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23/04/2017

Política e religião se misturam sim!


Quem foi que disse que religião e política não se misturam ou mesmo não devem se misturar?

O estado liberal-democrático, o típico estado moderno, é dito laico. Por ser laico, no contexto da doutrina liberal, ele é neutro e não propriamente religioso. Todavia, a política não é feita só no estado, ainda que seja feita para ganhar o controle dos mecanismos de poder do estado, por um determinado período. A política é feita na sociedade, entre grupos e indivíduos. Tanto os eleitores quanto os candidatos fazem “a política” na “época da política”. Essas pessoas são religiosas ou quase isso, ainda que dentro de padrões dos tempos modernos.

Como a religião é, no seu maior eixo, normativa, ou seja, diz ao seu servidor o que os deuses querem que ele faça, e que em geral nada é senão uma interpretação do ethos de um povo, então é claro que, para conhecer uma pessoa não é de todo inútil conhecer sua religião. Popularmente é mais fácil ter uma ideia de uma pessoa perguntando sobre sua ética e sua moral, ou seja, sua religião. Isso pode levar a um total equívoco, mas não deixa de ser um instrumento válido, quando não há outro. Desse modo, mesmo que o eleitor escolarizado saiba que no comando do governo o então candidato não poderá atuar sob o comando de diretrizes religiosas, ele não vê inutilidade em saber aspectos morais desse candidato. Assim, conhecer o que o candidato pensa sobre religião é, em todas as democracias do mundo moderno ocidental, alguma coisa que sempre tem lá seu valor.

Por isso, é uma enorme bobagem sem cabimento as pessoas acharem que elas podem se livrar da religião porque entraram na política moderna. E nesse sentido, é também uma bobagem que as pessoas não queiram permitir que os candidatos se refiram às posições religiosas, suas próprias e a de outros.

Aborto, eutanásia, casamento gay, direitos de minorias, educação infantil etc. são matéria de deputados, mas não deixam de ser, indiretamente, matéria de governadores e do presidente da República. São questões associadas ao campo ético-moral e, portanto, ao campo religioso. Aliás, até mesmo o Welfare State tem um pé na religião. Sabemos muito bem que um cristão teria de defender vários princípios previdenciários se quiser realmente ser um cristão. Um cristão pode querer tratar dos pobres e desvalidos com esmolas, mas um cristão desses que na Europa criaram a Democracia Cristã, também autorizada a funcionar como partido no Brasil (onde Montoro junto com Plínio de Arruda Sampaio se criaram como políticos), pode bem querer o Welfare State, nesse quesito específico, como um substituto da Igreja.

Os partidos de direita tendem a ir além do envolvimento com a política religiosa enquanto política fora do estado. Não raro, desconsideram o estado laico da liberal-democracia, e passam a fazer alianças especificamente religiosas em benefício não só de suas candidaturas, mas de seus governos. Os partidos de esquerda tendem a querer fazer o estado laico extrapolar prerrogativas, e não raro querem extirpar religiões (principalmente as que eles enxergam como mais atreladas ao “capitalismo”) da própria sociedade. Em ambos os casos, não compreendem o papel da religião na vida moderna. Portam-se como garotos de diretório estudantil de direita e de esquerda dos anos sessenta.

Já faz algum tempo que, no Brasil, temos perdido a clareza sobre esses assuntos, e então a conversa sobre “estado laico” aparece na política antes como moeda de troca babaca do que como um tema a ser tratado seriamente. Se a esquerda pode, na política, falar do Deus da Teologia da Libertação, então vai ter de admitir que a direita fale do Demônio Liberal, ou seja, do nome que leva – talvez não sem razão – o Deus do Pastor Everaldo, aquele deus com o “raio privatizador.”

Por isso tudo, os candidatos não conseguem ser tão modernos quanto a situação exige deles. Eles podem até querer governar sob o tacão do momento, que é o lixo do pensamento restrito entre intervenção ou não intervenção do estado na economia e meio social (estamos em recessão, sim, mas de ideias), se achando modernos. Mas não são modernos. Não são porque isso é pouco para ser moderno. E não são porque todos nós somos religiosos modernamente, e isso é, no fundo, não ser nada moderno.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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FP - Copia

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21 Responses “Política e religião se misturam sim!”

  1. Maxwell Silveira
    19/12/2016 at 23:19

    Paulo, eu e meu amigo no dia 22 de Novembro desse ano estávamos procurando algum artigo que fosse a favor da Mistura de Estado e Religião para um debate escolar no dia seguinte. Nosso grupo era a favor e o outro contra. ficamos o dia inteiro procurando na internet até que achamos seu blog. Sua publicação tinha sido atualizada justo nesse dia! A partir daí virei seu fã! Tudo que tenho a dizer é obrigado.
    Maxwell Silveira, 14 anos

    • 20/12/2016 at 01:43

      Maxwell obrigado por ler. Agora lembre-se: filosofia é exatamente não escapar do “a favor” e “contra”. Sempre quando alguém propuser isso, diga: “calma lá, isso é regime plebiscitário, não é pensar”.

  2. Jubileu
    28/10/2016 at 22:13

    Ghiraldelli o Sr. escreveu “Vá para os debate preparado”. Faltou um “s” no final de “debate”.

  3. Lelcis
    20/06/2015 at 13:47

    Não sei o que é ser parecido com qualquer um da família de ninguém de novela nenhuma que creio não oferecer novidades ou crescimento, mas acho que discriminar quem deve ler ou comentar não é fruto de uma boa filosofia positiva. Mesmo assim e como cristão, concordo com seu texto.

    • ghiraldelli
      20/06/2015 at 18:18

      Lelcis é para o cara ficar avisado que não quero burro aqui.

  4. Caçapava
    02/09/2014 at 23:02

    O americano, já a alguns anos, anda insatisfeito com a política de lá(bipartidarismo), tal como cá. Os liberais são a terceira via cada vez mais crescente. Paulo, você acha que o voto aqui deveria ser facultativo, em lei?

    • 02/09/2014 at 23:24

      O nosso voto não e´tão obrigatório com ose diz, e o americano não está insatisfeito.

    • Roberto William
      03/09/2014 at 16:39

      O Paulo, pra quem não vota, basta pagar a multa pra quitar suas obrigações eleitorais?

    • 03/09/2014 at 18:41

      Se for pobre, nem isso.

    • Thiago Carlos
      03/10/2014 at 13:39

      Você vê algum problema em ter seu dinheiro levado para o fundo partidário, já que você não vota?

    • 03/10/2014 at 15:27

      Eu vejo muito problema na burrice. Quando um leitor meu é muito burro, eu vejo problema. Eu penso: nossa, como que eu, um autor inteligente, estou atraindo gente burra. Então, começo a refazer meus textos, para afastar esse cara. Só nisso vejo problema. Sobre política, eu não consigo ver mais problema do que ela própria já produz.

  5. 01/09/2014 at 23:42

    Luciana Genro disse à Everaldo ( que pretende privatizar tudo) que não mistura política com religião, por isso durante o debate iria chamar apenas pelo nome. Talvez ela pretendia mostrar aos que repudiam o pastor e reforçar que ali estava uma mulher realmente à favor do estado laico, ou apenas foi natural em desconhecer a certa importância da religião, ou quis dizer algo que não percebi.

  6. Guilherme Gouvêa
    01/09/2014 at 17:11

    Ghiraldelli, você se refere ao sistema eleitoral brasileiro como um “prato feito”, onde o eleitor escolhe o que tira das panelas, mas nunca o menu do dia…
    Pergunto: não é assim também nos EUA e em outros do norte? Tirando o Ralph Nader, uma espécie de Enéas ianque, são 300 e tantos milhões tendo que escolher entre um democrata e um republicano TODAS as eleições… e aí os nomes vão se repetindo, com algums nuances de “inovação”: Bush pai, Bush filho, família Clinton, Dick Cheney, família Kennedy…

    • 01/09/2014 at 17:22

      Guilherme nem pensar! Você não sabe o que é ser candidato naquela terra. No Brasil só o Lula tem uma trajetória de percorrer o Brasil como os americanos. O antiamericanismo nosso é tão tacanho que não sabe interpretar o processo eleitoral americano, não sabe como que se faz um senador.

    • LMC
      02/09/2014 at 10:14

      Pelo menos nos debates
      americanos não tem Levy
      Fidelix,Luciana Genro
      ou Eduardo Jorge pra
      encher o saco.Mas é
      isso mesmo,PG.As
      pessoas não tem o
      trabalho de saberem
      como são feitas as
      eleições por lá.

    • Thiago Carlos
      02/09/2014 at 14:53

      Você tem alguma indicação de leitura que mostre a diferença entre a democracia americana e a brasileira?

    • 02/09/2014 at 15:23

      Thiago as indicações teóricas estão no Filosofia política para educadores. As indicações técnicas, do sistema eleitoral, nos sites dos governos. Agora, o aprendizado da cultura, para entender a coisa, aí tem se der lendo história, vendo filmes etc. Não é difícil.

  7. Paulo Gallo
    01/09/2014 at 17:05

    Filósofo, a aplicação da democracia no conceito grego não ficou anacrônico para os nossos tempos?
    Como conceber a aplicação de um sistema político adotado para solução de um número bem restrito de pessoas (pólis) na escala superdimensionada da atualidade?
    *
    Em outras palavras, num contexto de superpopulação, supercomplexidade do sistema e superdimensionamento geográfico, os eleitores já não são capazes de saber no que votam ou no porquê de votar… os mecanismos de comunicação não são, neste nível, capazes de esgotar as opções e explicações necessárias objetivamente, transformando a briga por poder num show de calouros em que só os mais desenvoltos se dão bem – ou seja, aqueles com melhor comunicação ou marketing, que nem sempre são os melhores nem os mais preparados a governar…
    *
    Então, não seria o caso de promover uma democracia representativa mais escalonada? Com níveis de representantes comunitários, que escolheriam líderes regionais e assim por diante?

    • 01/09/2014 at 17:24

      Gallo nem eu nem ninguém pensa em democracia a partir do mundo antigo. A democracia liberal é a vigente, com matizes, e ela demanda um trabalho que é o do americano, que leva uma vida para ser senador, indo de base em base, até um dia poder pleitear a presidência. Não é o problema do número de habitantes que faz um país não ser democrático liberal.

  8. LMC
    01/09/2014 at 14:47

    Gostei da nova enquete só com
    os candidatos a presidente que
    realmente tem chances.
    Só fazendo um registro,não
    é Mariana,mas Marina.

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Filósofo