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28/02/2020

Por que filosofar?


A filosofia é grega e masculina. Com isso não estou falando sobre qualquer atividade de minorias sociológicas modernas, mas exclusivamente de um modo de ser do grego, definido por Péricles e recuperado por Hannah Arendt: “amamos a beleza dentro dos limites do juízo político, e filosofamos sem o vício bárbaro da efeminação”.[1]

Arendt comenta as duas partes do enunciado.

Primeiro. Os gregos se viam distintos de outros povos por conta de que o amor à beleza e à sabedoria lhes era dado pela circunscrição cultural, no caso, a da polis. Não se trata aqui de falar que a arte e a filosofia grega eram “engajadas”, atividades militantes, referências a narrativas que falam do poder etc. – tudo isso é moderno e nada tem a ver com os gregos. Nada disso. Trata-se apenas de dizer que a geografia da comunidade e sua história criam algo como que uma cultura, um ethos, um conjunto de costumes especiais e próprios, e somente nessa esfera se ama a beleza como um grego e se faz o amor ao saber – a filosofia.

Segundo. A filosofia é grega e não bárbara porque é antes de tudo uma prática masculina. E mais um aviso: não se trata aqui de um brado contra feministas (que adoram falar contra o “machismo”) em um sentido moderno. Não ser efeminado significa antes de tudo não ser viciado em detalhes e excessos esteticistas que levariam à escolha que não escolhe, ou seja, a incapacidade de mirar e avaliar o belo e a verdade. Decidir é uma atitude que o grego vê com viril, decidir com visão ampla e não detalhista, mais ainda.

Mas não é só isso. Acrescento um detalhe importante, talvez fundamental. A filosofia é grega, masculina e pederástica. E aqui, mais um aviso: a filosofia é gay, mas não no sentido moderno da palavra, em que ser gay já se manifesta no interior de uma minoria sociológica com direitos e proteções no Ocidente. Não! O gay grego não é plural. Ele não é o que se pode colocar segundo uma variação infinita de tipos capazes de colorir as Paradas do Orgulho Gay. Ele é um cidadão que tem por dever cívico, por pertencer à polis e ter sua atividade vital como atividade política, ou seja, ser da polis, não deixar que a juventude da polis se desencaminhe. Por gosto e também por ethos e política, a cada efebo amado, há atividade responsável de cuidar do garoto e introduzi-lo na sociedade dos adultos. É daí que surgem reuniões de homens que cuidam uns dos outros, e daí nasce a mais funcional – e talvez a única – instituição do Ocidente de educação da juventude (não da infância, mas especificamente do que hoje chamamos de pré-adolescência e adolescência). O amor à beleza e ao saber, o próprio filosofar que se faz sem efeminação, tem seu campo propício na relação pederástica. Sem a pederastia dificilmente a filosofia teria sido filosofia, uma atividade de confrarias urbanas.

Platão observou bem tudo isso, e por isso mesmo fez Sócrates titubear e, em seguida, tomar posição diante do erotismo que permeava a esfera que um dia se chamou Atenas, o habitat da filosofia. Fez isso no Fedro. Neste escrito, Sócrates faz um discurso louvando o ascetismo e, depois, arrependido e temeroso de um possível castigo de Eros, profere um segundo discurso dizendo que o correto não é o amado não se apaixonar pelo amante – como era a praxe pederástica –, mas corresponde-lo de modo completo. Cita então o mito de Ganimedes, o menino sequestrado por Zeus e possuído por este antes mesmo da chegada ao Olimpo. Sócrates faz o louvou do amor pleno, apaixonado, inclusive como loucura, e tece elogios a esta – o que irá ressoar de mil e uma maneiras, inclusive na abertura do Renascimento com a obra de Erasmo, Elogia da loucura. Em outros livros de Platão, Sócrates então chega a inverter a própria pederastia, onde coloca como regra, propícia à filosofia, tornar o amado apaixonado do amante, tornar o mais jovem cativo do mais velho. O procedimento filosófico de Sócrates, o elenkhós, como Nietzsche percebeu bem em O crepúsculo dos ídolos (chamando-o de dialética), nada era senão uma forma de sedução, uma inversão da relação pederástica, e então um campo de ampliação da curiosidade e fomento do agon, tão caro ao grego.[2]

Por que filosofar, então? Para namorar. Por que namorar? Para filosofar. Por que entre homens? Porque homens fazem parte da cultura e, portanto, da polis, enquanto mulheres fazem parte da natureza, uma vez que estão presas ao parto, à amamentação, às atividades que envolvem sexo como este se faz no campo animal, o sexo para a procriação. A mulher é natural, o homem é cultural – é assim no mundo antigo, especialmente grego, e nisso não há juízo de valor, mas adequação a conceitos nascidos da boa empiria. Ao homem há a prerrogativa do amor sexual propriamente específico da polis, como lugar de cultura, de vida grega. Filosofar é ampliar a condição do grego ser grego.

Sócrates imaginou o filosofar como uma espécie de lapidação do grego não para ele vir a pertencer a uma elite grega, ainda que ele tenha pensado nisso também, mas antes de tudo para que o grego pudesse ser o homem grego (Nietzsche disse, criticamente: salvar-se grego, já que não podia mais ser heleno). O homem grego não poderia cair na banalidade da natureza, no seu aspecto banal que é a repetição. O homem grego deveria escapar do banal, do repetitivo, e voltar-se para a criação.

A filosofia é grega, masculina, pederástica e criativa. Nasceu para isso, viveu para isso, destina-se a isso. Esse tema eu retomo de modo mais documentado em um livro que está no prelo, pela Editora Cortez, Sócrates: pensador e educador. Aguardem! Logo no final de maio!

Paulo Ghiraldelli Jr. é filósofo e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. É diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

[1] Arendt, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 267.

[2] Veja: Ghiraldelli Jr, P. A filosofia como medicina da alma. Barueri-SP: Manole, 2011.

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7 Responses “Por que filosofar?”

  1. Robson de Moura
    04/03/2015 at 14:49

    Bom demais!!!

  2. 27/02/2015 at 08:01

    Professor, referencia pra mim. Dá até vontade de errar pra ler seus escritos e corrigir as arestas. Abraço!

    • 27/02/2015 at 08:59

      Paim! Referência? Explique.

    • 27/02/2015 at 19:28

      Bah! É a quem me refiro quando penso e falo em coragem, dedicação, desengajamento e precisão em filosofia, sobretudo na educação filosófica, mas principalmente, por propiciar a busca de um ponto na qual se pode superar um mestre da sua envergadura, afinal, paga-se mal a um mestre da filosofia sem querer ser um par.

    • 27/02/2015 at 23:44

      Ah, entendi a expressão!

  3. Claudio
    26/02/2015 at 15:21

    Cara! Eu te adoro!!

    • 26/02/2015 at 15:42

      Claudio quem gosta de mim é inteligente. Não sou carne para qualquer apetite.

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