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23/03/2017

Por que não devemos ter medo do pênis?


O pecado original não tinha conotação sexual. Só trezentos anos após o nascimento de Jesus, com o filósofo Santo Agostinho, é que o pecado original ganhou uma relação com a luxúria.

Aquele pecado que todos nós herdamos por virmos da linhagem de Adão e Eva, nada era senão um pecado do desobedecer, ou seja, da infidelidade. Algo corriqueiro. Afinal, todos nós, pais, esperamos que nossas criaturas nos sejam fiéis, e que não sigam nossos inimigos, nem queiram, por um passe de mágica, tornarem-se mais chefes da família do que nós. Os judeus não eram monoteístas, ninguém era. Deus era o deus da guerra. Natural que, na disputa com outros deuses pelo amor dos homens, viesse a chamar de erro, de pecado, o ato daqueles que prometendo vir com ele, fossem dar com outro. Foi procurando fidelidade que ele se fez deus único – Deus. Ou seja, o único a ter amor dos que prometeram lhe ser fiéis. Os errados deveriam sair de sua proteção, sair de seu Paraíso.

Até aí tudo bem. Mas a filosofia viria mesmo cobrar da religião mais do que a religião poderia dar. Ora, Agostinho foi esse homem da cobrança, talvez indevida.

Educado pela cultura greco-romana do norte da África, Agostinho se viu diante dos Evangelhos dados por sua mãe como quem ganha uma mensagem necessária de ser reelaborada para poder ser interpretada. Foi o que ele fez. Interferiu nos Evangelhos por meio do seu cérebro com alta vocação filosófica. O episódio do pecado original era uma das tantas partes dos textos sagrados da cultura judaica que, então integrada ao Império Romano de base cultura helênica, precisava de explicações. O que era afinal esse tal pecado? O que ele tinha a ver com os homens? Especificamente: por que Adão e Eva sentiram aquela vergonha especial diante de Deus, tendo de cobrir com folhas suas partes sexuais?

O episódio do pecado original foi tomado como objeto de trabalho por Agostinho, e ele deu uma solução psicossomática engenhosa para o problema da vergonha sentida por Adão e Eva perante o Criador, após a rebeldia que os fez acompanhar a Serpente e comer o fruto da Árvore do Conhecimento.

Após comerem do fruto proibido, Deus notou que Adão e Eva se escondiam dele. Deus já sabia a razão pela qual se escondiam. O pecado já havia ocorrido e também suas consequências e punição inicial. Adão e Eva é que não sabiam muito bem o que havia ocorrido, mas confirmaram o que temiam quando deram de cara com Deus: tiveram de esconder suas parte

s, agora efetivamente pudendas, porque elas haviam se tornado membros antes alvissareiros ao desejo que controlado pela vontade. Pela primeira vez o homem viu sua vontade indo para um lado e seus desejos indo para outro. A vulva e o pênis, seus órgãos para a reprodução, tinham adquirido um poder de membros quase independentes do resto do corpo. O desejo havia passado a comandar parte do homem. A mulher tinha líquidos se expondo, e o homem a ereção, e tudo isso, ao mesmo tempo, retroalimentava o desejo, esse rebelde diante da vontade. Ora, nada mais vergonhoso para nós, agora, como herdeiros dos pecadores, que ver nossos membros se mexerem sem nosso comando, e isso vale para qualquer membro, e, claro, para os ligados ao sexo. Esse foi o castigo imediato, divino, que recaiu sobre Adão e Eva: ter partes do corpo que, como pedaços de si mesmos, passam a agir por conta própria.

Ocorreu uma cisão no interior da criatura. Eis o resultado: partes do corpo do homem e da mulher agiriam por conta própria, de modo análogo ao que fizeram Adão e Eva, enquanto partes da Criação, em relação ao Criador. Eles agiram por conta própria, fora do que do que o Criador havia planejado e exposto. É como se Deus tivesse falado: irão sentir o que é a infidelidade em seus próprios corpos, para que saibam o que é a coisa mais importante na Terra: o amor, o ato de ser fiel a quem lhe deu a vida. Ou, no caso de Deus ainda como o deus da guerra: irão sentir o que é a infidelidade no próprio corpo, para saber o que sentiu aquele que lhes protegeu a vida (lhes deu a vida, portanto), quando vocês foram infiéis.

Foi assim que os órgãos de reprodução se tornaram partes de pudor, elementos de vergonha para o homem. Antes, o homem punha o sêmen na mulher sem desejo ou penetração. Depois do erro, do pecado, o ato de reprodução passou a depender do desejo, do momento em que uma parte do homem se move por si e que também algo do corpo da mulher se manifesta por si mesmo.  O desejo cobra por sua calmaria, e enquanto assim demanda, se põe distante da vontade. Cobra, inclusive, quando não está a serviço da reprodução. Sua autonomia se mostra completa. Tão autônomo quanto foram Adão e Eva autônomos no dia em que seguiram comendo o fruto proibido.

Agostinho gostou desse sua explicação toda. Tratava-se de uma narrativa coadunável com a tarefa das filosofias helenistas. Afinal, a maior parte das filosofias helênicas havia buscado o autocontrole total, ou seja, a submissão do desejo à vontade, e a submissão desta à razão. A própria filosofia como um todo, para os romanos, nas suas versões mais populares, a do estoicismo e a do epicurismo, não eram senão outra coisa que uma educação prática dos sentidos, dos sentimentos, da sensualidade. Agostinho sentiu que sua solução vinha a calhar, era como se todo o saber helênico, por outras vias, já viesse há tempos correndo em paralelo ao contemporâneo saber dos judeus, agora reinando oficialmente sobre os romanos.

Daí para a ideia de que o desejo pelo desejo é uma manifestação que denota o pecado, o erro, 1891-rampage-jackson-penis-toucha original rebeldia, e que se trata nada mais nada menos de que um aviso, como uma punição de consciência pela vergonha por não comandar o próprio corpo, foi meio passo. Logo, então, que a versão de Agostinho passou a ser a interpretação oficial do pecado original; o sexo enquanto elemento não só de reprodução, mas de luxúria, passou a ser um campo do voto de confirmação ou não do pecado. O homem e a mulher que se deixam levar pela luxúria, que não a comandam com a vontade racional, estão reafirmando o gosto pela punição da infidelidade e, então, reafirmando o pecado. Reafirmar o pecado é pecar de novo. Assim, o efeito virou causa: o efeito do pecado era o sentimento de luxúria associado à rebeldia de partes do corpo, e este passa a ser, depois, a causa do pecado – a causa da reafirmação do pecado é também pecado, é claro.

Eis então como os líquidos da mulher passaram a serem vistos como sinais de Lúcifer e como a ereção do pênis do homem passou a ser vista como uma das lanças do tridente do Demônio. O pênis passou a provocar gosto e nojo, curiosidade e medo. Daí para as fantasias das meninas com o pênis, na pré-adolescência de um modo e na idade adulta de outro, foi um passo. O pênis ereto ganhou a imaginação: vem como o é para meter no sentido de rasgar; vem para reafirmar a rebeldia, como o elemento que penetra a mulher fazendo-a de fantoche, pois isso é realmente o que o gozo faz com a mulher. Ela estremece no gozo, sem controle. Em várias culturais ela, a mulher, veio a ser tomada como a bruxa, aquela capaz de trazer para dentro de si um outro senhor. Não à toa a mulher foi vista como uma serva do Demônio, a mulher com desejos. A própria “mulher louca” era um misto de corpo possuído e patológico. Não à toa, hoje, quando uma mulher quer satisfação sexual somente, sem compromisso, o homem, por mais integrado à vida contemporânea, ainda a chama de “vadia”.

Imaginemos mulheres incapazes de orgasmo vendo outras totalmente tomadas pelo tridente de Lúcifer, agindo como loucas. A imagem se mostra a mais horrível e estranha do mundo. Nós todos sabemos que esse descontrole, uma vez visto por quem está fora da situação e não a compreende de todo, pode ser tomado como manifestação de entidades exteriores, ou seja, “coisa do Demônio”. Do mesmo modo que a mulher que não tem orgasmo, não raro, é tomada por nós como quem não deve ver o sexo e nem imaginá-lo, para não se tornar horrorizada e maldosa contra os que o praticam, também assumimos que às crianças deve ser vetada uma imagem do coito. Acreditamos que elas devam ser preservadas de verem os pais em estado de possessão. Desconfiamos que elas, as crianças, igual às anorgásmicas diante da loucura do gozo, não poderão entender o que ocorre. Ora, temos claro que a anorgásmica cria pensamentos maldosos sobre a mulher que goza. Não poderiam as crianças fazer o mesmo? Isso corre nas nossas cabeças. Não sabendo o que fazer diante dessa possibilidade, acabamos por proibir as visões do sexo para as crianças.

No fundo, tememos que as crianças reajam em relação aos humanos todos como as mulheres anorgásmicas reagem às notícias de estupro: começam a vociferar com ódio, pedindo irracionalmente a castração do estuprador, como se isso fosse uma solução racional capaz de impedir estupros. Não raro, o homem que não consegue fazer a mulher gozar, ou que é frustrado sexualmente, age também com esse furor diante de notícias de estupro, embora ele próprio tenha desejo de exercer violência contra a mulher.

