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20/04/2019

Pragmatismo e ética moderna


Grosso modo os filósofos atuais acreditam que há duas maneiras de nos descrevermos como cidadãos éticos. Podemos nos mostrar como usuários de um vocabulário que abrigue princípios universais que implicam em um dever, ou que abriguem princípios universais que garantam menos desprazer.

Ética do dever e ética do prazer ou do menos desprazer – eis aí as duas grandes éticas laicas modernas.

Os que acreditam em uma ética do dever procuram qual é, enfim, a lei que devem seguir. Kant nos dá uma, que funciona como um imperativo: devemos agir de modo a poder, sem contradição, tornar a nossa ação uma ação cabível universalmente. O exemplo de Kant é simples: posso mentir? Não, não pode, pois se a mentira se tornar uma regra universal perdemos a própria noção de regra, pois perdemos a comunicação.

Os que acreditam em uma ética do prazer procuram avaliar, caso a caso, como fazer com que mais pessoas sofram menos. Modernamente, Mill e os utilitaristas defendem tal ética. Sempre é útil que levemos em conta que o desprazer de menos pessoas ou o menor desprazer de uma pessoa é o que temos em vista. Os exemplos nesse campo são inúmeros: em geral, se não conheço quem está envolvido no problema, diante de ter de optar entre jogar uma boia para três náufragos juntos ou jogá-la para um distante sozinho, opto por jogá-la para o grupinho de três.

Nos dois casos, não há eliminação de dramas. Uma vez partidário de Kant, não posso mentir. Mas se tiver de esconder alguém da polícia, um amigo ou uma pessoa que é inocente, não devo assim agir e então mentir? Por fazer isso, cairei no campo de perda moral?  E no caso utilitarista? Caio no campo de perda moral se jogar a boia para a pessoa solitária, se ela é minha esposa ou minha mãe?  Bastam esses dois exemplos para vermos que optaríamos num e noutro caso pela atitude não aprovável pelos regimes filosóficos. Teríamos de ser imorais para sermos corretos! Eis aí uma situação pouco confortável.

Os pragmatistas trazem para os filósofos outra maneira de conversar sobre o assunto. Há quem diga que nem é possível considerar esse modo como filosófico. No entanto, os pragmatistas insistem que eles, mesmo sendo pessoas “do contra”, ou talvez justamente por causa disso, também tenham de ser considerados filósofos.

O que está envolvido nos exemplos acima é uma disputa entre ficar no campo ético-moral ou então ceder à lealdade e sair do campo ético-moral. Há uma disputa aí entre ser justo e ser leal. Nos dois casos, se sou justo, sou eticamente correto e não sou leal, mas então, ao mesmo tempo, terei talvez até a maior parte das pessoas contra mim. Afinal, cá entre nós, vamos ser sinceros: ninguém perdoa uma pessoa desleal. Aliás, até filósofos se esquecem da filosofia de Kant e Mill quando são vítimas de alguma deslealdade, e chegam a ver no desleal um desvio de caráter. Um descuido e podem até começar a ver – erradamente se considerarmos suas doutrinas – no desleal o portador de uma falta ético-moral muito grande.

Os pragmatistas não gostam muito de ver a linguagem ou o vocabulário da filosofia comandando a fórceps a linguagem ou vocabulário corriqueiro, especialmente se o vocabulário corriqueiro tem lá seu apelo ao bom senso. Não se trata de decidir por um ou outro, mas de observá-los melhor.

Os pragmatistas sempre acham que a práxis pode ajudar muito a entendermos o que ocorre em situações de impasse desse tipo acima.

No campo da práxis, ou seja, das experiências de vida, se notarmos bem o que ocorre, veremos que não aprendemos o vocabulário da lealdade sempre como em oposição ao vocabulário da justiça. Somos sempre cobrados no sentido de mencionarmos o “nós” como que uma forma de circunscrever aqueles a quem devemos ser leais. Todavia, à medida que saímos da vida infantil para a adulta, esse “nós” amplia seu raio, tornando-se uma circunferência maior. Passamos a usar do vocabulário da lealdade para mais pessoas, não só para nossos pais e irmãos, mas também para nosso cão e amigos próximos. O casamento amplia ainda mais o “nós”. A cidadania torna o “nós” um grande círculo. Há quem imagine que, diante da presença de seres intergalácticos, o “nós” pode ser todos os viventes na Terra.

Sabemos que podemos agir assim porque a experiência da vida mostra que pessoas totalmente desconhecidas, que não são nossos parentes, um dia terminam por se tornar tão ou mais importantes para nós que muitos parentes. O “nós” é ampliável. Ora, se o “nós” se amplia crescentemente para todos os lados, termina não por eliminar a justiça, mas por incorporá-la a um caso de lealdade. Podemos nos tornar leais à Humanidade, e por lealdade não deixa-la sucumbir. Desse modo, lutaremos por leis que regrem nossa conduta enquanto seres leais uns aos outros. Desleal seria, então, trair essas leis que garantiriam o gigantesco “nós”. Em outras palavras: a justiça não desaparece, mas ela é vista, então, como uma prática de lealdade ampliada, e não uma inimiga da lealdade.

Nossa ética ou, digamos assim, nosso ethos, viria de uma prática de ampliação histórica e social da lealdade. Casamentos, amizades, empreendimentos comuns, linguagens sentimentais postas em jogo, compaixão, identidade em casos de dor – tudo isso são elementos que jogam a favor de utilizarmos o vocabulário da lealdade para mais e mais pessoas. Teríamos uma ética da lealdade ampliada, o que seria uma ética de reconstrução da justiça.

Os pragmatistas podem ser acusados de não estarem fazendo filosofia à medida que, nessa trajetória, não podem fornecer um vocabulário do dever ou do prazer, fundamentados em alguma noção de natureza humana, mas apenas um vocabulário que diz “ele é um de nós” e “ele também é um de nós”. Trata-se aí de um vocabulário que deve ser analisado pela sociologia e descrito pela história. Nessa perspectiva não há uma fórmula filosófica, uma chave de solução de todos os casos, por meio de uma regra universal. Nem há uma regra ética escrita nas estrelas, mas somente nossa práxis de convivência ampliada.

Os pragmatistas gostariam de serem considerados filósofos, ainda assim. Imaginam que podem não ter fundamentos últimos para uma ética, mas isso não quer dizer que não possuem capacidade de descrição dessa situação de ampliação da lealdade que, enfim, possa ser traduzida em uma narrativa relativamente diferente da narrativa sociológica e da narrativa histórica. Muitas vezes, esse tipo de filosofia pode ser visto como uma forma de história filosófica da cultura ou mesmo história das ideias e comportamentos. Não raro, pode ser uma narrativa que ao invés de elementos empíricos, utilize a própria tradição da filosofia, da narrativa que se faz herdeira antes das obras filosóficas que das obras sociológicas e historiográficas. Nesse sentido, pode ser sim uma filosofia moral. Por que não?

Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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22 Responses “Pragmatismo e ética moderna”

  1. Cristiane
    01/04/2014 at 11:56

    Adorei seu blog Paulo, obrigada, está me ajudando muito nos meus trabalhos acadêmicos. Estou voltando pra faculdade após 12 anos de ter terminado o colegial, estou enferrujada, se você puder por favor me sugerir alguns livros.

    • 01/04/2014 at 12:02

      Cris, veja aí no meu blog os últimos livros, são todos livros para atiçar a vontade de filosofia. E tem o manual em dois volumes: A aventura da filosofia (Manole). Temos feito hangout às quintas, 23 horas, lendo Platão.

    • Cristiane
      01/04/2014 at 13:16

      Obrigada, vou ver sim.

  2. Rafael
    11/12/2013 at 12:55
    • 11/12/2013 at 13:14

      Rafael, comecei a ler mas vi que não era crítica, então parei.

  3. João
    16/11/2013 at 20:55

    Como o pragmatismo resolverá o problema do consenso da maioria, sem cair numa armadilha psicológica? Qual “maioria” teria a palavra final? Uma vez que vivemos em um mundo de diversidades de opiniões religiosas, políticas, étnicas, etc..

    Para que os objetivos do pragmatismo fossem concretizados, teríamos duas opções : ou todos nós pensaríamos da da mesma forma, o que é improvável, ou um determinado grupo pensaria por nós e decidiria o que é certo e o que é errado, o que levaria a uma forma de autoritarismo do grupo dominante.

    Os universais são o ponto de equilíbrio das divergências, não significando, necessariamente, em determinismo filosófico.

    • 17/11/2013 at 17:30

      João não sei mesmo de onde você achou que o pragmatismo tem a ver com maioria e com consenso nesse sentido tão banal que você falou aí.

    • João
      19/11/2013 at 16:58

      É porque não dá para compreender a lealdade sem um consenso. Não posso ser leal a alguém se discordo desse alguém.

      Você disse: ” Desse modo, lutaremos por leis que regrem nossa conduta enquanto seres leais uns aos outros. Desleal seria, então, trair essas leis que garantiriam o gigantesco “nós”.

      Mas não é assim num estado democrático ? As leis não são feitas para regular nossa conduta ? Se deixo de pagar meus impostos,por exemplo, não estou sendo desleal com quem paga ?

      O pragmatismo é interessante para casos particulares. Mas a medida que a situação se amplia não podemos tomá-lo como referência.

      Por exemplo, como resolver essas questões de forma pragmática:

      1 – Deve o Ocidente confiar ao Islã o desenvolvimento de armas nucleares ?

      2 – A lealdade ao nazismo deve ser espalhada pelo mundo ?

      Afinal, Ghiraldelli, em qual perspectiva de mundo você está considerando como referencial suas análises do pragmatismo ?

      O pragmatismo está mais para filosofia de vida, não para questões complexas.

    • 19/11/2013 at 17:31

      João, sim, o pragmatismo seria chamado por Platão de uma não filosofia, dado que ele é um tipo de historicismo, ou seja, análise caso a caso.

  4. Mario Luis
    12/11/2013 at 23:16

    De uma maneira bastante ampla, quando se aborda a questão da Ética, em particular quando voltadas para uma análise a partir da conduta humana, é preferível, a meu ver, ater-se a duas concepções distintas de Ética, as quais entretanto, formaram uma discreta mistura ao longo da história. Refiro-me à ética do fim e a ética do móvel da conduta. Muito embora sejam bastante particulares, isto é, enquanto a primeira fala de um ideal a ser alcançado, a segunda reporta-se a uma causa ou dinâmica e procura determinar a conduta. Decerto que, sem observar tal distinção entre ambas as concepções torna-se difícil verificar o quanto é irrelevante certas discussões que observamos no nosso dia-a-dia. Fica difícil não visualizar a nuance histórica que reflete a diferença entre “Bem” e “Valor”, e eu penso que é partir daí que tais distinções começam a tomar forma.

    • 13/11/2013 at 00:15

      Mário Luís, sugiro que lei A aventura da filosofia, dois volumes (Manole). OK?

  5. Alexsander
    12/11/2013 at 18:48

    Vamos lá: antes de falar do pragmatismo, gostaria de saber como Kant e Mill agiriam se tivessem que escolher entre salvar algum parente ou cinco semelhantes?
    Sobre o pragmatismo, me parece que ele resolve o problema, afinal, coloca o agir no âmbito particular, satisfazendo o indivíduo que age e também aos que observam sua ação, e isso porque, mesmo os que o observam – ao se colocarem no lugar de quem age – percebem que agiriam da mesma forma. Seria assim, mesmo a visão pragmática, uma ideia universal?

    • 12/11/2013 at 19:52

      Alex, você não entendeu o texto. Leia novamente.

    • Alexsander
      14/11/2013 at 01:28

      Li novamente, e me despertou uma pergunta: o que seria lealdade?

    • 14/11/2013 at 12:48

      Tente ver isso na sua casa, não sabe? Estranho! Abra o dicionário.

    • Alexsander
      14/11/2013 at 15:14

      Tá bom, vou ler o dicionário.

    • 14/11/2013 at 16:08

      Talvez seja uma questão só de vício de linguagem, Alexsander, pois leal é leal, ser fiel, confiável para alguém. Você não tem essa experiência na sua casa?

    • Alexsander
      15/11/2013 at 15:08

      Certo, leal então é ser sincero aos sinceros, independente das circunstâncias. Assim, para Mill e Kant, não interessava a lealdade e a intimidade com o outro, mas sim, respectivamente, a quantidade beneficiada pelo ato e o agir pelo dever. Mill, no caso, se tivesse que escolher entre salvar a mãe leal ou a numerosa família ao lado que mal ele conhece, teria que optar pela família desconhecida. Por outro lado, Kant, aplicando seu imperativo categórico, refletiria sobre a situação, se colocaria no lugar das vítimas – da mãe, dos vizinhos e de si mesmo, afinal ele também é uma vítima da circunstância – agindo ciente de que sua atitude após concretizada será válida contra si e para o mundo.
      Certo? Aguardo resposta sobre o exposto acima, enquanto penso sobre os pragmáticos.

    • 15/11/2013 at 16:27

      Pois é, por isso mesmo a moral dos dois modernas, nós todos dizemos que aceitamos, mas depois, no frigir dos ovos, não. Podemos ficar assim. Mas podemos pensar num ajuste melhor.

    • Alexsander
      17/11/2013 at 15:27

      Então, tendo como ponto de partida as nossas experiências de vida, podemos observar que aprendemos desde cedo há sermos leais com nossos pais, parentes e amigos. E isso, penso, que nos é incorporado com naturalidade até a primeira traição. Com a traição o olhar se inverte, a confiança se esvai, e o outro – que a princípio não nos foi ensinado sobre a lealdade – começa a ter valor.

      (Aqui cabem algumas indagações: seria a “traição familiar” um despertar para o humano, ou seja, para o outro que nos parece semelhante?)

      Obviamente que o tempo se encarrega de ampliar e de dar a nós o poder da escolha sobre quem merece ou não nossa lealdade, porém, tenho dificuldades em pensar no que estaria fundamentada essa lealdade.
      O problema da moral, aos meus olhos, sempre se dá quando nos deparamos com aquilo que nos é mais próximo com relação ao que nos é distante, mesmo que este seja semelhante. Devo escolher minha mãe que amo e que me ensinou sobre a lealdade, ou minhas 5 leais tias? São diante dessas perguntas que observo o egoísmo natural fluir e toda moral e justiça pretensiosamente universal falecer.

  6. Saulo
    12/11/2013 at 16:59

    Racista mesmo é você e boa parte do governo petista, que trouxe pra cá tudo isso.Isso eu sei.

    • 12/11/2013 at 17:15

      Saulo, todo cara que para tudo vê petismo, é um tolo. Quem pega um texto sobre pragmatismo é ética e vê petismo já não é mais um tolo. Ultrapassou todos os níveis de estupidez possíveis.

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