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20/10/2019

Por que Deus existe? Por que Feliciano existe?


Em um recente “Hora da Coruja” (Flix TV), a filósofa Olgária Matos lembrou que os gregos não falavam de nós como “o homem”, mas como “os mortais”. Ora, podemos acoplar a essa observação uma outra, também da nossa tradição. Na mitologia judaico-cristã, na Bíblia, ao ser expulso do Paraíso, Adão ganha sua condição de mortal. Tanto no veio helênico quanto no nosso veio judaico, a cultura ocidental tem o divino como o imortal, de modo que nós somos os mortais, isto é, os limitados. Essa ideia religiosa nunca saiu do eixo da filosofia. Chego a duvidar que exista alguma filosofia que seja outra coisa que não uma investigação e uma prática a respeito de como encontrar a perfeita maneira de viver a finitude.

A religião tem em Deus um ensinamento: o divino é o imortal, nós somos os mortais. A filosofia transforma isso na seguinte máxima: saber-se não Deus, e sim mortal, é um passo do saber viver, os outros passos dependem de cada específica filosofia. De Sócrates a Aristóteles, dos estoicos, epicuristas e céticos aos filósofos cristãos, de um Descartes a um Nietzsche passando por Sade, a filosofia foi outra coisa que não a busca da compreensão da utilização do tempo? Como bem usar o tempo para saber viver na condição de quem tem a vida datada? Que se aprenda isso dogmaticamente pela religião, para quem assim acha melhor. Que se aprenda isso pela filosofia, para quem acha melhor.

Por isso Peter Sloterdijk diz que é Husserl, com a “epoché”, quem faz a essência da filosofia vir à tona de modo explícito. Temos de saber suspender juízos, se queremos ser filósofos, pois esse adiamento do engajamento é nossa possibilidade de aprendermos a viver segundo a compreensão da vida. Ou seja, justamente por sermos mortais, temos de usar bem o tempo e não nos engajarmos segundo critérios meramente hormonais.

Eis aí a razão da filosofia. Eis aí a determinação da religião. Nesse caso, eis aí Razão e Deus dando seus porquês.

Nisso tudo aí, entra a tosca figura do deputado pastor Feliciano! (Calma!).

Feliciano está sendo ameaçado perder sua condição de pastor. Por que cargas d’agua um tipo repugnante como Feliciano pode perder a condição de pastor (quem lhe deu esse título?!), após fazer todos os pecados do mundo sob qualquer crivo religioso e moral, somente por uma entrevista na revista Playboy? Disse ele coisa a mais do que já se sabia? Disse ele algo muito ruim, para além da barbárie que é sua própria atuação na sua igreja? Claro que não! Então, a questão é a revista, que é uma revista “de mulher pelada”.  O sexo é uma coisa que se deva proibir na religião, de alguma forma.

Muitos não sabem a razão da proibição do sexo na religião. Eu sei. E eu tenho tentado em alguns escritos mostrar como que o pecado original e o sexo, não ligados, foram relacionados com Agostinho por meio do descontrole dos desejos e descontrole corporal, como castigo pelo Pecado Original (veja aqui). Não quero voltar a esse assunto. Quero só lembrar que há proibições em toda moral, e a religião cristã, devassada pelas igrejas caça níqueis onde nada pode e ao mesmo tempo tudo pode, precisa recorrer a uma última coisa efetivamente restritiva. Pois uma religião sem religiosidade é ainda religião, ao menos na cabeça de desescolarizados ou mal-escolarizados, se segura nas mãos um rol de proibições. Uma religião caça níquel, uma religião esgarçada e esvaziada de conteúdo, precisa se agarrar ao menos a um item de proibição para indicar ao menos uma coisa como pecado. O que sobrou do entendimento de religião, para os toscos sustentadores de pastores é justamente isso: dê-me um pecado ao menos e, então, eu entenderei, na minha cabecinha, que se trata de algo que na minha família chamam de religião. Pode ser o simples pecado de mencionar o sexo – ou seja, um pecado das palavras.

É exatamente isso. Feliciano faz parte disso. Ele precisa ter ao menos uma coisa como pecado. Dado que nada mais é pecado, que seja pecado, então, a entrevista em revista que tem a foto do sexo exposto, pois isso pode bater nas entranhas da mentalidade popular como uma reminiscência da ligação – já desconhecida por todos – da relação que Agostinho fez entre pecado original e desejo.

Não sobra daí mais nada da ideia do bem viver, do viver em regime ético, de obediência ao ethos, já que não há nenhum ethos. Sobra apenas um … um comando, digamos assim. Um comando só para um tipo de bicho que não pode ser treinado em mais que um comando (a galinha?). Se há ainda um comando, um pecado, há ainda o que posso lembrar como sendo igreja – é o lugar que vou para obedecer a Deus que diz para mim, sexo é feio para você, e para o pastor é feio dar entrevista na revista que fala de sexo.  Pronto, tudo resolvido.

A deterioração da religiosidade de um povo é a perda de ethos de um povo, e está diretamente relacionada ao seu nível de comprometimento com sua cultura mais elaborada. Deus só existe para povos cultos. Para povos que perderam sua condição de povos, sobra o macete, o deusinho da proibição de uma ou outra palavra.

A igreja caça níquel não é a deterioração da vida sonhada pelos sábios gregos e judeus.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez 2014).

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4 Responses “Por que Deus existe? Por que Feliciano existe?”

  1. Robes da Silva
    09/05/2014 at 09:14

    Feliciano é repugnante.

    “a aids é um câncer gay e os Africanos são amaldiçoados”

    Feliciano twitter

  2. Pepelawer
    08/05/2014 at 20:37

    Paulo, desculpe a pergunta de leigo:
    A religiosidade quando exercida conscientemente como forma de admiração, louvor a vida, ao mundo e a qualquer forma de espiritualidade estaria em conflito com ou poderia ser considerada uma forma de filosofia? Há um divisor claro entre o que é considerado razão (pensamento racional) e o que é considerado fé e crença religiosa. Eu com minha ignorância reafirmada imagino ter que deixar de fora nesta pergunta a ciência e o pensamento cartesiano, ou não?.
    Cumprimentos,
    J

    • Pepelawer
      08/05/2014 at 20:39

      Falta um ponto de interrogação após a palavra “religiosa”,
      desculpe.
      Cumprimentos.
      J

    • Pepelawer
      08/05/2014 at 20:40

      Falta um ponto de interrogação após a palavra “religiosa”,
      desculpe.
      Cumprimentos.
      J

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