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25/09/2017

Por que ler Peter Sloterdijk?


Escrevi Para ler Sloterdijk (Via Verita, 2017) em forma de livro. Penso que em forma de breve artigo cabe falar também em algo como “por que ler Sloterdijk?”.

Sloterdijk é uma fonte de inspiração. Todavia, o elemento mais original de suas investigações, o que é propriamente exclusivo dele, é o que ele chama de antropotécnicas. Adotando a semântica das antropotécnicas podemos deixar de lado a incômoda e mal ajustada costumeira concepção do homem. Esta: o homem é um animal com uma capa espiritual. Podemos abandonar os vocabulários das teorias que acotovelam noções de “biologia” e “cultura” no sentido de explicar o homem.  As antropotécnicas implicam em um vocabulário capaz de repor, em uma narrativa mais atrativa, a filogênese e a ontogênese, ou seja, a história da espécie e a história do indivíduo, sem que tenhamos aquela incômoda e inútil conversa sobre o que é “cultural” e o que é exclusivamente “natural” no homem. O vocabulário novo das antropotécnicas vê o homem como fruto dessas técnicas de produção do homem, e que nos permite deixar de lado de uma vez por todas a ridícula fórmula da manuais de ciênccias humanas que, não raro, falam que o homem é um animal bio-psico-social. Afinal, Isso nunca nos disse nada, apenas nos fez ficar de modo tolo apontando paras as distinções mal arrumadas pelo hífen.

Desse modo, pode-se dizer que as antropotécnicas respondem ao desejo de Heidegger de encontrar uma nova linguagem, fora do Humanismo, para descrever o mundo e a nós mesmos. No lugar do vocabulário autorizador do “esquecimento do ser”, Heidegger gerou aquela narrativa que deveria voltar a ouvir o ser e que, para tal, iniciou-se por uma descrição da delimitação da “clareira”, ou seja, de certa maneira o “aí” do Ser-aí, o Dasein. Sloterdijk acredita que esse projeto se apega ao tempo, e isso ocorreria de um modo a não desenvolver todo o seu potencial. Na descrição do homem no estilo de Heidegger, o Dasein, o próprio homem é pressuposto. Se assim é, em correção, cabe uma investigação que apanhe o homem lançado ao aberto em sua espacialidade, e não só no âmbito temporal. Essa nova narrativa, que deve ter como centro a descrição das antropotécnicas, é chamada pelo próprio Sloterdijk de uma “antropologia fantástica”, uma vez que o espaço do qual se fala não é o dos geômetras ou os investigadores de cadáveres, e sim um espaço surreal. Esse espaço surreal apanha antes mediações que pontos, é antes de tudo uma teoria do meio, uma teoria da mídia, do que é a simbiose e a ressonância, termos queridos e centrais na obra do filósofo alemão.

Ontogênese e filogênese. Do modo como leio Sloterdijk, penso que ele pode ser visto como aquele que, no que diz respeito à ontogênese, leva a sério Martin Buber, e sobre a filogênese, tem em alta consideração Arnold Gehlen. Quanto a Buber, trata-se de notar sua predileção pela ideia de que as crianças já possuem um “instinto de relação”, e sua incisiva frase “o desenvolvimento da alma da criança é indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do tu”. [1] Quanto a Gehlen, é fundamental sua observação sobre a neotenia: o homem veio de um hominídeo que trouxe, pela evolução, traços infantis morfológicos e psicológicos para o indivíduo adulto representativo da espécie.[2] Para agradar os que gostam da linguagem das ciências humanas atuais: na ontogênese sai o modelo cartesiano do eu solipsístico e também o modelo habermasiano da intersubjetividade comunicativa, e entra então perscrutações uterinas no estilo das de Béla Grunberger; na filogênese sai o inatismo e também o construcionismo culturalista e entra uma teoria dos espaços de mimo de Thomas Macho.

Ontogeneticamente falando, cria-se uma “ginecologia negativa” para adentrar um tipo de microesfera, o útero, e ver que ali se forma uma subjetividade que é desde o início no mínimo dupla, uma relação que se faz por simbiose e por ressonância, e que vai gerar um indivíduo para todo o sempre relacional. O homem será sempre alguém com nostalgia do tu. Será sempre alguém que perdeu sua companheira placenta mas a substituiu pelo gênio, acoplando em seguida a mãe etc. Filogeneticamente falando, cria-se uma “antropologia fantástica” que mostra como grupos hominídios se isolaram e ganharam um espaço sem predadores, onde puderam cuidar melhor de suas crias, onde a mãe acabou cuidando dos esteticamente mais interessantes, sem dúvida os menos rápidos na maturação e que, enfim, incorporaram traços juvenis à espécie. Quando bebê, o homem sempre está destinado a um parto prematuro, pois sua cabeça cresce muito e ele acaba nascendo no último momento possível. Leva então dois anos em um exoútero. Ora, esse exoútero só foi possível de se desenvolver em um grupo de hominídios já capazes de usufruir de paz e condições climáticas e alimentares ótimas. Assim, nesse plano, o homem será eternamente um designer de interiores e um animal doméstico.

Seria assim que a filosofia veria o homem se, em determinado momento, toda a cultura valorizadora da placenta e valorizadora da vida comunal não fosse quebrada pela vida societária moderna e liberal e pela desvalorização da cultura da placenta por meio do higienismo médico e moderno. A ideia da individualização liberal associada a um mundo em que a própria liberdade individual se mostra como uma fuga do chão, do sujo e do complexo funcionou como um capa ideológica, não nos deixando mais ver como que o Dasein brota em sua clareira e é propriamente a clareira do ser.

Assim, nessa trilha, o mundo sloterdijkiano se constrói na explicação a respeito do arrojo do Dasein e numa crítica, devedora ao estilo iluminista e, de certo modo, frankfurtiano, aos aparatos ideológicos modernos. Neste afã corre a teoria das esferas e a conceituação de sujeito e liberdade para fora dos cânones que Sloterdijk batiza de “Internacional Miserabilista” – aquele que vê o homem, desde sempre, como pobre, sem recursos, miserável, vivendo num mundo em que nunca há ou haverá abundância. Todo esse trabalho, segundo o próprio Sloterdijk, é o de criar uma compreensão das reais fontes pelas quais há solidariedade no mundo. Por conta desse aspecto, ele próprio vincula seu trabalho às investigações próprias da esquerda[3], tomando essa acepção de um modo bem amplo.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 23/04/2017

[1] Buber, M. Eu e tu. São Paulo: Centauro Editora, 2013, p. 68.

[2] Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017, p. 195.

[3] Sloterdijk, P. Selected Exagerations. Cambridge: Polity Press, 2013, p. 110.

Vìdeo da fala de Lançamento do Para ler Sloterdijk no Instituto Dasein

Fala do professor Paulo Ghiraldelli no lançamento de Para ler …

LANÇAMENTO: fala do prof. Paulo Ghiraldelli

Posted by Filósofo Paulo Ghiraldelli on Tuesday, May 2, 2017

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6 Responses “Por que ler Peter Sloterdijk?”

  1. THIAGO
    25/06/2017 at 22:51

    Paulo, não sei se esse seria o texto mais adequado para eu comentar sobre, mas você tem muito ultimamente abordado o conceito da insustentável leveza do ser e da sociedade atual ser muito leve e sem peso real, mas aí pergunto: a filosofia apenas descreve e entende a realidade ou também oferece respostas e alternativas para as pessoas criarem novamente peso histórico, mas não da forma como o terroristas fazem, por exemplo?

    • 26/06/2017 at 00:19

      Thiago, leia meus livros, principalmente os últimos, talvez encontre uma resposta.

  2. Gordini
    03/05/2017 at 12:57

    Entendo que a solidariedade para Sloterdijk seria uma “alternativa” para essa problemática do homem pós-moderno. E isso o aproxima de Rorty, certo?

    • 03/05/2017 at 13:53

      Gordini, Sloterdijk está preocupado com as fontes de solidariedade, Rorty está ocupado com a solidariedade como fonte de objetividade.

  3. Tony Bocão
    03/05/2017 at 10:45

    Há chance de sair para kindle ?

    • 03/05/2017 at 11:02

      Não, o kindle brasileiro não barateia a edição.

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