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22/10/2017

Em que medida o pragmatista é tão ou mais necessário que o platonista?


Temos narrativas que se superpõem e se acotovelam, numa disputa horizontal e numa acomodação verticial, ou temos uma super narrativa capaz de servir como última, não em termos históricos, mas em termos lógicos e explicativos?

Esse pergunta esteve em pauta, ao menos para alguns, na transição do século XIX para o XX. Retornou com o nome de pós-modernismo na transição do século XX para o XXI. Anda agora meio morna, pois é só pegar o rumo e a velocidade do século e tudo parece entrar nos eixos. Mas é uma pergunta que não foi deixada de lado totalmente.

Em outras palavras: vivemos no perspectivismo, então temos ou não a possibilidade de nos situarmos na Perspectiva do Olho de Deus? Vivemos no mundo onde cada um que narra tem um lugar, e pode haver nesse mundo o lugar de narração que é um Lugar Nenhum?

O pensamento, disse Hannah Arendt, é o campo do lugar nenhum. Pensamos com palavras de caráter universal, nós as chamamos de conceitos. Elas são aquilo que habita o lugar nenhum. Elas possuem a pretensão de, estando no lugar nenhum, serem alguma coisa que se pareça com o que vem da Perspectiva do Olho de Deus. O conceito tem a pretensão de ser, mesmo que produto humano, o senhor protagonista da narrativa última.

Todavia, nenhum conceito que forjamos reinou sem apontar para o pré-conceito e para o pós-conceito. Não há conceito que sobreviva sem estar rodeado por preconceito e pós-conceito. Na vida cotidiana, se traço o conceito de criança para, em seguida, dizer que lugar de criança é na escola, posso, com isso, não deixar Pinóquio entrar na escola. Pois se boneco de pau não for criança, eis que Pinóquio não poderá estudar. Não se está aí falando de preconceito contra Pinóquio, mas se está, nesse caso, falando da necessidade de pós conceito. Para falarmos em escola, que tal não usarmos do conceito de criança, e sim alguma coisa como o que Gepeto usou? Ele pensou: parece que para entrar na escola basta ter o livro e o caderno. Então, Gepeto vendeu seu casaco para comprar livros e cadernos, e Pinóquio conseguiu entrar na escola.

Ora, Pinóquio foi para a escola, e não foi necessária uma narrativa final, última, sobre criança ou sobre escola, para lhe dar esse direito. Foi necessário apenas que os pré-requisitos não fossem conceitos, apenas disposições práticas: “arrume caderno e livro, senhor Gepeto, e mande seu filho para cá”. Foi assim que Pinóquio pegou a matrícula.

Em outras palavras: conceitos para pensar podem ser bons, procurar verdades últimas pode ter a sua necessidade, mas para a confecção de direitos, talvez seja melhor não irmos por essa via, e sim pela via pragmática ou pragmatista, e dizer: para entrar na escola basta ter o livro e o caderno. Nada de evocar a Perspectiva do Olho de Deus para que esta dê a última palavra sobre o que é criança, e então abrir a escola para aquilo que é efetivamente criança.

Tudo que disse acima é a filosofia de Richard Rorty, ao menos em parte. Direitos atrelados às narrativas que pretendem ser últimas, ou que venham da Perspectiva do Olho de Deus, não são necessariamente bons direitos, às vezes são antes de tudo discriminações. Haverá mais gente de fora deles do que se imagina à primeira vista. O que é  da ordem do conceito tem a obrigação de ser abrangente de modo legítimo, mas, não raro, não consegue ser senão uma universalidade nada boa, que mais exclui de possíveis direitos que inclui nos direitos ditos.

Se digo que o conceito de escola é posto pela definição “lugar para crianças aprenderem”, e se digo que o conceito de criança é posto pela definição “menino de carne e osso que é filho do homem, mas ainda não atingiu a idade do homem adulto”, não há aí concessão de direitos de modo amplo, como poderia parecer à primeira vista. Pinóquio é um boneco de pau, ficará de fora da escola. Aliás, dois conceitos o impediriam de ir para a escola para aprender. Mas na época de Gepeto a escola não estava definida por conta da definição de criança ou vice versa. Bastou requisitos práticos: livro e caderno. Tendo isso, Pinóquio conseguiu matrícula.

