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23/10/2017

Pré anatomia do monstro FIFA-Dilma


Nasceu algo estranho no Brasil. Como são suas carnes e ossos? E sua fisiologia? Já havia algo assim no passado? Tudo indica que é a primeira vez que ele realmente emerge do pântano.

“O futebol está acima da política” – essa é a frase de Dilma que ecoa na imprensa e redes sociais. É a forma com a qual ela imagina que pode responder às agressões que vem sofrendo nos estádios. Todavia, com essa declaração a presidente, sem querer, desnuda uma doutrina de governo. Esta: a Lei Geral da Copa, imposta pela FIFA ao país, vai atravessar o período da Copa, e irá estar vigente durante as eleições (a Lei só se extingue em 31 de dezembro de 2014). Ou seja: pela primeira vez desde 1985, quando terminou a Ditadura Militar, faremos eleições não livres. Estaremos sob o tacão de uma situação de exceção. O futebol realmente está acima da política, principalmente quando vem para colaborar com a política de solapamento da democracia.

Assim, temos no cenário as duas alterações de nossa modernidade tardia, uma filosófica e outra política.

A filosófica: o entretenimento não é mais organizado por conglomerados (como Hollywood, Las Vegas ou Disneylândia) que foram denominados de “indústria cultural” pelos filósofos da Escola de Frankfurt. Enquanto fomentadora e organizadora de desejos, a FIFA coloca-se em uma esfera supranacional, firma acordos secretos com governos democráticos, invalidando as Cartas Constitucionais dos países que acolhem a Copa do Mundo. O imperativo do desejo é sua legitimidade. Trata-se do nascimento de uma forma de administração que está para além da ideia de controle do crescente tempo livre. Emerge aí um comando universal que, de certa forma, dita normas à biologia, explicando o que é e o que não é a “natureza lúdica dos mamíferos”, aquilo que Huizinga estudou no livro Homo Ludens.

A política: não se trata mais de usar, com o futebol, da política romana do “pão e circo”. O que temos agora é a criação de uma nova política que se diz uma não-política, pois é somente puro circo. O circo é por natureza uma empresa ingênua, é “do bem”, e então que ele passe a comandar mais que a distribuição do pão, mas as regras de quem pode e não pode fazer o pão, vender o pão e mostrar o pão. As liberdades individuais são postas para escanteio, para usar aqui uma metáfora bem cabível.

Nos últimos vinte anos a FIFA adquiriu essa faceta que a fez receber protestos em todos os lugares por onde passou. E quanto mais protestos ela sofreu, mais se caracterizou como uma forma nova de entidade de fomento e administração de prazeres, e até mesmo de definição do que é o prazer.

Tudo isso fica claro quando vemos os xingamentos contra a presidente. Os protestos com faixas, contra a Copa, estão proibidos, mas era sabido que o xingamento viria, e seria absorvido. Até porque o que realmente está proibido não é a fala dos ricos que, afinal, o governo chamou para dentro dos estádios, mas a dos pobres e dos ativistas que ficaram fora dos estádios, e que protestariam mesmo, aliás, como estão protestando (e recebendo balas verdadeiras, não de borracha!), e não só contra os gastos da Copa (que nem foram tantos), mas contra a política que se diz acima da política.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

 

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5 Responses “Pré anatomia do monstro FIFA-Dilma”

  1. 16/06/2014 at 22:12

    Penso que a frase ” futebol está acima da pólítica” teria mais uma conotação de comunicar que o que adianta palavras de xingamentos ou mesmo manifestações. A real contestação deveria estar presente bem no começo das obras sem licitações.
    Possivelmente vamos assistir o mesmo teatro durante as Olímpiadas.

    • 16/06/2014 at 23:16

      José Edson, estou tentando ensinar a se ler as frases com inteligência. E você não quer aprender. Vou tentar mais uma vez: a COPA não foi definida senão paulatinamente, e a questão das obras tornou-se secundária. Leia de novos os artigos.

  2. Afonso
    16/06/2014 at 15:12

    Reiterando uma pergunta (sua): como chegamos a isso?
    Talvez a capacidade do esporte (futebol) em mobilizar multidões – a exemplo da excursão do time do Santos (de Pelé), salvo engano, em 1969, em Benin (África), capaz de provocar uma trégua no conflito (guerra) naquela região?
    Talvez, espertamente a FIFA tenha se apropriado de todo esse potencial (além do atrativo que o futebol exerce, a paixão pelo time, pela seleção, a possibilidade de ascensão social para os garotos mais pobres etc.) para ‘instaurar’ (e aprimorar) a sua supra política. Seria isso?

    Abraço

    • 16/06/2014 at 15:15

      Afonso, não creio que seja uma apropriação de algo já existente. O nome FiFa e o nome futebol são velhos. Mas não nomeiam mais a mesma coisa. Se fosse assim, seria fácil para a Escola de Frankfurt e para os marxistas rastrearem o fenômeno. Nao é.

    • Afonso
      17/06/2014 at 10:36

      Um interessante artigo revela algumas das faces do mostrengo FIFA/Blatter, embora não se resuma a isso, e pelo visto outros monstrengos nascem desse mesmo ventre:

      http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed803_salvem_o_futebol_das_maos_da_fifa

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