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18/11/2017

Por que não dinheiro para todos? Alaska, Facebook e Sloterdijk


O Alaska tem um programa de renda mínima retirado de seus ganhos com o petróleo. Mark Zuckerberg visitou o estado e elogiou o programa, apreciando-o como um modo de melhorar a igualdade social. O jovem milionário anda preocupado com o fato de que muitos empregos desaparecerão por conta da inovação tecnológica, o que já vem ocorrendo no Vale do Silício, lugar que ele conhece bem. Aliás, cá entre nós, um desemprego setorial que catapultou Donald Trump, ainda que sem o voto popular, para a presidência dos Estados Unidos. Desemprego atrai populismo (de direita ou esquerda), e se o mundo todo seguir um rumo assim, vamos ficar bem menos civilizados do que gostaríamos!

O programa do Alaska tem mesmo méritos e, ao contrário do que dizem os críticos de toda tipo de ideia mais ou menos social-democrata, no caso deste não há nenhum indicador visível que possa dizer que ele causou indolência social. Faz trinta anos que  o programa existe. É tão útil que nem republicanos e nem democratas ousam falar em retirá-lo. Tudo isso é sabido pelo autor do artigo “Por que o Facebook deveria nos pagar uma renda mínima”, John Thornhill, publicado no Financial Times e reproduzido na Folha de São Paulo (09/08/2017).

Thornhill aproveita a visita de Zuckerberg ao Alaska e o elogio deste ao programa de renda mínima para lhe dar uma sugestão: o jovem deveria empurrar o Facebook, e quiçá o Google, no sentido de criar um fundo capaz de gerar renda mínima para milhares de pessoas que utilizam tais redes sociais da Internet, pois essas redes recolhem dados dos usuários e os vendem, e isso é realmente a maior fonte de renda que possuem, e uma das maiores fontes de renda do planeta. O artigo não é uma pirraça. Nem mesmo é o caso, pois Zuckerberg não parece ser um hipócrita ou um político demagogo que elogia programas que ele mesmo jamais implantaria por meio de suas empresas. Nada disso. A sugestão de Thornhill é sincera e, enfim, esperar do homem do Facebook uma resposta concreta não é nada ingênuo.

Da minha parte, ou seja, da parte da filosofia, o artigo de Thornhill chama a atenção porque reaparece aí a ideia americana de igualitarismo social, ou seja, a distribuição de renda gerada a partir de um tipo de mecenato empresarial, e não a partir de uma reivindicação “operária”, no estilo da tradição européia (longe de mim tirar a legitimidade desta!). Então, à primeira vista isso teria um cheiro do manual O evangelho da riqueza, do milionário Andrew Carnegie (veja o meu Para ler Sloterdijk, Via Verita, 2017, pp. 224-229), aliás, um texto bem conhecido e apreciado por Zuckerberg. Ora, esse tipo de mecenato, sabe-se bem, consta das observações de Peter Sloterdijk como uma alternativa à social democracia de base europeia. Então, estaria aí, estampado na Folha de S. Paulo, uma sugestão a la Sloterdijk? E estariam os jornais repercutindo a virada para o thymos, na contramão do apreço por eros, na filosofia social e política? Seria esta a ponte tripla entre o jornalismo opinativo, os milionários americanos e o livro Ira e tempo, de Sloterdijk? Aqui, é necessário voltar os olhos aos detalhes.

Não há dúvida que eros indica desejo e, portanto, posse, e o thymos, em contrapartida, indica orgulho, identidade e, portanto, capacidade de doação e cuidado. Uma civilização timótica seria então mais generosa que uma civilização como a nossa, herdeira de Platão e, portanto, erótica. A concretização dessa ideia civilizatória passaria pela ideia de Carnegie, de que “quem morre rico envergonha sua vida”. O próprio Zuckerberg, seguindo tais princípios, fez de sua filha um herdeira minoritária de seu império. Mas a ideia central de Sloterdijk não é simplesmente esta, uma espécie de versão americana de um programa social-democrata. Não! Sloterdijk tem um apreço pela crítica liberal à social democracia. Ele é um crítico dos impostos estatais. E sua crítica a tal coisa segue sim o caminho de algo que os liberais dizem por aí: o que é dado ou parece ser dado não tem valor e gera senão ociosidade, pode sim gerar tédio e irracionalidade. Imposto não é “dinheiro inteligente”. Assim, uma renda mínima vinda do Google ou Facebook poderia, ao longo dos anos, gerar um marasmo igual ao que temos através de sociedades que exageram em seus impostos, e que fazem com que os cidadãos se esqueçam o que querem e não querem financiar. Aliás, é nesse ponto que existe um trato filosófico à questão, trabalhada em Ira e tempo, e redescrita em detalhes no livro Die nehmende Hand und die gebende Seite (Suhrkamp Verlag, 2010), sobre o novo ímpeto motivacional de uma civilização não passiva. Sloterdijk insiste na ideia de que é necessário um envolvimento timótico dos financiadores em relação ao que é financiado. Ou seja, o dinheiro precisa ser “dinheiro inteligente” e não dinheiro de impostos. Quem faz o trabalho de manutenção de um determinado bem cultural ou atividade, de fato precisa estar interessado de modo identitário no serviço prestado. E para tal, precisa estar em sintonia de orgulho com o que é financiado ou com  aquilo que faz o bem. Não é só Zuckerberg que deve cuidar da ideia de redistribuição de renda gerada pela venda de dados do Facebook, mas também os participantes, os usuários. Caso contrário, o que era mecenato se transforma em imposto e o problema do dinheiro não inteligente reaparece.

Claro que no caso aludido, sabemos que no momento atual, todos contribuem com dados para o Facebook e Google e só os acionistas dessas companhias ganham. Nada mais justo que todos que fornecem dados, ou seja, nós, também possamos ganhar um pouco e ver com isso vingara implantação da igualdade social e econômica. Mas o princípio de uma civilização timótica vai mais além do que aquilo visado por uma plataforma política de justiça social. É necessário que tenhamos uma direção melhor especificada sobre o que queremos doar e o que queremos ganhar. Forneceríamos dados (como já fazemos) e receberíamos dinheiro. Mas dado o tamanho do Facebook e do Google isso logo se transformaria em algo como pagarmos impostos e recebermos uma benfeitoria particular. Quase que uma espécie de porcentagem de devolução do imposto de renda. Em termos econômicos, de justiça, ótimo. Em termos filosóficos, que implica em gerar uma civilização antes timótica que erótica, teríamos acrescentado pouco ou até mesmo nada. Uma civilização timótica é aquela na qual as pessoas fornecem coisas ou dinheiro ou tempo para uma causa, instituição, empresa, ação etc. Ou seja, há uma identificação de quem fornece algo com o serviço prestado por quem recebe. Alguém que financia com tempo ou dinheiro um museu, escolheu fazê-lo, pois em parte é usuário do museu ou, se não é, acredita que outros deveriam poder usá-lo gratuitamente. Nesse caso, há aí um orgulho de se estar na pelo de quem é uma espécie de pequeno patrono do museu. Uma sociedade timótica é uma sociedade em que tudo que pareça com o nome de imposto não venha mais a existir. O nome imposto, sabemos bem, causa resistências bem legítimas. E não é necessário ser anarquista ou radical liberal para entender bem isso.

O orgulho de fazer parte dos que cuidam de uma causa, a ponto de se ter a identidade pessoal (portanto, o thymos) envolvida com tal orgulho, é o princípio básico do reconhecimento e, então, de uma civilização timótica. Essa é a questão de Sloterdijk. A justiça social seria decorrente disso, e não o princípio básico, norteador e fundante. Sloterdijk pode ser visto com alguém da esquerda, mas por uma ótica que tem suas distinções da ótica filosófica da social-democracia. E isso é bem mais profundo que um crítico liberal da social-democracia.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 09/08/2017

PS: uma dica do princípio timótico de Sloterdijk está também no artigo feito para a Folha de S. Paulo “Novas bases para uma sociedade generosa” (clique!)

 

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11 Responses “Por que não dinheiro para todos? Alaska, Facebook e Sloterdijk”

  1. silvia
    22/08/2017 at 17:40

    Professor, o senhor diz que Sloterdijk reconhece a nossa época como uma época da abundância, o que seria bom para o ser humano porque ele seria um ser do “mimo”. A minha dúvida é qual a crítica que Sloterdijk faz à modernidade ou pós modernidade quanto ao tratamento do ser humano?

    • 23/08/2017 at 10:03

      Essa mesma! Ou vai me dizer que você não viu que nossos problemas, quase todos, são de abundância. Pense na abundância de lixo, de poluição, de gases, de guerras, de férias etc.

