desafio: quem salvar a beldade terá o direito de se casar com ela. Os jovens Gallant e Earnest resolvem, então, encarar a missão. E aí termina o caráter convencional da trama. Durante a busca, os dois homens se apaixonam e, no fim, acabam se casando com pompa na igreja.” Isso resume o The princes and the treasure (“Os príncipes e o tesouro”, em tradução literal), de Jeffrey A. Miles, professor da Escola de Negócios da Universidade do Pacífico, na Califórnia. O resto da matéria do jornal é baboseira chata, não leiam. Trata-se daquela necessidade de dizer que o conto é para ensinar as crianças a não terem preconceito. E aí seguem alguns comentários de fundamentalistas de sempre, que protestaram dizendo que se trata de “propaganda gay” etc. Aquela lenga-lenga de quem acha que para dar a bunda é necessário escutar propaganda de quem dá a bunda.

O que há de interessante nisso tudo? Talvez nada mais. Mas escrevi sobre o assunto porque ainda há um detalhe a ser falado sobre homossexualidade na literatura, que é justamente este: por que exatamente os príncipes, que todos nós já sabíamos que eram gays, se anunciaram tão tardiamente? Afinal de contas, nós os notávamos: eles nunca salvavam de fato as princesas e nem eram os personagens principais, pois estes sempre eram representados por forças da natureza, pois a maldade vinha pelas bruxas e suas poções e a bondade emanava dos coadjuvantes, em geral animais e a esperteza natural da heroína, protegida pelas fadas – isso tudo, principalmente, quando a versão rousseaunizada de Disney tomou conta desse universo.

Talvez a explicação esteja em algo completamente evidente. Os super-heróis puderam ser tomados como eram, ou seja, gays, porque ninguém tem super-herói na família. Todavia, príncipe e princesa formam um casal, é a família. Este é o drama atual. Ou, melhor dizendo, este ainda é o drama atual: os homossexuais podem casar e gerenciar uma família? Ou os homossexuais são pessoas que não pensam em outra coisa senão em sexo e orgias – como o pensamento conservador imagina – e por isso seriam descuidados com as crianças?

príncipe veadoEssa imagem do amor homossexual como um amor egoísta de fato existiu. E a realidade dela também. Uma vez que o sexo só podia ser casual e escondido, é claro que ele tinha mesmo de se revestir de autoproteção e, então, de certo egoísmo. Mas agora, como os casais homossexuais já podem ter algum espaço mais livre de olhares e vigias e condenações laterais, ou mesmo perda de emprego, o amor gay se torna um amor comum e, assim, surge no amor gay as necessidades do amor em geral, o de compartilhar a criação de filhos. Estamos vivendo isso agora, talvez uma das últimas batalhas dos homossexuais. Chegamos então, tardiamente, a revelar a identidade sexual dos príncipes dos contos de fadas, aqueles que bem antes dos que falam em Orgulho Hétero, já haviam provado da fruta.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

Tags: , , , , , , , , , , ,

4 Responses “De príncipes veados a príncipes homossexuais”

  1. Guilherme Gouvêa
    15/07/2014 at 14:44
  2. Alexandre
    11/07/2014 at 21:07

    Pô, deixem os gays casarem. Não entendo essa birra de alguns setores da sociedade. Afinal de contas o casamento virou bode para os heterossexuais.
    E outra, os gays contribuem mesmo que sejam a minoria, a manutenção da população, não se esqueçam que o mundo está envelhecendo e quantidade de jovens vai decair de forma assombrosa.

  3. Alexandre Magno
    11/07/2014 at 21:02

    Sempre enxerguei a relação entre o Batman e o Robin como um símbolo da pederastia, talvez um símbolo da homossexualidade como um todo, enfim, seria muito bom se o mundo fosse mais homoerótico, aliás, nunca vi utilizarem a expressão “heteroerótico”, acho isso curioso.
    Aliás, o tal do Oscar que fez o gol contra a Alemanha é uma delícia, precisava comentar isso em algum lugar.

  4. Thiago Carlos
    11/07/2014 at 12:28

    Paulo adorei seu texto =)
    Chegou a ver essa postagem que o Jean Wyllis fez ontem sobre como os gays enrustidos se sentem no armário?

    https://www.facebook.com/jean.wyllys/posts/714941855220491?ref=notif&notif_t=notify_me

    Dá pra ter uma ideia clara do quanto essa imagem negativa que os conservadores montam força os gays a uma condição de negação de si mesmo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *