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29/05/2017

Por que o PSOL não pode substituir o PT? O problema é sim o marxismo.


O PT se transformou em uma quadrilha. E o processo não é de hoje. Quando Weffort deixou a presidência do PT, ele já tinha nas mãos indícios de que Lula estava querendo colocar seu lado pior para funcionar. E dali para diante as coisa passaram a funcionar segundo as regras de Zé Dirceu, Palocci e, enfim, como sabemos hoje, do próprio Lula. A bandidagem era o céu do limite. No começo a ideia era fazer acordos com políticos fisiológicos, pagando para eles, depois, o próprio PT viu que o dinheiro possível de roubar era um bom financiador de sua própria campanha. Por fim, os próprios militantes da  cúpula foram se enriquecendo, roubando em causa própria. Mais tarde, prevendo problemas, continuaram a roubar para pagar advogados. Por isso a propina continuou alimentando alguns até mesmo na cadeia.

A causa disso tudo está em duas questões, e ambas, infelizmente, estão diretamente envolvidas com o marxismo.

Uma delas está no modo como Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista. Eles fizeram a crítica do liberalismo não de um modo inteligente, mas, em alguns momentos, exatamente da pior maneira possível: a cada crítica liberal aos comunistas, eles responderam no estilo do publicista tolo, partidário, que encontramos hoje em dia como midiagogo por aí. Ou seja, toda acusação contra os comunistas, dizendo que eles pregam X, Marx e Engels disseram: “mas esse X já está feito de forma hipócrita por vocês”. Chega-se ao limite, então, de se afirmar que o proletariado não tem qualquer respeito com a moral burguesa. Mas a parte positiva não aparece: qual moral então é a da família proletária? Tudo fica quase como nos textos posteriores, os de Nietzsche, quando a própria palavra moral é que é a marca do “demasiado humano” que deve ser abolido.

Um texto panfletário assim pode trazer muitos problemas. E essa formação rasteira, de partido, na base da leitura só do Manifesto, criou todo tipo de monstrengo e sujeira. Ou seja, toda vez que se faz uma crítica ao militante de esquerda, ele nunca é capaz de dizer “não, não fazemos isso“, ele só responde: “vocês já fazem isso, e de maneira hipócrita”, quase que como querendo dizer: nós também podemos fazer, mas sem hipocrisia. Roubar sem hipocrisia foi o final disso, para o PT. O PSOL e qualquer outro partido de esquerda, ainda criado nesse vagalhão do século XX que não passou, vai dar no mesmo. O aprendizado ainda continua sendo o do Manifesto.

O segundo ponto, que de certo modo está bem articulado ao primeiro, é que o militante de esquerda, ao não explicitar qualquer moral de modo sério, para seu consumo próprio se põe como alguém dono de mais moral que qualquer moral. Seu amoralismo não é um imoralismo, na sua cabeça, mas um supramoralismo. A honestidade e outros valores se tornam “burgueses”, “demasiado humanos”, e qualquer coisa que venha do partido, representante da classe santa, o tal proletariado, aparece com legitimidade supramoral. A moral do militante de esquerda é o próprio socialismo, o próprio comunismo. Não é necessário dizer de regras, a não ser de vez em quando, mas para mentir. Mentir pode, pois os “burgueses”, os “liberais”, também mentem. Então, enquanto se participa do “jogo político burguês”, pode-se mentir. Tudo é perdoado e deverá ser perdoado porque se se é socialista, nenhuma moral é melhor que essa, essa posição teleológica, supramoral. Isso está incrustado na prática do PSOL tanto quanto estava no PT. E isso tem a marca da esquerda no mundo todo – ainda! Somos revolucionários, reformistas, e isso basta.

Nessa linha, nenhum militante de esquerda consegue, em casa, ensinar a filha que ela não é uma guerreira por ser socialista, mas será uma boa guerreira se for antes de tudo honesta. Ser honesto aos 16 anos não é só não ser ladrão, mas não conviver com adultos ladrões, não lhes dar guarida, não querer achar que eles são ídolos de esquerda. Não são, são bandidos. Mas se um pai não sabe explicar isso ao filho, há algo na moral comum que é maior que doutrinas, tudo está perdido. E os pais de esquerda, hoje, não conseguem ensinar isso, pois eles próprios, mesmo jovens, não sabem isso. Desaprenderam.

Não adianta, ao menos pelo momento, criar outros partidos de esquerda. Eles nascerão ainda sob a regra do Manifesto, e sob certas hipocrisias nietzschianas. Vamos ter que esperar. Essa geração que está aí não é do século XXI, é ainda do século XIX. É a geração que vê 1917 como redenção, vê Sierra Maestra como lugar santo, vê a barbárie da não-moral como um altar do supramoralismo autorizado por Deus.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 01/11/2016

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12 Responses “Por que o PSOL não pode substituir o PT? O problema é sim o marxismo.”

  1. Fabiano
    09/11/2016 at 06:51

    O que o Sr. esta dizendo em relação ao PT, seu antagonista filosofo Olavo de carvalho já diz a um bom tempo he.

    • 09/11/2016 at 08:34

      Não, Fabiano, Olavo não é filósofo. E quem fala só uma coisa sempre acerta. Acorda garoto, tente começar a aprender o lado certo das coisas. Seguindo um cara que acha que adoçante de Pepsi é de feto humano, você não vai a lugar algum. Outra coisa, se você já passou do terceiro ano primário, sabe que não e´difícil. Olavo ficou reprovado aí, no terceiro ano.

  2. 04/11/2016 at 09:25

    PSOL? “Monstrinho trotskysta”!

  3. Wisley Aguiar
    02/11/2016 at 09:19

    Ensinar honestidade tá difícil hoje em dia. Muitas crianças testemunharam seus pais pagando propina para o policial não multar ou prender o veículo durante blitz. Existe esperança para os brasileiros Paulo?

    • 02/11/2016 at 09:44

      Wisley veja a minha resposta ao “Gay Enrustido”, aqui nesse espaço,e você entenderá o que está ocorrendo.

  4. Greyson Wacke
    02/11/2016 at 07:22

    Óbvio que o Manifesto Comunista é panfletário…. Ele É um panfleto!!!!

    • 02/11/2016 at 08:56

      Wacke a frase se insere na fortuna da obra: um panfleto que virou um clássico que precisa, às vezes, ser lembrado de sua origem panfletária. Entendeu agora a necessidade da reiteração?

  5. Davi Azevedo
    01/11/2016 at 22:29

    Caramba ! Que texto ! É realmente uma pena não existir diálogo entre a crítica marxista “liberal” (como o seu caso) e a da direita católica. Eu não gosto de falar, mas fui leitor ávido dos textos do “astrólogo” por uns 2 anos. Tive fígado para traduzir aquele latim afrancesado cheio de palavrões em “brasilês”, e correndo atrás de aprender algo de história nacional e filosofia, que não tive na escola.

    O fato é que do supramoralismo dos revolucionários nasceu boa parte dos abusos de poder cometidos do século XX no chamado “terceiro mundo”. Para acabar com isso seria necessário toda a revisão da esquerda desde 1917. A diferença é que o religioso vê a amoralidade como sistêmica, colocando as mentalidades revolucionárias burguesa e leninista no mesmo pacote, como se o obscurantismo fosse a única saída. É um bom problema epistemológico !

    • 02/11/2016 at 08:59

      “Crítica marxista liberal” – meu caso? Meu Deus, você não leu nada meu. Convido à leitura. Não sou marxista meu caro, nem liberal, sou filósofo.

  6. Robson de Moura
    01/11/2016 at 18:52

    Espetacular!

  7. José
    01/11/2016 at 15:38

    Alguns dizem que o PT deveria ficar no legislativo, que na época que o PT ocupava principalmente o legislativo ele ficou conhecido como o partido da ética. Eu acho que o erro do PT foi ter aproximado e talvez se misturado com a chamada política tradicional. Acho que o Brasil precisa de uma reforma política, de acabar com a reeleição que favorece que certos grupos se perpetuem no poder. Nossa democracia não tem maturidade para ter reeleições.

    • 01/11/2016 at 17:58

      José, não mesmo! Acorda! O PT é uma quadrilha. Leia meu texto, você não leu.

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Filósofo