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30/04/2017

Por que o belo é belo?


Por que o belo é belo?
Ou Bruna Marquezine em ritmo de aventura

Marx foi um filósofo de mão cheia. Em estética, ele lançou uma das questões mais centrais derita-hayworth toda a filosofia do belo. Ele escreveu de modo magistralmente econômico sobre um problema fundamental da estética, coisa que outros gastaram livros e livros sem fazer melhor.

Eis sua questão: não temos de explicar a razão pela qual uma obra de arte se esvai no tempo, torna-se extremamente datada e chega a guardar apenas valor residual histórico, o que temos de misterioso é exatamente o oposto, que é como que há obras de arte que nunca deixam de ser admiradas e sempre são belas.

Com essas palavras Marx circunscreveu o problema geral que, depois dele, iria se tornar o centro da discussão em estética, e que detonou as conversas sobre o “fim da história da arte”.

Relembrando: no começo do século XX surgiram artistas que, como bem explicou o filósofo americano Arthur Danto, tornaram-se filósofos por meio da própria obra de arte e não de discursos filosóficos. Eles puseram objetos quaisquer em galerias e, então, já ninguém mais sabia se aquilo era ou não admirável – seria um urinol ou uma obra de arte ou os dois? Assim eles fizeram até o senso comum questionar “o que é arte?”. Ora, de certo modo, essa já era questão embutida na observação de Marx. Não sabemos o que é obra de arte para fora da galeria de arte? Até os mais cultos e treinados não sabem dizer o que é a obra de arte e o que não é? Mas, então, por que todos nós concordamos que a Vênus contém beleza e é arte e que a própria Monalisa, mais recente, é arte? Um clássico é belo, mas o belo pode não ser um clássico.

Marx nunca quis historicizar a arte para explica-la, como pensaram alguns sociólogos e historiadores incautos. Ao contrário, ele ficou pasmo diante do escudo contra qualquer historicização, levantado naturalmente pela arte clássica. Por que tudo é histórico e o belo, em certas obras de arte, se recusa em perder o brilho diante de gerações diferentes, culturas diferentes, geografias distintas?

A pergunta dos artistas-filósofos modernos, “o que é arte?”, pode ter sido mais geral, mais abrangente que a pergunta de Marx. Todavia, Marx teve o mérito de fazer o que a filosofia faz essencialmente: espantar-se, cair de admiração, tornar-se pasmo diante de algo que desafiou o historicismo, essa força que já em seu tempo, que logo depois foi o tempo de Nietzsche como seu denunciante, mostrou-se como a substância mais corrosiva que o século XIX poderia nos dar.

Tudo é histórico. Mas o que é clássico é o que desafia tal ordem de uma maneira especial: tudo é histórico e, no entanto, há o que a história não desgasta, ao contrário, repõe em sua forma mais esfuziante. Esse é o drama.

Há algo desse mistério na cultura popular e na cultura de massas. É essa é uma questão que muitos teóricos querem negar ou então explicar de modo fácil, rápido, dizendo que tudo se deve à exposição máxima acoplada às forças econômicas e coisas do tipo, que fazem com que algo seja belo durante um tempo como se esse tempo, sendo de segundos, pareça eterno. Estou falando aqui de objetos belos, obras de arte, ou seja, gente como Bruna Marquezine. Estou falando aqui de gente como Isis Valverde.

Não são obras de arte, mas as fotos, a TV, os filmes e, enfim, todo o “aparecimento” desses rostos na mídia funciona no registro da obra de arte. Pois a tais pessoas é destinada a pergunta: o que as fazem belas? Ou melhor: o que faz com que Isis Valverde seja a “namoradinha do Brasil” e, no seu máximo, no seu auge, seja nublada por Bruna Marquezine, que então ganha a taça de ser a beleza absoluta?

Não há dúvidas que Elizabeth Taylor é bela e ganha das duas! Mas, há três meses passados, ficaríamos horas admirando Isis, e não Taylor ou Marquezine. Mas agora, tudo que estampar o rosto de Marquezine chama a atenção, e vende. Vende porque queremos levar um pedaço da beleza de Marquezine para casa. O belo absoluto não é absoluto, mas parece ser enquanto dura. E o mistério agora é entendermos por que perdemos esse belo e adotamos outro, rapidamente, ainda que jamais possamos dizer que o que ficou de lado seja feio ou não seja tão belo quanto o novo belo.

Esse fenômeno é misterioso e as conversas ignorantes que atribuem isso à exposição, ao dinheiro e à fama são tolas. Esse fenômeno é verificado em sociedades em que a mídia não tinha o poder que tem hoje. Ou seja, não estou falando do quanto se pode chamar a atenção, estou falando do quanto se pode prender a atenção, ganhar a preferência durante um tempo talvez curto, mas que parece eterno. Não estou falando da idiotice dos tais “quinze minutos de fama” ou da bobagem a respeito de jogos de bastidores que ressaltam alguém em um domingo no horário nobre da TV. Estou falando de como que uma beleza corta a frente de outra e realmente se torna um colírio para os olhos, uma suavidade para todo o globo ocular. Estou falando do belo enquanto belo no campo das artes plásticas ou artes visuais. Explico!

Qualquer um de nós pode ficar espantando com a atratividade de Rita Hayworth, com sua beleza hipnotizante, mas o que realmente espanta é que se deixarmos uma foto de Bruna Marquezine, hoje, diante de nossos olhos, junto com a da atriz americana, gastaremos mais tempo admirando a brasileira – o mundo todo! O prazer é maior e não à toa ela tem sido aclamada, sem cabelos loiros ou olhos verdes ou azuis, a mulher mais sexy do ano (nota: Bruna e outras eleitas chamam a atenção não sexualmente, chamam a atenção igualmente de homens e mulheres – há dados sobre isso em pesquisas de todo tipo).

Bruna está na TV desde criancinha. Pode ter desenvolvido técnicas que ela mesma desconhece de como posar e ser atrativa. Não há nas minhas palavras qualquer tentativa de desmerecê-la enquanto moça de talento. O que digo aqui é que o mistério da troca é que é o mistério da arte: ele ganhou um lugar, e talvez o perca logo, mas enquanto está nele ela funciona como a obra de arte clássica, como o belo absoluto.

Trata-se de um fenômeno misterioso, que a Rainha Má nunca conseguiu decifrar. Aliás, por não equacionar isso corretamente, tornou uma assassina, alguém levada a atentar contra a vida de Branca de Neve. Caso o Espelho Mágico não fosse um capacho disfarçado de falador da verdade, ele não lhe daria o próprio rosto, mas, antes de tudo, lhe daria a pergunta de Marx. Isso, quem sabe, tivesse salvado a Rainha Má do seu destino que, enfim, foi o de morrer de maneira horrível tentando matar Branca de Neve (ainda que, cá entre nós, uma bruxa morta por anões tenha lá sua verdade em contos que retratavam os tempos medievais).

Os antropólogos mais sofisticados talvez tenham uma resposta que as pessoas que teimam em se manterem incultas jamais entenderão. Eles podem simplesmente dizer: o belo-clássico que não morre, e por isso é clássico, se casa com o belo-absoluto-de-momento porque ambos estão incrustados na parte mais primitiva do cérebro humano. Há algo que se formou lá no momento em que aquilo que não era ainda o homem parecia querer ser homem, e isso determina que certas imagens ganhem essa resistência histórica, por séculos, ou por momentos que parecem durar séculos. Há algo que se formou de modo tão sólido no cérebro primitivo que aciona todas nossas endorfinas e então se faz como que uma ontologia do belo. A Vênus é bela para sempre e Bruna Marquezine, enquanto não for derrubada por outra, é bela para sempre.

Como isso se fez? Se imaginarmos o modo como o filósofo alemão Peter Sloterdijk tem pensando o regime de vir-ao-mundo, como um campo de esferas, podemos ganhar graus de entendimento não desprezíveis.  No caso, temos de notar a esfera que se fecha entre mãe e filho, o útero, e que depois do nascimento, se fecha de novo entre o cuidado da mãe em relação ao filho e a reciprocidade do filho em relação à mãe, algo que ocorre em sociedades de animais que já podem criar essa esfera como ambiente real de imunização. Não terá sido aí, no colo da mãe, que o bebê ainda pouco humano começou a fixar os traços essenciais, arredondados, brilhantes, saborosos que, depois, iriam nos dar o que chamamos de “capacidade de apreciar o belo”? Aquilo que às vezes chamamos de “condição de fixar e determinar o belo” pode muito bem ter se estabelecido nessa esfera inicial, fixada na espécie que conseguiu, enfim, fazer com que a vida uterina terminasse fora do útero, como é o caso do animal que veio a se fazer homem.

Quando olhamos para a Vênus e para Taylor, e quando vemos Marquezine entrar no lugar de Isis Valverde, ou quando vemos a paisagem de um rio tortuoso, ou quando apreciamos um quadro da Lua ou do Sol ou das montanhas, não estamos sempre vendo os traços tortuosos de quem olha por debaixo dos seios e nota as curvas deles mesmos e também o arredondado do rosto da mãe, suas bochechas, sua boca fazendo bico? Não é isso? Não são essas as linhas fixadas na retina histórica do filhote do animal que conseguiu proteger sua prole, fazendo o útero se manter vivo mesmo após o nascimento?

Somos adoradores das formas suaves. O que tem ponta abrupta, cortes em formas de esquinas, geometrias euclidiana secas, não é o que chamamos de belo. Nunca foi. Não há estética que dê prêmios para o que não desempenha o papel de visão da utopia. Uma utopia está no horizonte, onde montanhas, sol e lua dão as linhas mestras. Uma utopia está nas formas arredondas do útero, e que são depois repostas na esfera que se forma entre os braços da mãe e onde o filho é acolhido para ter o prazer de se encontrar com as linhas também arredondadas do que dá o que precisamos: leite, alimento.

Quando essa conjunção de desenhos e prazer faz as endorfinas levantarem as mãos e gritarem “presente”, começando mais uma aula, há algo que se agrega ao cérebro para nunca mais se perder na evolução.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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8 Responses “Por que o belo é belo?”

  1. 31/12/2013 at 21:09

    Bom ano novo, Paulo.

    Acho o tema muito interessante. Acho a questão do belo interessante. Gostei da observação quanto à historicidade do belo. A de que tudo é histórico então não é possível explicar o belo apenas por condições históricas.

    Paulo, estou escrevendo uma série de ensaios sobre arte. O objetivo é defini-la. Ficaria muito honrado se você pudesse dar uma olhada neles. Este é o último que escrevi, me disseram que é o melhor até agora e é por isto que o envio:

    http://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=49664&categoria=G

    Muito obrigado pela atenção.

  2. adriano
    31/12/2013 at 17:53

    Nobre Mestre, penso que enxergamos invertidamente: Vemos UFC para “afetar”, “interagir” com nosso arquétipo do derrotado – a beleza para interagir com nosso arquétipo de fealdade. Inclusive nas marcas e propagandas. Assim se fecha o entendimento do belo celestial que “fala e eleva” nossa fealdade carnal e a beleza estética, que completa dialeticamente nosso arquétipo cultural do “aceito e inserido” por suavizar o feio interno que sentimos por medo e timidez.

    • 31/12/2013 at 19:00

      Adriano, não tenho a mínima ideia do que é que falou.

  3. Alexandre
    30/12/2013 at 23:50

    A admiração exacerbada pela beleza da Bruna Marquesine está relacionada a uma cultura que diz que o natural é que o homem prefira meninas beeem novas, se é mesmo da natureza do homem ou se é fruto da cultura eu não sei, mas é isso que é considerado legal pela sociedade. Já a Patrícia Pillar está além dessas questões culturais, a Patrícia é uma força da natureza.
    Tentaram colocar a Marina Ruy Barbosa no lugar que hoje é o da Bruna, mas não deu muito certo, a Marina não faz a linha colegial que diz “oi, tio”… Enfim, cultura tão chata que chega a dar sono.

    • 31/12/2013 at 00:26

      Alexandre, a Bruna é apenas um exemplo. Leia de novo aí amigo!

  4. Daniel Mota
    30/12/2013 at 22:58

    Muito bom o texto, prof.Paulo. O belo como contemplação sempre foi buscado ao longo da história da humanidade, dividindo concepções através de filósofos como Aristóteles (catarse), Plotino e Longino (este último com a ideia de sublime). O mais legal que eu achei no texto foi quando o senhor ressaltou que as pessoas tomam coisas como O BELO (caso das atrizes), mas a atenção para com elas dá-se de forma efêmera até que venha uma que “supere” a já determinada, porém sem desconsiderá-las daquela condição ao focarem a nova. Importante reflexão. Abraços!

    • 30/12/2013 at 23:19

      Daniel, tem uma publicação, além das do Danto, que servem bem para pensar o assunto, é a do filósofo britânico conservador Roger Scruton, O belo.

    • Daniel Mota
      30/12/2013 at 23:35

      Legal! Procurarei ler artigos sobre eles e até livros!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo