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29/03/2017

A política é o ópio do povo


No século XIX havia a casa de ópio. Só o rico tinha acesso. Em um momento de liberação e concomitante novo estresse, por conta da entrada na modernidade industrial, surgiu então um lugar próprio para se fugir do mundo. Um século antes Rousseau tinha defendido a ideia anti-cartesiana do “não penso, logo existo”. Fez essa experiência de não mais pensar no Lago Biel, ficando ao sabor das águas no barco. No século XIX, Rousseau já representava um passado impossível de ser levado a sério. Se era para ficar sem pensar e poder exatamente por isso, viver, o melhor seria mesmo o ópio.

Os mais pobres não podiam pagar a casa do ópio. E se o mundo industrial os estava dando mais trabalho e, ao mesmo tempo, para muitos, mais liberação, a alienação tinha de vir por um ópio mais barato. Marx apontou na religião esse ópio. No século XX esse ópio é claramente a política, seja ela contra uma ditadura seja ela no contexto das democracias liberais.

Quando olhamos a política pelos nossos olhos comuns, não temos a dimensão da alienação. Mas quando olhamos palestrantes, jornalistas e, mais propriamente ainda, militantes políticos, percebemos então esse ópio muito mais eficaz e poderoso que o químico e que o dos deuses. Vendo-os e observando-os, logo percebemos e falamos para nós mesmos: nossa mãe! são pessoas que, até agorinha a pouco, eu as via como inteligentes, mas agora, notando-as melhor, vejo que começam a se apresentar sem uma das principais características da inteligência humana, elas não têm a capacidade de fazer experiências com o pensamento. Não podendo fazer tal experiência, a de viver a vida intelectual do outro, deixar-se levar pelo outro, adentrar um mundo novo e vivenciar valores diferentes e perigosos, ficam como que entorpecidas. O homem inteligente é corajoso e faz isso, a experiência do diferente. O militante é covarde e foge disso. Refugia-se na sua verdade, no seu esquema, na sua ordem que, não raro, pensa que foi elaborada por ele mesmo. Muitos estão dominados pelo ópio da narrativa política da conservação ou da transformação, outros, os mais propriamente militantes, estão na fuga completa, no trabalho obstinado de autoproteção. Temem experimentar uma ideia alheia, pois morrem de medo de gostar. Tanto faz se são conservadores ou progressistas, o temor é o mesmo. A política é um ópio.

A filosofia se pretende o anti-ópio na medida em que deseja a criação do espaço do erro. Entramos na escola e vamos para a aula de matemática. Resolvemos uma equação e ganhamos nota pelo acerto. Entramos na aula de filosofia, temos de ganhar nota por advogar como nosso o que até então não acreditávamos, ou seja, temos que pular para o outro lado, assumi-lo, vive-lo, fazer o que até então era, para nós, o errado. A aula de filosofia é a única que não só nos permite o erro, mas nos força ao erro, caso não, não é filosofia. Se sou um hedonista, devo experimentar viver como estoico, se sou um kantiano, seria melhor eu experimentar viver como um utilitarista. Isso em ética. Mas vale para qualquer outra matéria filosófica: da metafísica à epistemologia passando pela estética e pela pedagogia. Tenho de experimentar o lado errado.

Toda militância política morre aí, na filosofia. Minhas experiências se fazem cada vez mais ricas e, então, já não consigo mais dar aval ao mundo estreito de verdades que logo vejo como propagandas. Posso continuar a lutar contra uma ditadura, posso continuar a votar dentro da democracia liberal e participar de reivindicações. Mas minha convicção de que devo fazer isso tendo no outro alguém que é menos racional que eu, diminui bem. Meu ópio acaba. Minha sensação de final do entorpecimento retorna. É como aquele que volta a sentir o gosto das frutas por abandonar o açúcar. É incrível isso. Volto a pensar. Por que você não experimenta seriamente?

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 04/10/2016

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2 Responses “A política é o ópio do povo”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    06/10/2016 at 10:39

    Prof.PAULO
    Tive o privilégio de assistir a uma lecture de Raymond Aron e muito me impressionou a crítica que elaborou à hegemonia, que então existia, “à inexorável trajetória das contradições do capitalismo rumo ao socialismo e a consequente ascensão da classe operária ao paraíso”, traduzida no seu livro O Ópio dos Intelectuais. Veja que situação insólita a que nos encontramos no Rio de Janeiro: escolher entre dois fundamentalismos aparentemente distintos. Ambos sem quadros de competência para enfrentamento dos complexos problemas de gestão. Pobre população!

  2. Rafa
    05/10/2016 at 10:56

    estava tentando encontrar uma frase que que sintetiza-se o nosso tempo; você encontrou uma perfeita. às vezes penso e acredito que pelo fato de estarmos na pólis e sermos atingindo pelo que acontece nela, é inevitável não se envolver politicamente; no entanto, acredito que o fenômeno que acontece, e que atinge grande parte é a do delírio mesmo

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo