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27/03/2017

Por que Jesus consegue aniversariar?


O embate entre a narrativa cosmológica judaico cristã e a da ciência teve seu auge no mundo letrado do século XVIII. No século XIX, então, muitos intelectuais disseram: a ciência derrotou de vez a religião. Foi o século do positivismo e que culminou com a frase de Nietzsche “Deus está morto”. Ou seja, do ponto de vista dos intelectuais, a própria metafísica havia perdido prestígio, a busca do absoluto teria ficado sem sentido e, então, um reflexo disso teria de atingir a teologia, derrotando-a de vez.

Para os letrados tudo isso efetivamente ocorreu. A universidade deixou de ser estruturada a partir da teologia ou da filosofia. Os intelectuais passaram a se comportar como os que sabiam que não era de bom tom conversar sem o vocabulário do positivismo e sem o charme do seu oposto, um certo ceticismo. Um ar blasé diante de conversas sobre o que é de Deus e o que é dos homens podia complementar o estilo. Em um mundo assim, com nações capazes de comportar entre suas populações esse tipo de elite letrada, a religião só conseguiu manter-se relativamente viva socialmente por causa de um elemento novo: a democracia liberal.

Liberalismo e democracia haviam começado um namoro desde o século XVII. Na entrada do século XX, esse namoro passou para noivado e, nos Estados Unidos, se já não era casamento desde a Revolução Americana (1776), assim se fez após a Guerra de Secessão (1881-1883), com o fim da escravatura no Sul. A democracia liberal trouxe para o mundo, principalmente a partir do século XX, a ideia dos ingleses do século XVII, com John Locke na dianteira: tolerância. Nada foi tão bom para os negócios que a tolerância, uma dádiva para a sociedade de mercado, depois de instituída, é claro (seu início, para alguns, podia ser uma grande intolerância, por meio do imperialismo). Essa tolerância reorganizou a convivência entre a narrativa cosmológica cristã e a da ciência.

O discurso liberal trouxe a chance de sofisticação da conversa em torno da Bíblia e da ciência. Paulatinamente, vários intelectuais começaram a perceber que nada haveria de problemático caso fosse possível dizer algo bem plausível a respeito do discurso bíblico: trata-se de uma narrativa não necessariamente mitológica ou mesmo ficcional, mas uma história (story) de cunho normativo, uma história moral. Mesmo quando quer falar factualmente, a Bíblia mostra que seu discurso é antes de tudo pautado por valorações bem definidas e conselhos bem claros. A ciência, ao contrário, busca a completa ausência de valoração, criando modelos explicativos assentados na descrição. Observar essa diferença é um imperativo de leitura. Bem, se assim são os novos princípios hermenêuticos de leitura da Bíblia, então só aqueles alheios a tal sofisticação é que, não percebendo a distinção entre tais gêneros literários, não iriam notar que estes não poderiam mais ser lidos dentro de um mesmo espaço lógico-semântico.

As grandes democracias ocidentais, ao longo do século XX, passaram então a empurrar suas populações para aceitar a narrativa da ciência como aquilo que todos deveriam saber a respeito do funcionamento do mundo, e ao mesmo tempo aceitar também as histórias religiosas capazes de munir todos de um conjunto cristão de noções ético-morais. Esse instrumento é que deveria fazer acontecer o convívio de grupos humanos tão distintos, agora existindo sobre o mesmo solo e sob o mesmo teto de leis e até mesmos costumes hegemônicos. Uma ciência e uma ética comuns, básicas, como elemento de uma educação fundamental – foi isso que as democracias liberais quiseram construir e, em parte, elas conseguiram realizar esse intento.

Essa vitória das democracias liberais ocidentais quanto a atingir seus objetivos de convívio entre ciência e religião (e entre religiões) é que nos permite, hoje, diminuir nossos questionamentos sobre fé e saber. No Natal, nos pomos a refletir um pouco e, na ignorância de cada um, emitimos frases que nada  são senão clichés de ateus de um lado competindo com clichés deístas, não menos asnáticos, de outro. Poucos de nós levam a sério tudo isso que falamos no Natal, principalmente na Internet, onde podemos ser suficientemente adolescentes para afrontar o outro munidos de Deus, o Diabo, o Agnosticismo ou o Ateísmo. Todos voltam a um tipo de ignorância ou à adolescência e falam aquilo que não iriam falar mais na Ceia de Natal, no interior da família. É farra apenas (eu sei que os mais tontos não sabem que é farra!).

Assim somos nós.

Em alguns lugares essa separação entre ética e ciência ocorre de um modo até que bem feito. Os avanços da escola pública, da imprensa investigativa, do mundo editorial laico, das universidades modernas tornam menos toscos os confrontos ainda restantes entre ciência e religião. Em determinados lugares, no entanto, só uma pequena elite compreende essa divisão do trabalho entre narrativas. Afinal de contas, em nosso país por exemplo, sabemos que há pessoas que não sabem ver novelas na TV, elas dizem frases do tipo “ah, só em novela mesmo!”. Elas se acham inteligentes por serem burras, ou seja, elas se acham o máximo por serem críticas, quando na verdade são apenas pessoas que não passaram por um bom ensino médio que as teria ensinado a apreciar discursos que não se colocam no mesmo espaço lógico-semântico.

Mas isso importa pouco, porque o Estado funciona dentro do registro que impõe a divisão de funções entre religião e ciência. Para determinados estados o que vale é a democracia liberal como elemento que sustenta, em parte, a economia de mercado. Ora, o mercado, para além da sofisticação ou não da educação de uma população, quer a tolerância, quer que as narrativas não se cruzem, quer que a moral vá por um caminho e a ciência por outro, de modo que nada venha lhe impor guerras. O mercado é um lugar de paz.

Assim, é pelo capitalismo associado à democracia liberal, ao menos até agora, que Jesus pode nascer todo 25 de dezembro nas casas dos ateus e estes podem ir à casa das sogras rezarem um pai nosso na Ceia. Não há problema. Aliás, isso evita problemas!

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

PS1: Estou dizendo com esse texto que os que vivem sob um estado teológico são menos inteligentes que nós? Em parte, sim, mas nesse caso estou usando o termo “inteligente” de um modo bem valorativo: eu gosto da liberdade ocidental. Um iraniano poderá dizer que sou apenas um pecador a mais e, talvez, burro.

PS2: Nietzsche foi quem disse que a ciência não podia ficar livre – essa sua sentença foi interpretada por muito como um autoritarismo vindo de seu conservadorismo anti-iluminista. Mas não é bem assim. Ela sabia o que estava falando. Vejamos!

Tudo que falei até aqui, no texto acima, não impede que religião e ciência pareçam estar, em determinados momentos, em conflito aberto com a ciência. O debate sobre o aborto parece ser um exemplo. A ciência pode vir com a estatística de que há muitas mulheres morrendo por aborto clandestino, que o aborto deve ser, portanto, descriminalizado. A ciência, ainda, pode trazer um dado a mais, dizendo que a vida, verdadeiramente, começa quando da formação de determinados tecidos no feto etc. etc. A religião pode, nesse momento, ser um freio à ciência. Mas não nos enganemos, não temos aí um confronto entre uma ética religiosa e a ciência, mas um confronto entre uma ética e outra ética. A ciência está fora disso. Ela aparece somente à medida que a religião, para falar de vida, invoca algo que para a ciência é sua inimiga, a metafísica: a questão de quando começa a vida é uma questão metafísica.

Lembram-se do debate sobre as células tronco? Muitos queriam que a prática fosse liberada, mesmo que o elemento doador das células fosse o feto humano. Os religiosos se opuseram. Isso, ao invés de atrasar a ciência, como quiseram dizer os que estavam à favor, foi benéfico: os cientistas trabalharam mais em métodos alternativos e descobriram que outros elementos, e não só o feto, podiam ser doadores de células tronco. Ao invés da religião impedir a ciência, ela a favoreceu.

É interessante notar que pensadores conservadores e religiosos – Pondé à frente – têm ficado sempre do lado da ciência nesses embates, quando a religião apela para motivos humanitários. Eles vociferam na imprensa palavras de ordem: “os movimentos alternativos querem atrasar a ciência” (foi isso que falaram, inclusive, no caso dos experimentos de laboratório, com crueldade, aos animais). Depois, quando a religião, pela sua ética, se mostra não um elemento prejudicial do avança científico, mas um elemento melhor para o avanço científico, eles se calam e mudam de assunto.

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11 Responses “Por que Jesus consegue aniversariar?”

  1. Toninho
    29/12/2013 at 11:05

    Não concordo quando diz que quem vive em um estado teológico, é pouco inteligente, para não dizer burro! Eu tenho plena certeza de que quem não vive com esperanças em um DEUS único e vivo, esse sim, está num estado deplorável, pois não tem esperança nenhuma. Você dizem não ter vida após a morte. Pois bem, digamos que você viveu 100 anos, esperando a vida somente aqui na terra. Morre e não há DEUS. O que você perdeu, nada! Mas, ao contrário, viveu 100 anos com esperança real em um DEUS vivo. Portanto leva uma vida de adoração, de respeito, de santidade, de ajuda ao próximo, de respeito as leis de DEUS. Morre e há um DEUS. O que você perdeu? nada. Vai viver eternamente com DEUS e sua morada celestial. Mas, digamos que você viveu 100 anos, esperando a vida somente aqui na terra. Desfrutando dos prazeres mundanos sem limite, não se importando com o próximo, e sempre falando o que quer, sobre qualquer um e há DEUS vivo e verdadeiro, o que você perdeu, TUDO! Pois não haverá lugar no reino dos Céus para você que não aceitou a JESUS como seu único salvador e Senhor! Pense nisso! Um abraço.

    • 29/12/2013 at 16:22

      Toninho, você é religioso demais, está envolto em uma esfera que é de difícil acesso. Está numa bolha. Mas, sua primeira frase está errada. Sua bolha também não permite você sair, não só a gente não entrar.

  2. Carlos Henrique de Oliveira
    27/12/2013 at 03:09

    Texto formidável. Funcionou como um chacoalho no cérebro para refletir. É aquilo que você já falou, Paulo: o capitalismo suaviza as relações sociais para favorecer o mercado. Muito bem!

  3. 27/12/2013 at 00:58

    Li, uma vez, que o “deus”, do aforismo “deus está morto”, seria o estado nos moldes como então concebido pelos contratualistas.

    • 27/12/2013 at 01:42

      Explique melhor, por favor, João!

    • 02/01/2014 at 11:48

      O que teria morrido, para o Nietszche, seria o Estado, o que se poderia entender como uma filosofia política de cunho libertária. Há fundamento em uma análise destas? Sei que o bigodudo já “serviu” para os anarquistas, no começo do séc. XX, para os nacionalistas alemães da década de 40, para os hedonistas da revolução dos costumes da década de 70, e minha dúvida é se alguém realmente já usou a ideia dele para fins liberais (menos estado).

    • 02/01/2014 at 12:12

      Eu havia lido isso em um livro. Agora fui procurar algo na internet e encontrei, na wikipédia, isso:
      Em O ópio dos intelectuais, Raymond Aron escreve:

      “ Nietzsche e Bernanos, este último um crente, enquanto que o primeiro proclamando a morte de Deus, são autenticamente não-conformistas. Ambos, um em nome de um futuro pressentido, o outro invocando uma imagem idealizada do Ancien Régime, dizem não à democracia, ao socialismo, ao regime das massas. Eles são hostis ou indiferentes à elevação do nível de vida, à generalização da pequena burguesia, ao progresso da técnica. Eles têm horror da vulgaridade, da baixeza, difundida pela práticas eleitorais e parlamentares.

    • 02/01/2014 at 13:34

      Por que não ler o próprio Nietzsche? Tudo isso é verdade, mas não significa muita coisa na filosofia de Nietzsche.

    • 02/01/2014 at 13:33

      É um pouco improdutivo procurar uma filosofia política em Nietzsche.

  4. L. Silva
    26/12/2013 at 14:12

    Já acabou, o menino já nasceu não? Agora podem parar de fingir mais do que o de costume, famílias.

    • 26/12/2013 at 15:21

      Ruim seu comentário, ou seja, dentro do cliché.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo