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28/02/2020

Preâmbulo ao livro “A vida do espírito”


Preâmbulo ao livro A vida do espírito, a partir de Francis Wolff

No tempo em que Hannah Arendt escreveu A vida do espírito, ao se referir ao pensar, especialmente em um meio filosófico ou banhado pela filosofia, a maior parte de seus leitores podia entender rapidamente a que estava se referindo. Tratava-se então da atividade do espírito (em alemão: Geist), envolvendo as paixões da alma (em francês, ou português: alma) e a consciência como atividade da mente (em inglês: mind). No entanto, quando falamos hoje em pensar podemos ser ouvidos como quem se refere a atos mentais, e isso em um sentido da atual disciplina filosofia da mente, agora já tão permeada pelas “ciências cognitivas”. Tais ciências visam mapear a atividade cerebral e então estabelecer correlações visíveis e mensuráveis entre áreas do cérebro e funções cognitivas, perceptivas, de linguagem, etc., além de estudarem funções cognitivas por meio de modelos computacionais do campo da “inteligência artificial”. Distancia-se aí, nesse caso, do que Arendt quis conversar ao falar em “espírito”.

Assim, uma bibliotecária com informações filosóficas mais atuais ou, digamos assim, sob a influência da filosofia da mente como a disciplina própria a respeito do pensamento, tenderia a colocar o livro de Arendt, muito provavelmente, na estante de ética. O gap entre a “nova formação” de filósofos e a velha guarda, mais própria de Arendt, é em certa medida o gap entre, respectivamente, os que circunscrevem o pensamento à sua descrição em termos da linguagem física ou psicológica articulada à física, e os que não perderam de vista que o pensamento não é a experiência do pensamento. A experiência do pensamento é a experiência do que podemos chamar de sujeito, isto é, um eu.[1] Todavia, que não se pense aqui o eu como alguma coisa substancial, na formulação clássica da filosofia moderna.

Aqui, todo cuidado é pouco. Posso estar consciente de algo e, portanto, pensando, sem ter a consciência de que sou eu que estou pensando. Criancinhas pensam e são conscientes, reconhecedoras, mas não tem consciência de ser um eu. Pensam muito antes de, após um tempo, conseguirem pensar a si próprias. Experimentam o meio sem, ainda, experimentar a si mesmas.  O pensamento em um sentido amplo é consciência e o sujeito. Não significa que este eu determine a seu bel prazer o que pensa. Aliás, Nietzsche já nos advertiu disso, de que o pensamento é que vem, não sou eu que o penso quando quero. Mas, isso não significa que a experiência do pensamento não esteja em articulação com um eu, um sujeito.

Em uma passagem extremamente feliz, Francis Wolff explica a relação entre pensamento e o eu ou sujeito:

“Quando se diz que experimentar o pensamento significa ter a sensação de que sou eu quem pensa, não quer dizer que ‘eu’ seria o criador dos meus pensamentos, como se estes me obedecessem. A relação entre mim e meus pensamentos é antes oposta: é porque experimento estes pensamentos o tempo inteiro, que ele criam em mim a sensação do eu, de um eu permanente e imutável. Não sou eu quem molda meus pensamentos, são antes meus pensamentos que me moldam. Afinal de contas, pensar, para um sujeito, significa poder saber que ele pensa. Não há experiência do pensamento sem um sujeito capaz de experimentá-lo”.[2]

Ele continua:

“E é aí, finalmente, que eu entro, eu. De vez em quando, com efeito, ocorre que este pensamento que está em mim como um fluxo permanente, este pensamento que viravolta sem parar de acordo com as circunstâncias da existência e para nos objetos os mais variados, ocorre que este pensamento para neste objeto específico que lhe serve de suporte permanente e que chamo de eu.

E então, em vez de pensar nisso ou naquilo, no tempo lá fora ou no terrorismo internacional, penso em “mim”, penso que estou pensando, penso, logo ‘eu’, os pensamentos parecem ser meus, penso que sou eu que está pensando e o pensamento cessa de ser produzido em mim sem querer para parecer que é produzido por mim. Eu penso. Eu penso, isto é: penso que estou pensando o que não significa nada além de penso que sou eu quem está pensando; penso-me como não apenas o centro focal onde ocorrem pensamentos, mas o sujeito, o sujeito único, o sujeito inicial de todos os meus pensamentos. Sou eu quem está pensando, penso, quando começo a pensar que, de fato, penso.”[3] (grifos meus).

O que tudo isso quer dizer é que o pensamento é transitivo, ou seja, tem um objeto exterior, e que é reflexivo, isto é, ele pode tomar a si mesmo como objeto. Um tal objeto, nesse segundo caso, é o sujeito, o eu. Sublinho algo falado por Donald Davidson: a mente não é algo, mas sim o pensamento acontecendo. É o que Wolff diz: o eu é produto do pensamento acontecendo quando este pensamento se pensa e, então, parece estar “vendo” uma instância mais sólida que o fluxo do pensamento.

De certo modo, essas observações dão certo encaminhamento dos problemas gerados por Hume e Pascal, que buscaram dessubstancializar o “eu”, empurrando a “coisa pensante” de Descartes, como substância, para um segundo plano. Com essas observações, também de certo modo encaminhamos uma maneira de ver que não temos muito como prescindir da noção de eu e de sujeito, ainda que tenhamos de levar a sério a observação de Nietzsche de que não comandamos como queremos a entrada em cena do pensamento, ou exatamente por levarmos a sério isso é que tais notas de Wolff se revelam auspiciosas.

Todavia, há ainda mais alguns detalhes sobre o pensamento que devem ser notados. De um lado, suas funções, de outro sua forma e tarefa.

“O pensamento é a consciência”. Correto. Temos dificuldade em dizer algo como uma definição de pensamento. Mas nos saímos melhor ao caracterizá-lo pelos seus modos. Podemos falar então em percepção, imaginação e memória. Em um nível superior, temos o pensamento racional, e este se estabelece em três graus.

Em um primeiro grau o pensamento racional é o pensamento que concebe. Às vezes confundimos representação mental e abstrata com representação imagética. A imagem mental é concreta e específica. Quando alguém fala a palavra “criança” meu pensamento concebe uma imagem mental de uma determinada criança. Estou sendo guiado pela imagem mental e, portanto, vou ao particular. Mas posso conceber sem imagem mental, então posso pensar na criança enquanto conceito, e aí reúno várias informações sobre criança, sobre atributos da infância etc. Outro exemplo: posso imaginar um círculo determinado, concebo-o como um desenho; mas posso conceber um círculo sem recorrer à imaginação, sem tamanho determinado ou cor etc., algo que então defino (eis aí a linguagem entrando) como uma figura fechada na qual todos os pontos distam igual do ponto chamado “centro”. Eis aí a experiência humana de pensar o que tem existência matemática, embora não física.

Um segundo grau do pensamento racional é o pensamento proposicional. Há então uma articulação de conceitos para tal. Junto, então, há um terceiro nível, que é de combinação de proposições. No primeiro caso posso falar algo como “o homem é um animal” ou “os animais são mortais”, e no segundo posso dizer a dedução vinda da relação das outras duas, como “o homem é mortal”. Nesse caso, pensar já está em dependência da linguagem. O conceito, a proposição e o raciocínio são só possíveis com a linguagem – a chamada linguagem humana, com sua riqueza. “Talvez seja possível sentir, imaginar, desejar e até lembrar sem a linguagem, mas não se pode conceber sem a linguagem e, por conseguinte, nem afirmar e nem raciocinar”.[4] Não à toa o pensamento é, para Platão, como lembra Francis Wolff e como insiste Hannah Arendt em seu livro citado, a vida do espírito, “o diálogo da alma consigo mesmo”. A comunicação é devida à linguagem, e consciência ganha com a linguagem clareza precisão.

Volto aqui, então, a falar na figura do eu, do sujeito. Quando a consciência é não só consciência de algo, mas consciência de si, e então falamos em sujeito, em “eu”, podemos ver gradações no pensamento. A concepção parece fazer do eu algo mais passivo que quando há a imaginação criativa ou a rememoração voluntária. Assim, pode-se falar que o maior grau de pensamento é de minha autoria, o que está delimitado pelo meu domínio e controle da minha consciência. Todavia, o maior grau do pensamento de minha autoria, por incrível que pareça, paradoxalmente não é o pensamento no qual sou eu sou o autor, mas aquele de certo modo sem autor, porque o autor se mostra como um “nós”. Quando penso algo como 3 + 3 = 6 a experiência do pensamento é minha, mas estou nessa hora pensando algo sem autor, a autoria é a própria razão, o que pertence ao homem geral ou, digamos, ao homem conceitual. É o nós que pensa e este aparece como a humanidade. Todavia quando penso algo como 3 + 3 = 7, penso errado, e esse erro é meu, exclusivamente meu, fruto da minha individualidade, que erra ou se ilude. Ao pensar certo, aí sim penso como um humano, penso em nome da humanidade como um todo.

Por fim, cabe ainda apontar a tarefa do pensamento. Nesse caso, desde Aristóteles, e depois bem posto em Kant, seguimos mais ou menos a noção tripartite: há um pensamento teorético, que diz respeito à cognição, um pensamento prático, que diz respeito às avaliações morais, e um pensamento poiético, que diz respeito à intervenção no real material.

Admiro e entendo o mundo, sem mudá-lo, pelo pensamento teorético. Nesse caso, parece que o desinteresse é sua condição. Quero ir ao ser, quero responder perguntas do tipo “o que é?” ou “Por que é assim?” Diferentemente, quando penso em fazer algo com coisas, mudar a matéria, produzir o belo e o útil mudando algo material, estou pensando poieticamente. Mas, se me pego pensando em algo que é injusto, então estou em uma situação de interesse em mudar o mundo, como no pensamento poiético, mas não como quem faz um vaso de barro, mas como quem quer fazer novas leis, nova ordem social, alterar status quo. Nesse caso meu pensamento é prático, ele é tão interessado quanto o pensamento poiético, mas diz respeito à vida política. [5]

Ao adentrarmos na definição de pensamento como “diálogo silencioso da alma consigo mesma” e ao falarmos nessas “tarefas do pensamento”, então, saímos das circunstâncias da disciplina filosofia da mente, atual, e adentramos pelo modo como Hannah Arendt investigou o pensamento, como está no livro A vida do espírito. Nesse caso, o pensamento é a atividade do espírito enquanto uma atividade que todos os homens possuem, mas que ela analisa fundamentalmente nos que vivem a maior parte do tempo suspensos no pensamento, ou seja, os filósofos, em especial aqueles que passam da vida cotidiana e comum ao campo do pensamento do “ego pensante”, este das tarefas racionais, com facilidade. Não à toa, nesse livro de Arendt, na parte do pensamento, o grande herói é Sócrates.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

[1] Sobre isso e vários outros pontos desse tópico, o leitor pode consultar também o belo e inteligente artigo de Francis Wolff: Wollf, F. O que significa “pensar”? Aventuras do pensamento entre a Antiguidade e a Modernidade. In: Novaes, A. A experiência do pensamento. São Paulo: SESC, 2010.

[2] Idem, ibidem, p. 34.

[3] Idem, ibidem, p. 35.

[4] Idem, ibidem, p. 38.

[5] Idem, ibidem, p. 41.

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4 Responses “Preâmbulo ao livro “A vida do espírito””

  1. Paulo Versolatto
    16/08/2015 at 02:42

    Professor, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Qual a origem e de qual modo são formados os vários eus que compõem o sujeito pensante, e que concorrem com o eu pensado, ou seja, em inglês o chamado self, ou ego, se levar em conta Freud ? O senhor aceita como verdadeira a teoria de Jung sobre entidades arquetípicas que habitam os serem humanos, originadas de um inconsciente coletivo, exteriores portanto ao eu individual ?

    • 18/08/2015 at 02:48

      Paulo, você precisa pegar o fio da meada. Leia os dois volumes de A aventura da filosofia. É curto, fácil e lhe dará uma visão sobre subjetividade. Dali para frente, dá para você saltar para coisa mais complicadas.

  2. José Silva
    12/08/2015 at 19:54

    Olá professor Paulo, peço licença para poder fugir do assunto do seu texto. E chamar sua atenção para um absurdo Projeto de Lei que foi ventilado dentro da escola pública em que trabalho.

    Não vou aqui explicar, creio que este link onde está colocado as bases do projeto de Lei, disponibilizado pelo site da Câmara dos Deputados explica por si só.

    http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1330054&filename=PL+1411/2015

    Os imbecis se superam a cada dia, abraços.

    • ghiraldelli
      13/08/2015 at 01:08

      Não tem base constitucional isso.

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