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28/04/2017

Por que Zizek não entende Sloterdijk?


Um debate popular entre Zizek e Sloterdijk, no Brasil, daria vitória de “ibope” para o primeiro. (1) Somos um país em que todos reclamam dos impostos que pagam, e com razão, porque aqui a devolução dos impostos em forma de benfeitorias e serviço público não é nada satisfatória, mas, ainda assim, os brasileiros ficariam a favor de Zizek quanto a este assunto. Num debate sobre impostos, ele diria que o estado tem de realmente cobrar mesmo!

Zizek não consegue entender Sloterdijk. Este, por sua vez, critica a cobrança de impostos que forma a base do pensamento político da social-democracia europeia. Sua ideia tem um sabor de utopia, mas é uma utopia diferente daquela de Robert Nozick, de caráter libertário. Sua ideia é essencialmente filosófica e, por isso mesmo, não pode ser apreendida corretamente por Zizek. Trata-se da tese de que uma sociedade não deveria deixar de lado o impulso orgulhoso para a doação, que efetivamente existiria em nosso meio, e fundar todas as suas esperanças na tributação. Essa ideia, em Sloterdijk, tem a ver com a sua psicologia antes timótica que erótica, e com a sua apropriação da teoria do gasto de Bataille. Igual a um garoto que só respira política de esquerda, Zizek não aceita tal coisa porque antes de tudo não a entende. Zizek tem uma certa dificuldade com a filosofia.

Grupo de ricos capazes de fazer doações não dizem nada a Zizek. Ele parece estar confiante em dois dogmas do marxismo tradicional: 1) o homem é homem pelo trabalho e pela produção, não pelo gasto ou consumo; 2) a propriedade é um roubo (como Rousseau informou), e este ato pecaminoso deve ser eternamente reparado pela cobrança de impostos dos proprietários. Mesmo quando ele lê Sloterdijk falando de que lida com uma economia timótica, e não erótica, Zizek não consegue pensar. Ele revida antes de racionar.

Uma psicologia e uma economia eróticas fazem o que é próprio do amor, do desejo, claro: querem antes de tudo ter. A satisfação é o ter. Uma psicologia e uma economia timótica fazem o que é próprio do thymos: pedem reconhecimento. Nesse caso, a satisfação é aparecer. Zizek ouve falar do thymos, mas não pensando dialeticamente, não consegue entender que ira e orgulho são peças do thymos que não implicam somente em destruição. Então, mesmo ouvindo a ideia de Sloterdijk a respeito de grupos que podem ter orgulho pelo reconhecimento de serem os guardiões de várias coisas da cultura e da sociedade, ele não entende a função do thymos e acredita que pessoas como Bill Gates nunca fizeram nada, nadinha de bom, a não ser doar para ganhar.

Em outras palavras: Zizek não vê o homem senão pela perspectiva erótica. O homem quer ter, não quer aparecer, e se quer aparecer, é por meio do ter. O thymos como lugar da ira é visto por Zizek apenas como a instância de produção da inveja, não como instância também do brio que busca reconhecimento e identidade.

É claro que isso é um não entendimento do thymos, talvez uma certa cegueira às possibilidades da psicologia antiga. Aliando esse não entendimento com o mito do homem como produtor, Zizek fica despreparado para ver a economia pelos olhos de Bataille, que nos lembra do prazer de gastar, do prazer do reconhecimento em gastar mesmo não tendo tanto o que gastar, presente em nossa sociedade. Assim, Zizek parece se esquecer do que Hegel disse a respeito do reconhecimento, e entende menos ainda de Nietzsche, que fala da vontade de potência como aquilo que nos faz afastar de qualquer “princípio de conservação”.

O homem que é homem não pela produção, mas também pelo gasto – de tudo – que, enfim, pode ser desmedido em função da necessidade de reconhecimento, é um homem timótico. Sloterdijk fala dele, Zizek não é capaz de ver esse retrato e, com isso, mostra não conseguir notar nenhum homem que não seja os de seus mitos e dogmas. Para Zizek temos sempre que pensar que a utopia filosófica de pessoas que sentem orgulho de cuidar de museus, escolas, igrejas, fundações e até mesmo de toda uma cidade (como a classe timótica par excellence, a dos soldados de cidade justa de Platão) é uma bobagem enorme, e que só vale o realismo político dos impostos.

Zizek é o equivalente, do lado da esquerda de cabeça dura, da direita que advoga o estado mínimo, deixando tudo ao sabor da mão invisível – invisível mesmo – do mercado. Essa é uma posição que vale para Nozick como utopia anarquista, não como algo a ser efetivado. Mas os cabeças-duras liberais agem sem filosofia, acham que isso deve ser “aplicado”. Dos dois lados, há os realistas políticos. Sloterdijk se torna, assim, ininteligível para os dois lados, pois o que ele propõe é uma forma de pensar, uma filosofia, algo a ser ponderado. Filósofos são pessoas que jogam o jogo do pensamento, não o jogo “do real”.

O debate entre Zizek e Sloterdijk levaria vitória ao primeiro, claro, pois o senso comum é o senso do realismo político, dos que se acham espertos quando nos chamam de ingênuos ou tolos. É que nossa tolice é fundamental para a filosofia. Nós filósofos somos eternamente derrotados diante da política dos políticos e diante dos filósofos que não sacaram que ao fugirem da ingenuidade se tornaram inimigos da filosofia.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

(1) Contraponho aqui ideias que basicamente estão em O ano em que sonhamos perigosamente (Zizek) e Ira e tempo (Sloterdijk).

ZIZEK SLOTERD

 

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11 Responses “Por que Zizek não entende Sloterdijk?”

  1. Roberto W.
    26/09/2016 at 23:33

    Caso o empresário João Dória, candidato a prefeito de SP, realmente recuse usufruir o subsídio de prefeito para fazer doação, estará agindo como um homem Timótico? O que vc acha dele?

    • 27/09/2016 at 07:24

      O timótico não é que recusa pagamento, mas o que sustenta e cuida de algo pelo qual tem orgulho. Entendeu?

    • Roberto W.
      28/09/2016 at 11:33

      “O timótico não é que recusa pagamento, mas o que sustenta e cuida de algo pelo qual tem orgulho. Entendeu?” Eu tinha entendido isso, tanto que por isso citei uma hipóteses em que ele (Dória) receberia o dinheiro mas o doaria pra alguma instituição. O que eu não explicitei foi que ao ser prefeito de SP, Dória vai administrar a cidade, sem visar ao dinheiro. Assim pode-se dizer que ele esta sustentando e cuidando de algo por orgulho, timoticamente?

    • 28/09/2016 at 11:53

      Não, não entendeu. Veja a frase: “cuida de algo pelo qual tem orgulho”. Os soldados de Platão são timóticos, tinham orgulho de protegerem Atenas. A fúria deles contra o inimigo lhes dava identidade e orgulho desta, ligada ao fato de serem os cuidadores do que construíram: Atenas. Sócrates foi um deles.

  2. Marilene Ribeiro
    10/07/2016 at 23:52

    Professor, grata pelas explicações. Aqui no Brasil milhões de pessoas já contribuem para esse fisco subjetivo. Com brilho nos olhos elas dizem que são sócias da Canção Nova, ajudem a Rádio Catedral e são benfeitores de inúmeras outras organizações religiosas ou artísticas. E os biiiiiigs benfeitores são admirados como se uma aura especial os envolvesse. Eles mesmos não tocam no assunto, sabemos pelos demais que os admiram e respeitam por essa generosidade.

  3. Ester Bittmann
    24/09/2015 at 18:35

    Prezado Prof. Ghiraldelli, gostaria de saber se você já leu as obras de Aristóteles em grego ou francês.

    Abs

    • 24/09/2015 at 19:36

      Li os clássicos (principalmente Platão) quando garoto, no ensino médio, nas traduções da época. Depois, li um pouco em grego, mas a maior parte em inglês, em geral conforme a escola onde estava e às vezes por conta dos grupos de estudos. etc. As traduções que uso são indicadas nos meus livros, a não ser quando o editor obriga refazer citações e optar direto pelas traduções.

  4. Márcio
    21/09/2015 at 21:07

    Paulo, como avaliar, no contexto das categorias reivindicadas por Sloterdijk, o chamado “Modelo Nórdico”?

    Ao contrário dos países do centro europeu, as ainda mais altas taxas de tributação gozam de quase que absoluta legitimidade entre a sociedade. E o interessantes é que o debate não se estabelece, na dimensão política, pela lógica das ‘subjetividades eróticas’ – por assim dizer.

    Pelo contrário, os laços de solidariedade são extremamente poderosos e o cuidado e apreço pela comunidade vão ao encontro das ditas virtudes timóticas.

    Mas, até onde sei, não há um sistema direto de doações, de modo que as transferências funcionam quase sempre pela intermediação de um estado bastante forte. Seria o caráter bastante transparente e democrático do Estado que o coloca quase como um vizinho ou colega gentil?

    • 22/09/2015 at 06:22

      Márcio a filosofia não é política, é filosofia. Essa mania de não conseguir pensar e querer “aplicar”. Nem escrevendo diretamente isso há quem não consiga entender. Putz!

    • Márcio
      22/09/2015 at 20:43

      Paulo, eu compreendo suas colocações, concordo com elas. Aliás, eu escrevia esse comentário justamente no momento em que você tratava disso no Hora da Coruja de ontem. Te acompanho e sei dessa sua posição, do qual compartilho.

      Deixe-me apenas contextualizar o comentário. Sou historiador das ideias e culturas políticas. Ao ler esse texto minha preocupação não era “aplicar” a filosofia à política, mas tão somente refletir como as filosofias políticas saltam e se comunicam na conformação das ideias e culturas políticas – pensando meio que numa articulação entre filosofia e antropologia políticas.

      Ou crê que o caminho não é por aí?

    • 22/09/2015 at 20:52

      Márcio! O que eu quis dizer como filosofia “não se aplica” é mais ou menos o que Rorty dizia quando lhe perguntavam sobre se era possível uma sociedade sem mercado. “Não sei como fazer isso e continuar fazendo a circulação não só de mercadorias, mas de ideias, cultura etc.” Depois que as coisas passam, é possível construir fantasias que se parecem reais, como a ligação do liberalismo à vida política americana, é possível até ver que o próprio Locke ajudou na constituição de unidades americanas etc. Mas antes, fazer o próprio trabalho de engenheiro social, é um perigoso emburrecimento da filosofia, isso quando não é um crime.

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Filósofo