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17/12/2017

Por que é a direita, agora, que ataca a Globo? A nova inveja social.


Antes era a esquerda que atacava a Globo mais abertamente. Os slogans usados eram esfarrapados, nada além de clichés ridículos: “a TV aliena” e, pior, “a rede Globo é de direita” ou, pior ainda, “a Rede Globo cresceu durante a Ditadura”. Misturavam-se aí jargões da esquerda internacional e até mesmo do campo teórico formado por pseudo-saberes estritamente nacionais. Agora, nesse ano de 2017, a direita claramente ocupou o lugar da esquerda no entrincheiramento anti-Rede Globo. Nesse caso, a falação não tem viés teórico gerado por pseudo-saber, é apenas falação rude, gritaria histérica contra a liberdade da arte associada a uma panfletagem absurda do tipo “Globo comunista”, TV que vai “acabar com a família tradicional” etc. Como explicar esse segundo caso?

O diagnóstico é simples. Hitler era um loser. Seu bando era de losers. A direita sempre arrebanhou seus quadros entre os inadaptados à vida moderna liberal. Portanto, nossos reacionários de hoje nada inovam. Eles vem do campo da produção da inveja, do ressentimento, do infortúnio produzidos pela impotência de massas diante de modificações da modernização. Sabemos disso, mas temos que atentar para um tal diagnóstico com mais cuidado, porque ele não se casa com parte da filosofia política que dispomos para entender o fenômeno da inveja na modernidade. Explico.

A interpretação clássica da inveja no campo da filosofia política, na análise do advento das sociedades democráticas, pertence a Tocqueville. Foi ele que, no célebre A democracia na América (1835), levantou a tese de que sociedades mais igualitárias criam a possibilidade de se olhar ao lado, considerar-se igual aos que em regimes aristocráticos não seriam iguais, e então poder universalizar o modo de percepção comparativo. Numa sociedade assim, todos se sentem no direito de olhar ao lado e  acreditar que deveriam ter o que o vizinho tem, e também que o que este possui pode até ser melhor do que aquilo que se possui. A frase desses tempos é “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Essa interpretação continuou e fez escola. Muitos pensadores – às vezes tidos como conservadores – anunciaram o aumento da inveja em sociedade afluentes, democráticas e em grande desenvolvimento. Mas as coisas não pararam aí.

Só para citar um exemplo de mudança de abordagem, evoco o livro de Gilles Lipovetsky, A felicidade paradoxal (2006), em que o autor faz uma análise do consumo e mostra que o hiperindividualismo atual passou por cima da inveja vinda da aquisição de bens. As pessoas consumem, hoje em dia, para o uso individual, quase que solitário, e buscam um tipo de satisfação de uso de produtos que tem a ver com corpo, conforto solitário, single style. Aliás, escrevi em outro lugar como que uma história dos comerciais de TV pode mostrar bem isso (O indivíduo e a “sociedade de consumo”: características da contemporaneidade). A conclusão que Lipovetsky tira a respeito da situação atual da inveja é que ela diminuiu, se tornou quase impotente se comparada com o passado retratado no início de nossas sociedades industriais liberais, mas que não se esgotou. Deslocou-se dos bens materiais para as posições de visibilidade social, um certo tipo de fama e “famosidade”, própria de um hiperindividualismo recoberto pela ampliação das mídias eletrônicas que anunciam a felicidade da vida particular.

Nesse caso, para entendermos o que resta para o ressentimento e para a inveja, devemos recorrer a uma terceira situação vigente em nossos tempos, em especial em uma sociedade como a nossa: a ideia de “sociedade da transparência” ou sociedade da visibilidade máxima. Quem chama a atenção para essa condição é o filósofo germano coreano Byung-Chul Han. No livro Sociedade da transparência ele lembra o excesso de positividade de nossa vida atual, nossa capacidade de continuar a perspectiva de Rousseau de secundarizar uma sociedade de máscaras, de cultivo da hipocrisia, para uma sociedade incapaz de cultivar a privacidade e ter de seguir o rumo da mercadorização, ou seja, cumprir o destino que elege a vitrine como a arquitetura de todos os lugares e casas. Se assim é, o ressentimento e a inveja, no que restam, são produzidos à medida que se faz necessário ser mostrado mais amado e “querido” que outros, com mais visibilidade que outro. Pois a própria ontologia, como Debord já havia dito em A Sociedade do Espetáculo (1992), não tem mais vínculo com a dicotomia “ser versus ter”, e sim com o “aparecer”. Sou alguma coisa se sou visível de todos os lados. Sobra então para os não vistos, para os que caíram no lugar comum do esquecimento, a inveja e o ressentimento.