  2. Augusto P. Bandeira
    12/08/2017 at 00:02

    Professor, mas isso, na base, não é a ideia da correta e ideal aplicação do dízimo? A única diferença é que o retorno ao doador é do âmbito metafísico não econômico?

    O trabalho de evangelização preconiza que a doação de algo sirva para que a Igreja seja autossuficiente; que, a partir do senso de pertença do fiel, isso o invista de orgulho para querer doar quando der e o que puder.

    Penso, ainda, que o elemento thymos veio trazido pela moral judaico-cristã como um fio condutor da alma que o paganismo greco-romano só podia “domar” pelo culto a eros, inclusive deificando-o mesmo.

    Estou errado?

    Esse próximo civilizacional não seria tão somente a incorporação à sociedade laica do ideal dizimista?

    Abraços professor.

    • Augusto P. Bandeira
      12/08/2017 at 00:40

      Nas últimas linhas: “Esse próximo passo civilizacional…”

    • 12/08/2017 at 00:53

      Sim, está errado. O dízimo é imposto. Funciona como imposto religioso. Sobre a doação, ela não é metafísica. Nada a ver com isso. Uma sociedade em que as pessoas financiam aquilo que lhes dá orgulho, exatamente porque o que é financiado faz o que é necessário fazer, é uma sociedade sem o marasmo que a social democracia costuma gerar com seu mecanismo de fisco.

    • Augusto P. Bandeira
      12/08/2017 at 05:05

      OK, houve confusão de minha parte, acho que não me fiz entender quanto à palavra “metafísica”.

      Pensei nela para designar o tipo de recursos a que quem faz a doação tem acesso; já que o dinheiro não é um recurso presente na natureza (físis), então, de certo modo, está além dela (metafísica).

      Mas o dinheiro permite acesso a bens materiais, o que não é o objetivo do fiel ao doar. Por isso fiz essa distinção de um metafísico não econômico.

      Respeitosamente discordo quanto ao dízimo ser um imposto. Um imposto, no Estado moderno, é uma obrigação cujo não cumprimento é um crime (sonegação fiscal). O não pagamento do dízimo não é um ato punível como um crime.

      O dízimo é um instrumento disciplinador para o fiel para: lembrá-lo que Deus sustenta a casa do fiel, livrá-lo do amor ao dinheiro – que é a raiz de todos os problemas (1 Timóteo 6:10) e educá-lo na boa vontade (2 Coríntios 9:7).

      O dízimo não deve comparado com o imposto próprio da lógica administrativa do Estado; quem faz isso é a Teologia da Prosperidade – um desvario predominantemente neopentecostal.

      Abraços.

    • 12/08/2017 at 10:52

      Augusto, me desculpe, mas seu pensamento tá uma confusão só. Vale a pena você tentar ordenar isso num curso acadêmico.

  3. João Pedro
    11/08/2017 at 00:30

    Isso me lembrou de um artigo na revista The Atlantic “A World Without Work” que fala sobre o fim do trabalha e sugere a ideia de se remunerar atividades que pudessem estimular o orgulho, o senso de pertencimento a comunidade, em contraponto a uma renda básica que poderia resultar em tédio e ociosidade.

  4. Tony Bocão
    10/08/2017 at 09:30

    Essa questão é comentada já um bom tempo por Bill Gates, e acho que já tem alguma coisa acontecendo na Finlândia, princípio timótico de Sloterdijk eu percebi na minha vida no sistema de orquestras sociais que participo e contribuo voluntariamente, sinto a diferença que faço na vida de muitos jovens em suas formações, mas toda a orquestra é algo que só funciona neste formato sustentável e voluntário, bloquear os assedias por políticos, que o oferecem patrocinar o projeto em troca de engajamento virou rotina, cinicamente. finalizando, chegara hoje “para ler Sloterdijk” lerei com afinco! obrigado

    • 10/08/2017 at 18:20

      Bill Gates é leitor do AC também, como Zuck.

  5. Claudio Dionisi
    09/08/2017 at 13:50

    Excelente abordagem sobre o tema. Este assunto ocupará os espaços públicos cada vez mais…. realmente, não há como evitar uma devastadora onde de desemprego e reestruturação social que virá nos próximos anos. Precisamos pensar muito nisto.

    Obrigado paulo.

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