Há uma série de disposições ético-morais que precisam sempre serem tratadas não só conceitualmente, mas sempre lembrando também a perspectiva do pragmatista. Pois na hora de inventar direitos e estabelecer direitos, nem sempre ter conceitos finais, grandiosos, conceitos para valer, ajudam muito.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo.

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9 Responses “Em que medida o pragmatista é tão ou mais necessário que o platonista?”

  1. Filósofo Pablo Maranello
    21/10/2016 at 12:28

    Paulo Ghiraldelli,
    Me come de ladinho, por favor!
    Nunca te pedi nada…

    • 21/10/2016 at 13:08

      Pablo eu sou impotente diante de rabos masculinos e quase masculinos.

  2. Fábio Brum
    21/10/2016 at 09:37

    Caro prof. Paulo, eu estava estudando o texto “Fé e Saber”, de Habermas, quando li seu texto. Parece-me, num primeiro momento, que algo que o senhor diz aqui pode ser relacionado com o texto de Habermas. Ele diz que numa sociedade pós-secular não se leva em conta o papel civilizador de um “senso comum democraticamente esclarecido (…) que funciona como um terceiro partido entre a ciência e a religião”. Sendo assim, ele observa que ao mesmo tempo que o “senso comum tem de ser esclarecido sem reservas pelas ciências”, também é verdade que “o senso comum esclarecido cientificamente não será privado por nenhuma ciência de julgar como devemos lidar com a vida humana”. Estaria Habermas então sugerindo que entre duas “perspectivas do olho de Deus” (ciência e religião), surge nas sociedades liberais o “lugar nenhum”, isto é, o senso comum esclarecido, no sentido de que este último seria fruto da comunicação levada a cabo por agentes racionais que vivem em um mundo “onde cada um que narra tem um lugar”? O que o senhor pensa a respeito?

    • 21/10/2016 at 11:39

      Fábio o “ponto de vista do olho de Deus” não é metáfora, é literal. Há um absoluto e dele parte um olhar. O pragmatista não acredita nisso. Senso comum ou consenso pragmatista, seja ele via Rorty ou seja ele via Habermas (Habermas cedeu a Rorty nos últimos anos) não é o Ponto de Vista do Olho de Deus, ou o conceito (como as Ideias de Platão). O absoluto é absoluto mesmo.

    • Fábio Brum
      21/10/2016 at 17:02

      Sim professor. Minha dúvida é justamente se o “senso comum esclarecido” de Habermas, não sendo o “Ponto de Vista do Olho de Deus”, seria um exemplo do “lugar nenhum”. A religião e a ciência não são o absoluto (literalmente falando), mas de certo modo, poderíamos dizer que elas exercem, cada uma a sua maneira, um tipo de narrativa que busca o estabelecimento de verdades absolutas. Certo?

    • 22/10/2016 at 07:56

      Fábio, a religião sim, ele realmente é isso, mas a ciência, só por erro de quem faz ciência, pois sua proposta é o oposto.

  3. Joao Pedro Dorigan
    21/10/2016 at 07:57

    Sou leigo, não filósofo. Bom, pelo menos estou livre do conceito filósofo e posso perguntar.

    Acho tudo isso que foi escrito uma cópia um pouco melhorada de Aristóteles. Na verdade, nem sei se é melhorada. Esse papo de ter sempre que articular com as ideias e com o real não estavam no veio?

    O que Rorty trouxe? Uma superação ou substituição?

    • 21/10/2016 at 11:41

      Dorigan não é cópia, mas a tradição pragmatista não é platônica, mas é a tradição da prudência, de Aristóteles. Então, para quem tem boa formação leiga, e já leu alguma coisa em filosofia, o cheiro que você sentiu induz ao lugar correto. Agora, para saber o específico de Rorty, aí é melhor livro do Rorty, ou então, se quiser algo mais rápido, o meu livro da Vozes sobre ele. Obrigado por ler minhas coisas.

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