É claro que, numa situação assim, os grandes meios de comunicação instituídos, que parecem reter intelectuais e artistas (os que pela cultura mais sofisticada aparecem), emerja como  objeto dos olhares impotentes, a visão hospedeira do novo ressentimento e ódio. Nesse caso, ganha espaço o neofascimo em associação com lideranças populistas à direita (mas que, nesse campo, diferem pouco da esquerda). É assim no mundo todo. É mais ou menos assim que a direita reaparece no mundo todo, seguindo líderes populistas de todo tipo.

No Brasil essa regra se cumpre, mas com um agravante: a desescolarização generalizada ou semi-escolarização generalizada de camadas da população que, impotentes, se agarram ao mecanismo da impotência par excellence: a Internet. Essa impotência é de tal ordem que a direita, uma vez gritando nessa mídia, chega a criar mentiras para ela mesma, e passa a viver essas mentiras. Apresenta artistas punidos quando não foram. Apresenta a Rede Globo como empresa falida (!). Divulgam posteres com falsificação sobre museus de arte e peças de teatro e, o mais engraçado, contam histórias onde cada internauta, com seu blog, se comporta como dono da Forças Armadas, para a qual pede intervenção em tudo e… consegue! O indivíduo mora no lugar da Intervenção Militar inexistente, mas que no blog dele aparece como acontecendo! Malucos desescolarizados de todo tipo enxergam “comunismo” e “pedofilia” em tudo, perdem qualquer capacidade de avaliação, e se entregam a gurus tão estúpidos quanto eles. Acreditam em tudo que vem da Internet que favorece o espetáculo do que não está ocorrendo. Pessoas que cultivam o ET de Varginha são bem mais sadias mentalmente!

O ilusionismo provocado pelo auto-ilusionismo da Internet, que dá a impressão que um membro da patuleia pode “falar para o mundo”, se exacerba assustadoramente. Nessa hora, quem tem algum canal de aparecer mais na Internet, pode liderar essa camada enorme de impotentes, os desconhecidos do mundo, os que se orgulham se serem repetentes escolares. Eles ficam enlouquecidos e fanáticos ao verem que um desescolarizado ganhou fama, mas não está nos meios de comunicação comuns, e eles então apostam suas fichas nesse indivíduo. Este indivíduo é, então, um exemplo deles mesmos que parece ter dado sorte. Ele alimenta a ideia de que é possível ser alguém, que dá a impressão de ter lido livros, e que aparece para a fama mesmo sob o infortúnio da desescolarização. Vira um novo Deus. A evasão escolar vira troféu. Dizer-se autodidata vira uma glória. O ódio à Rede Globo (nada diferente do ódio contra a USP) se torna condição sine qua non para se dizer alguém com autoridade para falar.  A própria Rede Globo, aos olhos dessa gente, deixa de ser uma empresa que vende jornalismo, teledramaturgia e entretenimento, e passa a ser um poder instituído por algo mundial, internacional, cujas lideranças vieram do “comunismo Internacional” que, agora, talvez se esconda em bunkers na Sibéria para fomentar o “marxismo cultural” (!)

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 11/10/2017

 

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3 Responses “Por que é a direita, agora, que ataca a Globo? A nova inveja social.”

  1. Marcos
    12/10/2017 at 18:57

    Desculpe a ignorância, mas tenho uma pergunta a lhe fazer que não tem absolutamente nada a ver com o texto e que faz muito tempo que gostaria de descobrir. O que vem a ser a palavra RÓSEA!

    Tenho uma base filosófica e sociológica razoável, mas esta palavra já vem algum tempo me incomodando, pois não consigo achar seu significado.

    Agradeço a atenção,

    Ghiraldelli.

  2. Eduardo Rocha
    11/10/2017 at 21:55

    Posso estar enganado, mas as obras de Freire foram escritas ainda em um período em que a internet ainda não era como hoje ou que nem existia. O que isso poderia modificar na pedagogia dele? É possível pensar em um outro Freire no séc. XXI? Um Freire desconstruído e aí sim, redescrito?

  3. Andre
    11/10/2017 at 13:42

    Engraçado que antes a Globo era de um clã neoliberal que queria instituir a nova ordem mundial, controlar todos e manipular a população para o bem dos capitalistas.

    Em um primeiro momento poderíamos imaginar que educação seria uma forma de minimizar esse problema, mas vejo muitas pessoas de formação, advogados, engenheiros, médicos, economistas, etc com esse discurso.

    Há meios para contornar o problema? Como conscientizar as pessoas que para falar de determinados assuntos é preciso estudar um pouco? Ignorância e arrogância estão destruindo o mínimo de racionalidade.

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