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28/06/2017

Por que e como o PT se tornou corrupto?


A despeito dos bons homens e mulheres que construíram um dos maiores instrumentos de democracia criado no Ocidente no segundo quarto do século XX, sabemos que o PT hoje é um aglomerado que funciona na base da corrupção, e em função dela. Ninguém tem dúvida disso. Os oposicionistas à direita não duvidam, porque sabem do que falam quando falam de como assaltar o erário público. Os petistas também, porque nenhum espelho mais os consegue enganar, e boa parte deles ficou bem de vida e encheu seus apartamentos de espelhos.

Francisco Weffort usou esses dias uma boa imagem para falar do PT, partido que ajudou a fundar e do qual não foi um simples militante, mas seu presidente, e do qual não saiu por nenhuma briga (!). Ele disse que o governo petista funciona, quanto à corrupção, como caixa de lenço de papel, se você puxa uma folha vem um monte junto. Não há fábrica de lenço de papel que dê solução nisso, até porque se trata de um bom modo de fazer o consumo ficar mais rápido e maior.

Todavia, o modo como nossos sociólogos de plantão junto com cientistas políticos e até filósofos meus amigos tratam a corrupção do PT usa um modelo velho, não faz justiça ao que o grupo de Lula trouxe para o cenário. O Brasil não é só vítima de uma cultura da corrupção, como diz o próprio PT para esconder rostos individuais. O Brasil não é só o lugar em que Zé Dirceu planejou uma boa parte da corrupção, que é a imagem usada por alguns à direita e à esquerda. O Brasil não forjou, com o PT, a corrupção na base de uma quadrilha bem organizada (se fosse bem organizada não daria tanta bandeira nem iria para a cadeia!), como diz a Veja e a direita que tem, sempre soubemos, incapacidade de pensar para além das abobalhadas teorias da conspiração, aliás, mutatis mutandis iguais às da esquerda que fala da entidade fantasma chamada “o Capital Internacional” etc. Nada disso. O que há de novo no PT é o velho no exterior no tempo dos PCs. Vingou em outros lugares em que o modelo de partido de esquerda leninista ou neoleninista se fez hegemônico. E um tal problema advém sim de uma interpretação fácil do escritos de Marx.

Resumindo ao máximo: o marxismo traz em si, embutido, a ideia do proletariado como classe que pode romper com a ideologia vigente que cega a quase todos, porque vê as coisas menos ideologizadas, uma vez que pode descrever a história com interesses classistas, mas sem véus no sentido de proteção da última classe dominante, a burguesia. É claro que o partido, então, como representante dessa classe de homens que enxergam bem, é o grupo depurado dos que enxergam melhor, e dentro do partido é a cúpula que  que tem menos véus ainda e, por fim, o “secretário geral” é quase que uma imitação do Rei Filósofo, que vê a Verdade de um só golpe, podendo sempre contemplar o Justo e faze-lo vingar. Nem mesmo é uma imitação, eu corrijo; é sim um pastiche do personagem de Platão. Mas, por isso mesmo, tem força. Homens que são pastiches já no útero da mãe crescem e adotam o modelito mais apropriado às suas anatomias.

Homens assim nunca se corrompem, embora roubem. Não são santos padroeiros, mas são santos, são santos ladroeiros.

Foi assim que o PT fez em todos os casos de corrupção: pegou um grupo, um tesoureiro aqui e outro acolá, e tramou abocanhar dinheiro público para pagar aliados. Como osBrodskiy's_Lenin “aliados” eram gente que só funcionava comprada mesmo, sem ideal algum, gente da “pequena burguesia decadente”, ou seja, o “baixo clero do Congresso”, nada mais justo que suborná-los para “fazer o que tinha de ser feito”. Caso não se fizesse isso, a oposição faria – assim se autojustificaram. Esse foi o passo dado no “mensalão”. O caso agora, da Operação Lava Jato, funciona de maneira parecida, mas não igual. Aqui o roubo foi feito já desde início para financiar partidos mesmo, principalmente o próprio PT, e de modo que muito mais gente podia desconfiar, uma vez que cada deputado que não ficava espantado com a capacidade de seu tesoureiro de lhe arrumar dinheiro era um tonto. Ora, há deputados estúpidos, burros, mas tontos nesse sentido não há. Também aqui a desculpa para si mesmo pode ser dada pelo vanguardismo: “temos de fazer uma campanha com dinheiro público, roubado, porque se trata de um roubo que não é para cada um de nós, mas para a causa do socialismo ou a causa dos pobres” – que viva São Paulo e Lênin, poderia dizer aqui Cioran! Mas “e se colocarmos um pouco em contas no exterior, para nosso gasto pessoal, é crime?” “Não!” “Temos sempre de ter uma reserva, pois e se a direita dá um golpe (a obsessão com a invenção chamada PIG), temos o dinheiro lá fora para nos reorganizarmos e voltar para salvar o povo, os pobres”.  Fácil fazer a barba no espelho não?

Sim, é desse modo que o petista pode olhar para si mesmo e nunca se emendar, e nunca deixar a caixa de lenços do Weffort dar um lenço só. Marx tem culpa? Tem, claro, ele deixou essa ponta para ser pega, ela foi pega por outros partidos marxistas ou treinados no marxismo no passado. Mas, por outro lado, Marx não tem culpa, ele nunca imaginou que algo como um aglomerado de esquerda pudesse vingar nos trópicos. Os trópicos eram lugar de foder mesmo, não num sentido metafórico, mas real. Abaixo do Equador, sempre se soube, nada era pecado.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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9 Responses “Por que e como o PT se tornou corrupto?”

  1. Estevan Pratz
    02/03/2015 at 01:38

    Belo texto. Talvez o erro de Marx foi não ter sido suficientemente dialético e reflexivo, não ter imaginado o impacto que sua teoria fosse causar no mundo, já que ela é poderosíssima em seu discurso, porém Marx não disse uma só sílaba sobre esse poder.
    O que aconteceu foi que gente com mais capacidade que a média dos trabalhadores, seus discípulos, se apropriaram de seu discurso e com ele montou sua própria base de poder. Uma vez tendo o Poder, tudo o mais, inclusivo os ” pobres ” se torna mero detalhe.

    • 02/03/2015 at 08:21

      Estevan! Não e não. É inerente ao marxismo a teoria das classes e ideologias como eu expliquei. Acho que você não entendeu o texto porque não leu Marx. Precisa ler um pouco sim. O marxismo é uma filosofia de respeito. Mas ele tem uma dívida para a teoria do sujeito moderno, que o complica.

    • Estevan Pratz
      03/03/2015 at 02:29

      Certamente que minha leitura da Marx é muito superficial ( li o livro 1 do Capital e o Manifesto ), confesso que não tenho o menor gabarito para criticar o marxismo. Mas você mesmo ao final de seu texto disse que Marx deixou uma ponta solta, que é a questão da teoria do sujeito, chamariz para todo tipo de demagogia. Mas realmente a análise que Marx faz do capitalismo como um sistema que, ao contrário do que muita gente diz, é um sistema irracional e não somente injusto, devido a suas contradições imanentes, é bastante pertinente, servindo até hoje como poderosa ferramente filosófica. O que eu quis dizer quanto a lacuna dialética existente na obra de Marx é o fato de que ele não previu que o Capital iria, em resposta a Revolução Russa, fazer uma espécie de ” recuo estratégico “, concedendo pensões aos trabalhadores, criando direitos sociais tais como direito à educação, à saúde, benefícios trabalhistas, etc. Em suma, a Revolução de certa forma ” humanizou ” o Capital, num movimento claramente dialético, coisa que Marx sequer sonhou que poderia acontecer, impedindo a abolição da sociedade dividida em classes, por meio da corrupção da classe trabalhadora.

    • 03/03/2015 at 02:40

      Estevan sinceramente acho tudo isso que você escreveu uma bobagem imensa, não sua, mas da análise corriqueira sobre Marx previu ou não previu. Nenhum filósofo e muito menos Marx trabalho como “previsor”. Marx jamais pensou em prever. Ele era um historiador e filósofo. Historiadores escrevem sobre o passado, não sobre o futuro. O futuro é conjectura a partir do passado, mas não é previsão. Meu Deus do Céu, é incrível que eu esteja tendo de conversar sobre isso em 2015!

  2. Antonio Fausto
    01/03/2015 at 19:27

    Professor, em tempos onde toda análise nos jornais e outros parte mais da má-fé do que de uma boa vontade de compreensão e análise mais complexa, seus textos são um lugar onde a gente pode vir desembaçar as lentes do cotidiano. Obrigado!

    • 01/03/2015 at 22:21

      Antonio não sei se é má fé, é que a imprensa é politizada e não tem a pegada intelectual filosófica.

  3. 01/03/2015 at 09:12

    Desculpe, errei a grafia de seu nome: por favor, corrija para o correto “GHIRALDELLI”. Abraço!

  4. 01/03/2015 at 09:10

    Pois é, meu caro Qhiraldelli, assim fez o PT, justificando-se na ideologia da “revolução proletária”; e assim fizeram e FAZEM todos os partidos grande e pequenos desse Congresso, exceto raras excessões, que vêm roubando e enganando o povo desde Cabral!

    Não acho justo que só o PT pague por essa roubalheira histórica, mas assim condena a grande mídia dioturnamente!!!

    Encontraram um bode expiatório para, não justificar, continuar escondendo seu roubo e mentira, inclusive a Globo, que deve impostos ao erário público!!!

    • 01/03/2015 at 13:00

      Chico! Chico! Chico! A culpa não é do FHC pelo que o PT fez. E muito menos a corrupção é “de todo o sempre”. As corrupções são históricas. No momento vivemos a do PT. A do FHC e a de Geisel tiveram seu tempo E A MÍDIA DENUNCIOU, você é que não quer pegar os arquivos e ler, é mais fácil lembrar da corrupção e esquecer a mídia, já que o PT ensinou você e seu PSOL a atacar a mídia e, com isso, seguir o populismo. Chico ser do PSOL é ser um eterno militante do PT, talvez a parte pior do PT não em termos de honestidade, mas de doutrina.

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