Tudo isso explica, de certo modo, como o pênis ganhou o status que ganhou em nossa sociedade, e como que, não raro, há várias correntes ideológicas, inclusive com boas intenções, que o incriminam de tudo. Para muitos, só uma raça de eunucos poderia ser feliz. Não uma raça de celibatários. Estes seriam os mais perigosos, pois tendo feito o voto de não usar o pênis, o fariam sem freios com todos aqueles que são proibidos pela “boa sociedade” de poder apalpar o pênis de outro.

Às vezes nosso esse ódio contra padres que são chamados de “pedófilos” simplesmente porque eles traíram o voto de que não usariam o pinto, e usaram.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 56, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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7 Responses “Por que não devemos ter medo do pênis?”

  1. leo
    18/09/2014 at 16:00

    Cara você falou tudo! Só quem busca a verdade é quem ganha conhecimento e percebe essas coisas! Concordo contigo.

    E para os mais religiosos e fanáticos religiosos…
    O que importa na Bíblia tá no começo de Genesis, e a partir de Genesis 4 até antes do Apocalipse sao histórias de humanos que tiveram consequencias boas e ruins pelos seus atos bons e ruins, pessoas boas ou más. Entende?

    Segundo a Bíblia, Deus não criou os humanos para terem vergonha, mas a maioria esmagadora ainda sentem vergonha de um monte de coisas! Ninguém deveria ter vergonha da nudez, mas muitos tem! Eu não tenho, mas eu seria reprimido por isso.
    Fala que Deus fez o homem e a mulher para serem companheiros, ou seja, homens e mulheres fazerem companhias uns aos outros, seres da mesma espécie!
    Fala para se multiplicar, ou seja, sexo, porém recíproco. E vc acha que os filhos de Adão e Eva ficaram com outras pessoas que não eram suas irmãs?
    Diz que o pecado entrou no mundo atraves da desobediencia ao comer o tal fruto. Mas se só o humano comeu o fruto, então os outros seres não são pecadores né? Pq eles fazem sexo tbm, todos os seres vivos, e fora o humano, eles não comeram tal fruto, e não namoram/casam, não tem vida de casal, etc. Ai já vemos contradições.

    Em Genesis mesmo diz que o homem é quem controla a mulher, o desejo dela, ou seja, na hora do sexo ele é quem pega a mulher, a mulher no máximo incentiva, entendem?
    Depois diz que vão deixar pai e mãe, ou seja, crescerem, terem liberdade e independência, e se tornam uma carne, ou seja, sexo, que se consumado sem anticoncepcional geram outra carne, ou seja, filhos.
    Sexo só é imoral quando é forçado e sem vontade, sem amor e confiança, sem atração, ou seja, prostituição (qualquer tipo), abuso sexual, . pedofilia e outras filias, estupro, seitas, coisas macabras. Sacaram?

    O problema é que a igreja demonizou demais o ato sexual. Entendem também, o amor está em todo o lugar, não é regular e também não é monogâmico, aceitem isso. Uma hora vc ama só pela pessoa existir, outra hora vc ama como amigo, e outra hora pode amar como amante, mas vc não ama uma só pessoa de um jeito, vc pode amar muitas pessoas da mesma forma. Somos livres e independentes para que façamos só coisas boas, do bem e que sejamos do bem.
    Simples!

    Ninguém é de ninguém. Somos só amor e confiança, e só há a necessidade de justiça quando há pessoas que rendem ao mal

  2. Pepelawer
    08/05/2014 at 20:25

    Paulo, ótima leitura que me proporcionaste novamente.
    Tu achas que a (não se bem se devo chamar ) “ciência social”, utilizou-se deste mecanismo que já estaria enraizado na crença da civilização ocidental para alguma forma de controle da sociedade? Achas que surfaram na mesma onda da religião e usaram desta força cultural e religiosa para determinar por exemplo uma política de controle da natalidade e da “vadiagem”?
    Cumprimentos.
    J

    • 08/05/2014 at 20:57

      Jb,
      Ninguém se mantém no governo só pela força, é necessário a hegemonia ou algo que se aproxime dela. Para isso, não é a ideologia ou a doutrina que conta somente, mas as mentalidades – o fundo mais lento e menos racional, que está ligado a movimentos mais profundos da consciência social. Quem faz propostas de transformação social, deve saber isso, caso contrário, não sabe nada.

  3. Abílio José
    03/05/2014 at 10:55

    O penis gera vida, ele é um orgão para a reprodução da vida e da autoridade paterna.

  4. Maria
    28/04/2014 at 12:41

    Maravilhoso e corajoso texto!! Para quem não tem leitura, infelizmente a maioria do nosso povo, vc poderá ser tachado de louco!!

    • 28/04/2014 at 13:07

      Maria, se for o caso, acertarão, pois sadio o filósofo não é.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo