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09/12/2019

Por que há uma tatuagem naquela moça?


Schopenhauer e Pascal identificaram o “eu” como um vazio. Um buraco. Um poço sem fundo. 

De fato, se olhamos para o tal “nosso interior”, nada encontramos senão um fio de memória altamente volátil construído em um vocabulário que qualquer esclerose esgarça e aniquila. Uma pitadinha de Alzheimer e … pimba! Perde-se tudo. Uma mentira do vizinho e lá se vai, sem qualquer doença, nosso eu de embrulho.

Então, voltamos para a Aristóteles, queremos uma substância. Vamos nos agarrar a uma metafísica que nos diga que somos mais que um fio de memória destrutível. Entramos na modernidade tardia ou pós-modernidade assim, tranquilos, uma vez que temos algo que permanece, nosso eu substancial. Como? Simples: batizamos o nosso corpo de eu.

Mas um corpo todo mundo tem. Como seria um eu que só fosse eu mesmo? Ah, boa ideia: vou marcar meu corpo com uma tatuagem! Aí saberei que eu sou eu – aquele eu tatuado. E eis então que tatuo algo que não tem nenhum significado especial, pois ser eu não é especial, é nada. Schopenhauer e Pascal chutados porta afora voltam pela janela mostrando a língua!

tatto manProcuro desesperadamente tatuar outra coisa, algo “mais eu”. Ou, na linguagem pré-adolescente que muitas mulheres nunca perdem: “algo que seja mais eu, né?”. Quero ser uma caixa semântica ambulante para outros e para mim. Meu corpo tem a obrigação de ser um eu. Descubro então que a cada tatuagem o que consigo mostrar é que a semântica não é um campo confiável. O significado de ontem era mais volátil que o de hoje e sucessivamente. O próprio sol incidindo na tatuagem dá conta de me fazer esquecer o quanto a primeira tatuagem já era vazia, mas o esquecimento não aplaca a minha confusão e meu desejo vago de ver se dá certo meu plano de fazer o corpo ser o eu.

A tatuagem do marinheiro dizia de sua aventura e amores. Ele era um marinheiro porque tinha o que contar na tatuagem. Amores e sereias. Ilhas distantes e navios fantasmas. Piratas e porta-aviões. Nós nem navio e aventuras temos. Podemos tatuar o que for. Não teremos o “eu” de volta. Pois somos os que vivem em uma época de vazio do eu, de semântica de tolos e de marinheiros sem mar.

Popeye se sentiria ridículo em uma sociedade como a nossa, em que ninguém tem uma âncora tatuada no braço.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo.

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21 Responses “Por que há uma tatuagem naquela moça?”

  1. Dennys
    21/04/2016 at 12:04

    De forma simples, a tatoo ainda se trata de uma marca tribal a qual o individuo, e apenas o individuo entende pertencer, em alguns casos claro. Que pensa sobre Paulo ? A proposito, interessante o texto.

    • 21/04/2016 at 17:48

      Dennys esse “ainda” no seu texto deveria vir em itálico.

  2. Fábio Siqueira Lessa
    18/04/2014 at 09:53

    Paulo, gostei do texto, a marca na superfície da pele como que para dar substância. Sempre tive a impressão de que se trata de preencher um vazio, algo que falta, nesse sentido, faz pensar num sintoma, principalmente quando vira compulsão.
    Abraços

    • 18/04/2014 at 12:16

      Bem, Fábio, claro que não a análise filosófica e filosófica, ou seja, não psicológica. Não se trata de um vazio que esteja no indivíduo empírico, embora possa estar em alguns. É um vazio da subjetividade moderna, um vazio que se nota a partir da noção de “época”, “tempo”, “um tempo”, uma “era”, sempre entendendo que se trata de uma “ficção filosófica” que pode ser vista pela psicologia e pela sociologia, se essas disciplinas aceitarem conviver com “grandes teorias”.

  3. Pepelawer
    18/04/2014 at 08:24

    Grande texto, Paulo. Gosto muito do seu modo de pensar e de escrever,com o qual me identifico plenamente, apesar de ter que pedir licença para dizer isso.
    Talvez exista, mesmo que raramente a vertente de quem se tatua com fins artísticos (mesmo que no subonsciente esteja o desejo de se estabelecer o eu proprio), como de pintar algo numa tela em branco, simplesmente pela idéia de arte ou de beleza.
    De resto, acho a análise bem abrangente.
    Cumprimentos.
    J

    • 18/04/2014 at 12:18

      Pepelawer, veja a resposta que dei ao Fábio. Obrigado.

  4. William Euclides
    17/04/2014 at 15:14

    Paulo, muito bom o texto, como sempre. Mas eu tenho uma dúvida, será que já não ocorre um esvaziamento semântico da tatuagem quando ela sai do contexto do ritual tribal?

    • 17/04/2014 at 16:31

      William, sim. Mas veja, você tem de pensar a “tribo” de um modo mais sociológico, por exemplo, os marinheiros são uma tribo. Entende agora?

    • William Euclides
      17/04/2014 at 17:28

      Sim, verdade, podemos pensar os marinheiros como uma espécie tribo. Uma tribo que ainda possuia uma história pra contar, pois tinham uma vivência, uma experiência adquirida. Aliás, a própria tatuagem seria o resultado de uma vivência e convivência com povos de culturas diferentes. Bem diferente das tribos atuais que utilizam o símbolo pelo símbolo, sem nenhuma história atrelada e, com isso, sem nenhum significado.

  5. Alberto
    17/04/2014 at 14:42

    Paulo, gosto de tatuagens, apesar de não tê-las. Quando olho uma ou várias tatuagens em um homem, às vezes o cara pergunta por que estou olhando para ele, saiu de perto. Quando olho uma ou várias tatuagens em uma mulher, às vezes a mulher toma meu olhar como assédio, nesse caso, também saiu de perto. Considero a subjetividade estampada no corpo. O corpo é o outdoor. Podemos ou pode-se fazer do corpo, através de uma tatuagem, uma propaganda de um produto. Não vejo problemas nisso. A única coisa que vejo problema é a hipótese de sofrer uma surra ou ser denunciado quando olho para o corpo do outro.

    • 17/04/2014 at 16:32

      Alberto, mas eu não entendi a questão do “problema”? Eu tomei a coisa como “sintoma”. Sintoma de uma mudança na questão subjetividade moderna, uma tese velha minha, a da subjetividade como tendo mudado seu polo, se deslocando para o “corpo”.

    • Alberto
      17/04/2014 at 22:23

      Paulo, o problema é que já passei por poucas e boas olhando para as tatuagens de algumas mulheres e da mesma forma olhando para as tatuagens dos homens. Algumas mulheres, além de gostosas ainda fazem umas tatuagens que me deixam doido. Um dia hei de ser tatuador. Quanto a tese, de fato ela é tua, apenas não mencionei teu nome, mas sempre o faço quando me reporto a ela em outros meios.

  6. Mario Luis
    17/04/2014 at 14:36

    Paulo, pense. Não há ninguém neste Universo igual a você. Você é uma hecceidade. Um evento único que se atualiza no tempo e no espaço. Uma manifestação do cosmos e nele há de reintegrar-se integralmente. Há a ilusão do eu e do não-eu; Ainda que prefira chamar-se de corpo, tem uma condição que livra você dos desconstrutores do sujeito e os filósofos da mente que tentam erguer a si próprios pelas calças…sacou?

    • 17/04/2014 at 16:34

      Mario, não “saquei” nada, felizmente. Aliás, vou torcer para que ninguém saque nada disso aí. O mundo já tem muita gente “sacando”.

    • Mario Luis
      17/04/2014 at 19:13

      Hecceidade foi um termo criado por Duns Scott para indicar a individualidade, ou a realidade última do ente que determina e contrai a natureza enquanto matéria e forma – o tal do “corpo”, em algo particular. A hecceidade também é um evento, de natureza única, tal qual uma folha que num dado momento, cai dos ramos do galho de uma árvore. Existem milhões de folhas e de árvores, mas aquele evento, em particular, é único em si mesmo. Essa foi a analogia criada para situá-lo na questão levantada no texto e nada tem de pessoal.
      Afastando a infeliz ideia da coisificação do Homem, mas assumindo sua natureza ontológica, por um lado, e pelo outro expandindo as noções de potência aristotélica ao grau da atualização, temos que o ser se atualiza no espaço-tempo. Um evento, uma pessoa se atualiza no espaço-tempo posto que submetido ao Devir. Alguns Filósofos da Mente adotam posições asseveradamente científicas afim de alocar a consciência como um processo cerebral, em oposição a Filosofia Bergsoniana, por exemplo, onde há dualidade entre o Elán Vital e a matéria, ainda que as mesmas sejam formas contraídas e descontraídas de um fenômeno chamado Duração. Quanto ao sacou, vou substituir por, Pluridireciou.
      Pluridirecionou?

    • 18/04/2014 at 02:09

      Piorou bem. Acho que daí não passa. Ou melhor, se passar, é hospício. Não continue.

    • Mario Luis
      18/04/2014 at 15:21

      Agradeço o convite feito por e-mail para o evento no Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA) sobre a TEORIA DA SUBJETIVIDADE EM PETER SLOTERDIJK.
      Grande Abraço,
      Mario Luis

  7. Aldo Terêncio
    17/04/2014 at 12:44

    De tudo que é lido aqui ouve-se um grito: O seu grande problema com as mulheres.

    blábláblábláblá

    • 17/04/2014 at 12:55

      É talvez eu tenha um problema com as mulheres. Nesses 56 anos, dois deles eu já identifiquei: mulheres inteligentes gostam de mim. Mulheres bonitas me adoram. Agora, sobre o texto, ele não é sobre mulheres, mas sobre subjetividade.

    • gabriel
      17/04/2014 at 13:12

      perfeito Aldo Terêncio, tenho exatamente a mesma análise.

    • 17/04/2014 at 13:20

      Gabriel, cuidado a projeção heim? E cuidado também que logo logo você recebe beijinho no ombro. Não se denuncie tanto.

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