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28/02/2020

Por que o governador Alckmin não entende o que é pesquisa acadêmica?


O governador de São Paulo, o médico e professor universitário Geraldo Alckmin, tem um problema grave: mesmo sendo do meio acadêmico, não sabe o que é pesquisa acadêmica. Ele se insurgiu contra a FAPESP (vem por aí mais corte de verba ainda?) munido do slogan de que o órgão paulista de fomento à pesquisa deveria financiar pesquisas com “resultados práticos”, resultado úteis (Matéria aqui). 

Ora, não conheço nenhuma pesquisa acadêmica no Brasil, salvo os casos pitorescos esparsos, cujo objetivo não seja extremamente prático. Há objetivos práticos que devem ser atingidos em segunda instância e há os que são atingidos imediatamente, mas, no atual modelo universitário, tudo está sob o rígido controle de eficiência em prol de resultados práticos, inclusive comerciais.

É preciso entender a prática com cuidado. Vejamos.

O Viagra foi inventado como um erro. Ele é o exemplo de que muitas vezes, em pesquisa, busca-se uma coisa e se encontra outra. Sabendo disso, as universidades e até mesmo laboratórios privados pagam a pesquisa chamada “pura”, que gira em torno de vários objetos, mas sem a pressa, sem a busca de resultados imediatos. Mas, quando surgirem, certamente serão os resultados práticos.

Há pesquisas desse mesmo âmbito que são divididas em partes, em grupos, e que mantém o caráter mais imediatista para certos setores, liberando outros para a investigação a longo prazo, quase que sem objetivos muito delimitados. Vacinas são muitas vezes parte do imediatismo de grupos que estão pesquisando livremente determinados problemas de doenças crônicas, sem imediatismo.

Será que o governador entende isso? Ou o governador estava se dirigindo ao que ele, como tecnocrata de área não humanística, imagina que não é nada prático, a pesquisa em filosofia e adendos?

Nas ciências humanas e na filosofia, onde o senso comum acha que as pesquisas não são práticas, é exatamente o lugar em que mais as pesquisas são utilizadas para objetivos ligados à vida cotidiana. Talvez o governador não saiba, mas quando ele contrata uma equipe de marketing – e isso ele faz todo dia, e não só nas eleições – tudo que é feito por tal grupo advém de conhecimentos de psicologia social, teoria da comunicação, antropologia e filosofia. Não há ninguém no mundo que mais utiliza o saber em ciências humanas, direito e filosofia que os políticos. Aliás, tais saberes não são só para o exercício do governo, mas para a sobrevivência pessoal do político, como profissional que se utiliza diariamente do campo que produz conhecimento sobre o comportamento humano individual, social, histórico etc.

A universidade é o respiradouro da sociedade. Uma sociedade, mesmo democrático-liberal, possui regras que criam censuras. Então, ela própria, cria a universidade como um campo que pode ir além de certas leis e censuras, para que se possa conhecer melhor o homem e funcionar como um respiradouro social. Um país com censura à universidade, sem liberdade de cátedra, é um lugar que ainda não colocou suas melhores pontes em direção à civilização. A universidade como respiradouro é, também, o lugar primeiro em que a arte de governar e fazer política só cresce por conta das ciências humanas. Um político inteligente deveria saber disso.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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9 Responses “Por que o governador Alckmin não entende o que é pesquisa acadêmica?”

  1. Joao Oliveira
    28/04/2016 at 22:08

    Paulo, confesso que meu interesse pela filosofia inicialmente foi justamente pensando em melhorar o conhecimento sobre o “mercado”, a concorrência e conhecer os limites do ser humano.

    Contudo, percebo que há uma cisão entre o mundo da técnica, representando pela tecnologia em geral e que se funda na prática e, digamos assim, na analítica; e, de outro modo, o grande mundo de possibilidades fora do campo da técnica.

    Para mim, a dicotomia limitadora do sujeito atual (razão e emoção) é causa indireta dessa visão estritamente técnica.

    Pois bem, se o filósofo deve andar além da técnica, como ter sucesso nesse mundo de mercado?

    As empresas querem apostar nos discursos filosoficos, mas parece que os filósofos ajudam pouco no negocio em si.

    Afinal, sendo prático, sabendo que isso é limitado, é possível usar um filósofo para ganhar dinheiro no mundo empresarial como Alexandre usou Aristóteles para ganhar poder?

    • 29/04/2016 at 07:16

      João se você procura sucesso você pode virar um palestrante desses que escrevem na Folha ou estão na casa do saber, mas filósofo, nunca. O filósofo é contra seu tempo.

    • Joao Oliveira
      29/04/2016 at 09:04

      Paulo, acredito que não sou digno (inteligente o suficiente) para imaginar que serei um filósofo.

      Acho que percebi o tamanho do projeto filosoficos e nessa vida me falta tempo.

      Minha pergunta é: ao invés de me trasformar em filósofo, como posso “contratar” um filósofo e “usa-lo” para me deixar mais rico sendo que ele está fora do seu tempo?

      Como nas pesquisas de governador, como posso ver uma utilidade (utilitarismo do mercado), como você apontou no texto, ao “usar” um filósofo para me deixar mais esperto, rico, intileligente e eliminar a concorrência?

    • 29/04/2016 at 09:20

      João, filósofo consultor não é filósofo. E filósofo que você possa contratar, menos ainda. Esses picaretas de casa do saber e de colunas de jornal são papagaios.

  2. carlos
    27/04/2016 at 19:28

    Paulo que tal fazer um Hora da Coruja com a Márcia Tiburcio?

    • 27/04/2016 at 20:31

      Nunca meu caro, o Hora da Coruja é lugar de filósofo e gente honesta.

    • Joao Oliveira
      29/04/2016 at 12:38

      Obrigado.

      Percebi isso mesmo nos poucos filósofos sérios.

      O mundo da consultoria é burro e limitado, mas pelo jeito não há nada mais sério que lhes façam frente.

      Enquanto isso o jeito é comprar revistas com a foto dos milionários e entender como superaram a concorrência.

      Obrigado pela sinceridade e afinco ao projeto filosofico.

  3. Beto
    27/04/2016 at 17:11

    O senhor recomenda o livro “como falar com um fascista” da doutora filosofa Marcia Tirburi para entendermos melhor esse periodo que vivemos no Brasil ?

    • 27/04/2016 at 18:17

      Beto, só uma besta lê coisa de Olavo de Carvalho e Márcia Tibúrcio.

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