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18/08/2019

Pós conceito: o que gays podem ensinar a feministas e negros


1.

O que ofende e o que não ofende segmentos sociais distintos e minorias? Essa pergunta pode ter resposta menos dúbia se equacionarmos o que é preconceito, conceito e pós-conceito. Por falta de uma dedicação analítica ao tema, temos deixado isso de lado. Outros entre nós nem querem resposta para tal pergunta, pois estão ganhando dinheiro em cima da confusão em que vivemos.

Vou direto ao exemplo. Com o exemplo, puxo o texto para explicitar o que disse e ajudar as pessoas a pararem de se ofender com o que não ofende e se ofender com o que é lançado nelas como real ofensa.

2.

Quando da época do filme Philadelphia, estávamos todos engajados em certo cuidado para com os grupos gays. O objetivo era mostrar que antes de tudo a questão dos direitos civis na América não havia sido resolvida com os negros tendo ocupado melhores posições, pois outras minorias precisavam de atenção. O filme explorava uma série de situações em que certos vocabulários e jargões explicitavam preconceitos que as pessoas não queriam assumir de público. A ideia básica era mostrar, quanto aos gays, o que já se havia mostrado a respeito de minorias religiosas e minorias étnicas dentro do liberalismo americano: membros de minorias são pessoas como outras quaisquer, talvez até melhores. Daí para diante outros filmes com a temática gay começaram a ganhar o público.

Claro, já havia sido feito muita coisa antes, mas Philadelphia marcou época. Todavia, Philadelphia passou a ficar efetivamente datado diante de Breakfast on Pluto e Broke Back Montain. Nesses dois filmes, todo o clima de Philaldelphia já não dizia mais nada. Ambos os filmes são dramas, mas as cenas de identificação gay, um tanto estereotipadas, voltaram às telas – sem causar problema! Esses dois filmes foram feitos para gays e não-gays, e se deram ao luxo de poder usar do estereótipo. Como isso foi possível?

Os gays começaram a admitir – principalmente por causa da Gay Parade – que ser gay teria a ver com alguma caricatura e esta, de fato, é engraçada. Afinal, quem nesse mundo não seria uma caricatura? O heterossexual não é uma senhora de uma caricatura? Os gays, ou seja, “os alegres”, uma vez podendo se apresentar segundo uma diversidade enorme de tipos, inclusive pondo à mostra os tipos usados como estereótipos, deram um verdadeiro grito de libertação. Ter direitos não dependeria mais de “ser sério” e, sim, de ser o que se poderia ser. As tribos gays viram que podiam não ser algo como “um terceiro sexo” ou “terceiro gênero”, mas ser o que todos nós podemos ser como bípedes sem penas: criativos. Denunciar o preconceito deixou então de ser a tônica única do movimento gay e encontrar o conceito se mostrou se não impossível completamente inútil. Então, optou-se pela situação pós-conceitual. Não se tem mais de fazer outra coisa senão honrar a diversidade e alegria de viver mostrada na Gay Parede do mundo todo.

Infelizmente, esse trânsito do preconceito para o pós-conceito sem ter que encontrar conceitos não ocorreu com outros movimentos sociais de minorias. Ou seja, até ocorreu, mas não ocorreu na proporção horizontal que se deu no movimento gay.

O movimento feminista adquiriu essa feição pós-conceitual engajando muitas mulheres, todavia, não as próprias feministas de carteirinha. O movimento negro também, mas não o próprio núcleo político dos ativistas étnicos. Por isso mesmo, nesses dois movimentos a situação pós-conceito ficou restrita a grupos mais intelectualmente sofisticados ou, talvez, mais predispostos a entender a dinâmica histórica de nossos tempos. Estes, por sua vez, foram acusados pelos ativistas de estarem disseminando preconceitos. Os acusadores não perceberam que essas pessoas há muito haviam superado a “guerra do sexo” dos anos 50 e há muito haviam superado a ordem “não conte piada de negro” do início do movimento dos Direitos Civis.

