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13/11/2019

Por quem nos apaixonamos?


Há uma exigência no amor, não raro imposta pelas mulheres: “quero que ele me ame pelo que sou e não pela minha aparência”. Até mulheres desejadas fisicamente e que, sabendo disso, jogam charme, acabam falando algo assim. Todavia, trata-se do senso comum rasteiro que não diz muita coisa. Somos antes de tudo o que aparece, aparência, isto é: figuras. A aparência não é mera aparência.

É claro que esse senso comum de hoje já teve seus dias de filosofia. Sabemos que a dicotomia essência versus aparência, de fundo platônico, fez sucesso e impregnou o modo ocidental de pensar. Mas já passou da hora de revisarmos isso. Nietzsche e os pragmatistas nos avisaram que deveríamos reavaliar isso no final do século XIX.

Ninguém ama um corpo físico, mas uma figura de corpo. Não raro, essa figura já está mais ou menos delineada bem antes de encontramos qualquer corpo físico a ser posto como objeto de desejo erótico. Claro que a palavra “figura”, nesse caso, diz respeito ao desenho que montamos não só pela visão, mas por outros sentidos, conforme o caso. É nessa trama de descobrir figuras que mora o erro dos casamentos, quando eles são erros.

Casamos errado quando nos enlaçamos com a pessoa “boa por dentro”. Um tempo mínimo e tudo que havia “dentro” se mostra como o nada, pois, sem suma, sem o “exterior” não há o “interior”. Uma casa sem paredes externas teria paredes internas? Internas a que? No caso nosso, os humanos, após certa idade (bem mais cedo do que podemos imaginar), toda a nossa alma se manifesta somaticamente. Nosso caráter delineia as marcas de nosso rosto. Em uma jovem adulta, o sorriso e o modo de falar diz tudo. Mais que o olhar. A boca é a alma em público. Nas sobrancelhas dança o espírito. Os vincos do rosto são o molde das expressões, do humor, e eis então que a frase “a aparência é tudo” se faz realidade. A única realidade.

A aparência é tudo. Ela é o objeto do amor. Por isso, até arrisco dizer que questões sobre identidade sexual só fazem sentido quando relativas ao objeto que se deseja na parceria, ou seja, não a qualquer outra coisa que não a figura. Por exemplo, posso me definir heterossexual se a figura feminina social me atrai eroticamente, e não a figura masculina. Nesse sentido, posso perfeitamente me achar heterossexual ao gostar de um homem que desenhou para si mesmo, para se apresentar, uma figura de mulher.

As práticas sexuais a quatro paredes definem bem menos nossa identidade sexual do que acreditamos. Penetrações em determinados lugares nos dão pouco critério para falarmos de identidade no campo erótico. Por exemplo, nenhum homem que deixa uma mulher enfiar o dedo no seu ânus, por que ela gosta ou porque ele gosta ou ambos, pensa em se definir homossexual se, mesmo com tal prática, a figura que o atrai é a figura de mulher. Nenhuma pessoa que se vê como homossexual começa a duvidar de ser homossexual se odeia a penetração anal, ou mesmo nem gosta de penetrar outro, mas efetivamente quer beijar homens que representem a figura masculina.

Claro que há mil opções nisso tudo e homossexualidade (bem como heterossexualidade) é algo que irá desaparecer ainda este século. As pessoas amarão pessoas, só isso. Ou seres vivos amarão outros seres vivos. Assim, no que disse sobre homossexualidade é só um exemplo. A tese central é a de que a figura diz tudo a respeito do que amamos, ou do que podemos tomar como o que amamos mais corretamente. Quando forçamos outra via e nos deixamos levar por fantasmas desligados de figuras, envolvidos pela quimera do “interior”, tropeçamos feio.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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7 Responses “Por quem nos apaixonamos?”

  1. Anderson Rocha
    16/05/2015 at 14:12

    Neste caso Paulo eu discordo, o exterior tem sua importancia. Porem é o interior que determinará quanto tempo durará uma relaçao.

    • ghiraldelli
      16/05/2015 at 16:59

      Anderson acho que você não quis ler o artigo ou não o tomou a partir da filosofia etc. Mas a questão não é essa. Tente de novo. Veja sobre o que os filósofos estão falando. Se o artigo fosse para ser lido sem eles, os filósofos, não seria um artigo meu, seria um artigo do senso comum. Não é. O que se está falando aí é da não existência da dicotomia que confiamos.

    • Anderson Rocha
      17/05/2015 at 10:29

      baseado na sua explicacao creio ter agora entendido
      o proposito do texto, ou seja nao existe interior ou exterior, tdo faz parte uma coisa só, ou ainda o exterior é causa e consenquencia do dito interior e vice versa. E ai cheguei mais proximo da compreensao?

    • ghiraldelli
      18/05/2015 at 09:45

      É por aí…

  2. Beto Benevides
    15/05/2015 at 07:04

    Adorei tudo por aqui! Serei um fiel seguidor.

  3. Cesar Marques
    12/05/2015 at 14:10

    O Vitor Ângelo sempre proporciona bons Hora da Coruja. Ele é um cara muito inteligente, sereno e fino. Ele deveria ser convidado mais vezes, pois faz o programa render. É nítido como a Fran fica contente quando ele vai ao programa.

    • ghiraldelli
      12/05/2015 at 15:36

      É a terceira vez dele. É um prazer fazer programas com gente resolvida com a vida própria.

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