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17/08/2017

A investigação sobre o sujeito – Peter Sloterdijk


Investigação sobre o sujeito – texto produzido a partir de encontro virtual sobre leitura de Peter Sloterdijk. Referente à introdução do livro Esferas I

Levando Hegel a sério, como Nietzsche e Heidegger levaram, ainda que criticamente, pode-se pensar toda a nossa cultura ou ao menos nossa história da filosofia como o desdobramento da formação da noção de sujeito. Historiar a subjetividade é, em grande medida, criar uma forma interessante de narrativa sobre a modernidade e, enfim, extrapolarmos para a filosofia em geral.

Fazemos isso ao dar crédito para uma narrativa que se tornou comum entre nós: começamos pelo “conhece-te a ti mesmo” cultivado por Heráclito e Sócrates, passamos pelos gênios dos estoicos e chegamos à atenção de Agostinho a si mesmo em suas Confissões. Então, aportamos em Descartes que transforma o princípio da subjetividade uma base para a verdade. Sloterdijk não diz que estamos errados, mas ele prefere iniciar o que chama de “arqueologia da intimidade”, que sem dúvida é parte importante da sua investigação sobre a noção de subjetividade, antes pela tradição judaico-cristã que pela tradição grega.

Sloterdijk começa pelo Gênesis, da Bíblia judaico-cristã. É o que faz em Blasen (bubbles, bolhas), no primeiro volume da trilogia das esferas. Seu ponto de partida é uma análise da esfera que se forma entre Deus e sua criação, Adão, e também do próprio caráter esférico deste, à medida que nasce como um vaso. Adão nada é senão um jarro de barro, uma objeto de cerâmica, pois o Deus judaico-cristão não surge no Gênesis possuindo outra tecnologia para a construção do homem senão a especialidade da época, a das olarias.

Deus cria Adão como um jarro oco e, para lhe dar vida, precisa de inspiração. Sim, criação e inspiração geram aí uma semântica intercambiável. O homem é um ser inspirado, algo que recebe sopro, como o jarro. Na base de altas temperaturas o ceramista assopra a argila e a conforma como vazo. Deus usa essa tecnologia: assopra o oco das narinas do boneco feito da adamo, que é Adão, e então, por inspiração, por sopro da vida, lhe anima. Animação ou o que tem alma vem pela vida, e não o contrário. É assim que uma metacerâmica gera uma metafísica. É assim que Deus faz o homem à sua semelhança: ele, Deus, é aquele que fabrica e cria por inspiração, e também assim é Adão. Deus é quem preenche o jarro Adão com vida, e assim Adão é aquele que, durante toda a vida, deverá ater-se no sentido de manter-se preenchido. Preencher-se é o elemento central aí. Portanto, o homem vindo de Deus é um homem que contém algo da subjetividade que irá ser conceituada: para ser sujeito é necessário ter preenchimento, ou seja, equipagem.

Quando passamos do volume I das Esferas para o livro O Palácio de Cristal, compreendemos que Sloterdijk está pensando no sujeito como aquele que passa da teoria para a prática, e que para assim fazer se autoconsulta para se autodesinibir e, então agir. Ora, quem se autoconsulta busca para se autodesinibir nada além de razões, justificativas. Então, para tal, tem de estar preenchido. Alguém raso não pode oferecer razões para a desinibição, e não será então um agente nas condições exigidas pela noção de sujeito ou de homem moderno. Assim, olhando tal narrativa, compreendemos a importãncia de, em Blasen, Sloterdijk ter preferido iniciar pela Bíblia e não por mitos como os de Hesíodo ou os de Homero, muito menos por filósofos gregos.

Os mitos homéricos e, de certa forma, os filósofos gregos nunca se ativeram em preenchimentos. O mundo de Hesíodo não se inicia por preenchimento, e sim por cosmogonia, pelo encontro de elementos naturais que geram deuses. Heróis como os da Ilíada e a Odisseia são todos rasos – Ulisses à frente. Meio deuses como Hércules nunca buscaram legitimidade a partir de uma consulta interior, uma autodesinibição e, enfim, uma passagem da teoria para a prática. Hércules cumpriu tarefas práticas estabelecidas por outros e, a cada uma delas, ganhou algo como quem ganha pontos ou “vidas” em um vídeo game. Mesmo Sócrates, que ficava sozinho paralisado, nunca revelou o que pensava nessa hora. Quando se referia a alguma conversa interior, falava do daimon que apenas dizia “não”, ou então de um amigo que era hóspede em sua cara, provavelmente ele mesmo – uma forma arcaica de autorreflexão. Nenhum dessas personagens gregas exibiu qualquer coisa como uma subjetividade, digamos assim, algo como uma equipagem “interior”, capaz de ser o botão de “start” da ação desenvolvida pelo que se possa chamar de sujeito.

Ao contrário disso, Adão, preenchido pelo sopro da vida, pela inspiração, logo passou pela vida com esta fazendo o que faz com todos.  Rompeu os interditos, ganhou vergonha, culpa, e deu ao mundo uma humanidade toda com “interior”, com uma série de predisposições e equipagens de quem tem vida subjetiva.

Não são enquanto modernos, enquanto os que devem ser sujeitos, herdeiros de Sócrates, mas de Jesus, e este, de Adão.

Bem diferente do silêncio de Sócrates, o retiro de Jesus no Deserto foi preenchido por uma reflexão intensa de quarenta dias, dialogando com seu daimon que, por sua vez, testou-o na sua vocação. Jesus queria desinibir-se encontrando razões para ser o sujeito de uma nova religião, enquanto que o seu daimon queria que ele agisse como a sua família desejava, que ele tivesse mulheres, riquezas, que aproveitasse a sua condição de filho jovem de um carpinteiro, enfim, de um homem livre, talvez não muito rico, mas sem dúvida não um escravo. Além disso, Jesus era carismático, poderia pregar nas sinagogas e ser um profeta. Por que Jesus deveria ser mais que isso? Por que ser um … cristão? Mas Jesus consultou-se e desinibiu-se de modo fantástico, se considerando filho de Deus. Encontrou em si mais que razões, encontrou uma estranha fé em uma inspiração sua, em uma respiração sua. Jesus soprou para o seu interior e o preencheu com suas novas ideias. E assim se colocou na trilha que o levou ao Calvário e ao sucesso.

Ora, se é assim o mundo hebraico, um mundo de homens preenchidos, e não um mundo de cosmos e homens rasos, então é certo que a subjetividade e o sujeito devem, mesmo, ser pesquisados por essa via. Sloterdijk acerta na sua inversão. Sua ideia deveria ter sido vista antes por todos nós. Até vimos, mas não fizemos o que ele fez. Só ele teve a coragem e o insight de não ir investigar diretamente em Jesus o sujeito moderno, mas na subjetividade gerada na esfera entre Deus e Adão, bem anterior.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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2 Responses “A investigação sobre o sujeito – Peter Sloterdijk”

  1. Adriano Apolinário da Silva
    18/08/2014 at 00:56

    Fantástico! E que “filme” que passa na cabeça essa narrativa do preenchimento do vaso, Adão. Que “desbanalização” de uma narrativa que me passaria despercebida uma vida. Obrigado por partilhar!

    • 18/08/2014 at 08:56

      Adriano, pois é, mas é só para inteligentes. Venha ler o Sloterdijk conosco. Todo domingo 16 horas usando o VSEE

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