Foi aí que entrou o “politicamente correto”. No início, ele vinha pela via de ampliar a base da luta contra o preconceito. Havia militantes que o adotaram e que já estavam no âmbito do trabalho com o pós-conceito. Todavia, esses militantes eram minoria dentro dos movimentos das minorias feminista e negra. Eles ficaram acuados.  Os que viam em tudo uma marca do preconceito não perceberam a situação de pós-conceito vivida por alguns e desencadearam dispositivos de emburrecimento do “politicamente correto”. Veio então a crítica ao “politicamente correto”. Conservadores e até mesmo parte da esquerda começaram a caçoar de livros “politicamente corretos”. Criou-se então todo um exagero vocabular para dizer como que seriam contos, histórias e narrativas politicamente corretas – tudo isso era para rir. Mas os militantes que não sabiam que várias pessoas que estavam rindo já estavam no âmbito do pós-conceito, ficaram ressentidos.

Daí para tudo desembocar numa guerra jurídica exagerada, com todo mundo processando todo mundo, foi só meio passo. Os Estados Unidos se livraram disso, ou estão se livrando. Atrasado, o Brasil resolveu reagir contra o emburrecimento do “politicamente correto” sem, no entanto, mostrar que essa reação tem dois lados. Há um lado conservador mais ignorante, digamos assim, que de fato vive no âmbito do linguajar preconceituoso tanto quanto muito dos militantes ditos progressistas. Mas há outro lado, aquele dos que podem rir de gays, feministas e negros porque estão juntos destes solidariamente para além do conceito.

Só pode brincar com suas mazelas ou ficções de mazelas os que já superaram suas dores. Essa é a situação pós-conceitual. Não ter conceito não é ruim quando se está além dele. É uma dádiva. Pois o conceito é cerceador. Muitas vezes ele exclui tanto quanto o preconceito. A situação pós-conceitual não exclui, porque ela não delimita o que é ser gay ou o que é ser mulher ou o que é ser negro etc. Ou, quando o faz, não se fixa em definições essencialistas e/ou naturalistas, às vezes enaltecedoras demais e às vezes simplesmente cultivadoras da vitimização.

3.

Essa é análise teórica que faço. Mas, na prática, muita coisa é diferente. Pois na prática cotidiana os grupos se embatem no contexto da linguagem, dentro de uma guerra semântica com uma dinâmica às vezes impenetrável. Nem sempre há como explicar para quem vive no embate contra o preconceito, procurando o conceito, que é melhor ele largar o conceito de lado e viver a situação pós-conceitual. Ele não entende isso. E se ofende com aquilo que, na situação pós-conceitual, não cabe se ofender.

A realidade social de um país como o nosso, que perdeu sua unidade intelectual porque perdeu seu ensino público de boa qualidade é uma realidade dramática. Enquanto alguns vivem no século XXI, outros vivem no XIX ou mesmo no XVIII. As disparidades são maiores que em outros lugares. E com a mentalidade das novas religiões aportando por aqui, as religiões sem doutrina que são só simplesmente caça níqueis e milagreiras, então, mais ainda surgem grupos para se ofenderem mutuamente.

Mas uma coisa é certa. Este texto aqui já é um passo para refletirmos e, ao fazermos isso, podemos já pensar, a cada conflito, em tentar lembrar aos participantes que os lados conflitantes podem não estar de fato em conflito como se imagina à primeira vista.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

Foto: Breakfast in Pluto

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4 Responses “Pós conceito: o que gays podem ensinar a feministas e negros”

  1. 23/04/2013 at 18:17

    O pós-conceito seria então uma resignificação Ghiraldlli?

    • 23/04/2013 at 18:24

      Hermes, se tivéssemos que usar a linguagem de Dewey, sim. A de Rorty, redescrição. É claro que dizendo assim parece que poderíamos fazer isso intencionalmente, mas não podemos, temos de ir fazendo junto, socialmente, correndo riscos de em determinado momento darmos passos fora de prumo.

    • 23/04/2013 at 22:36

      Quando isso acontece, resignificação, redescrição, pós-conceito, a relação de poder da linguagem, conforme denunciada por Bourdieu, deixa de existir?

    • 24/04/2013 at 10:06

      Hermes, poder e linguagem não se separam, a linguagem é um poder de lidar com as coisas como antena de formiga e suas cortadeiras. Agora, em filosofia, no plano abstrato, você pode fazer como Habermas, tentar encontrar um elemento na linguagem que possa ser, “momentaneamente”, separado do poder.

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