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28/02/2020

Política na base de Richard Rorty: mulher no ministério


Até pouco tempo atrás, quando alguém queria falar em transformações, orientado pela visão da filosofia política, usava de metáforas radicais.

Foi por essa via que o Além-do-Homem de Nietzsche e o Homem Novo do marxismo fincaram pé na linguagem. O final do século XX trouxe mais comedimento ao vocabulário. Diante das falências de credibilidade das filosofias da história, vários filósofos procuraram metáforas de transformação de voo não tão alto.

Nas duas décadas finais do século XX, Richard Rorty trouxe a ideia de “versão melhorada de nós mesmos”. Agora, é fácil encontrar essa expressão no meio televisivo, inclusive em novelas. Essa peça do vocabulário rortiano veio junto com a sua estratégia de redescrição: não queremos que no futuro sejamos transformados em algo irreconhecível, mas queremos ser nós mesmos, porém melhorados. Deixa-se aí um espaço aberto para a conversa do que é ser melhor e, assim, o projeto utópico não se torna uma camisa de força que, durante todo o século XX, aprendemos a duras penas que havia sido uma má pedida. Cabe irmos nos redescrevendo e nos ajustando à redescrição para tentarmos sermos melhores.

Muitos compreendem isso, mas me perguntam como tal coisa é operacionalizada no campo dos movimentos sociais e da própria prática política. Como operar com a estratégia de Rorty? Um exemplo bem claro e atual ajuda no entendimento.

No momento atual, os destronados do Planalto reclamam que os entronados não reservaram espaço para as mulheres nos ministérios. A resposta para os destronados, então, pode vir de duas maneiras, uma negativa e outra positiva. A primeira consiste em dizer que os ministérios não são o Congresso Nacional. No parlamento há a representação como imperativo, nos ministérios o critério não necessariamente passa pela representação de minorias sociológicas, a não ser em alguns casos especiais.  A segunda resposta, a positiva, é diferentemente melhor. Pode-se admitir que há de fato falta de mulheres no ministério e, então, fazer o convite para alguma mulher competente e que esteja para além do projeto destronado. Isso não iria agradar os diretamente destronados e seus partidários, mas agradaria certamente a maioria dos que esperam do novo governo ações que o façam algo melhor do substituído em meio do caminho.

Assim, pode-se redescrever a situação,  incorporando a reclamação de gênero, e dando espaço para uma mulher, mas não para o tipo de mulher propagado pelos destronados. O objetivo é redescrever para tentar emplacar o que seria uma versão melhorada da participação da mulher no governo. Uma tal ação é legitimamente rortiana se feita com boa intenção e com desejo mesmo de mudanças para melhor, mas também pode simplesmente redundar em retórica barata, de ceder para uma mulher qualquer, talvez até despreparada, só para calar a boca da oposição. No segundo caso, a ação será desaprovada por mais gente do que se espera. Pode ser, inclusive, um tiro pela culatra.

Os situacionistas atuais podem se sair bem, por exemplo, se fizerem um convite para Janaína Paschoal ocupar a CGU. Ela cumpriria todos os requisitos necessários em uma estratégia rortiana: seria uma versão melhorada da participação da mulher no governo: liberal e anti-Lula em um governo liberal e anti-Lula, além de figura vitoriosa no embate com Dilma; bem diferente de Kátia Abreu, defensora do agro-negócio num governo que se dizia popular, e visivelmente incompetente. Seria uma resposta não direta para a oposição, mas para a população, para as mulheres em geral, que tenderiam a ver como uma boa escolha, inclusive pelo prestígio da Janaina no meio da população que, no momento atual, se tornou majoritariamente anti-PT. Do meu ponto de vista, inclusive, uma decisão acertada se pensada sob critérios exclusivamente técnicos.

O exemplo está aí. Assim atuaria um rortiano.

Caso o governo fosse melhor, ou seja, com um corpo ministerial ao menos sem indicados na Lava Jato, eu lançaria uma campanha por Janaína Paschoal para a CGU. Como o governo é um governo de transição, fica a ideia, mas não o meu desejo pessoal que vingue, uma vez que gosto da Janaína, que é minha amiga, e não penso que seria uma boa coisa uma experiência justamente nesse barco. Mas, se convidada, eu e muitos outros brasileiros – muito mesmo – acharíamos correto. Seria um passo além de partidos importante.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

 

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3 Responses “Política na base de Richard Rorty: mulher no ministério”

  1. G. De Jesus
    16/05/2016 at 11:28

    Eu sou o cara que odeia você!

    • 17/05/2016 at 23:09

      Jesus!O CARA VEM NO MEU BLOG, fala asneira e xinga, e então recebe uma resposta que não o leva a sério. Aí ele geme. Cresça, estude, arrume emprego, virem homem e só então volte.

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    15/05/2016 at 14:49

    Caro Professor
    Em política partidária (Politics), em contraponto à Política de Estado (Policy), a hierarquia das prioridades na Gestão Pública (Poder Executivo) no Brasil não contempla a competência e a probidade. Dá-se maior importância ao fisiologismo, populismo, patrimonialismo, nepotismo, promiscuidade público-privada e compadrio e , agora, ao simbolismo das minorias.
    Espere um pouco e veja o que acontecerá com a Saúde, apenas para citar, após os comentários do novel ministro.
    Valmi Pessanha

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