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20/02/2020

Por que existe a política de cotas para negros?


Fazer sexo com uma negra ou mesmo ter mãe negra não implica em não ter preconceito contra negros. A estrutura do preconceito em relação ao negro no Brasil adquiriu uma sofisticação auto-alimentadora sem igual. É sutil. É manhosa.

A discriminação velada associada ao preconceito que se propõe por ele próprio a não existir é um mecanismo da cultura que, em nosso país, adquiriu uma quase perfeição. Trata-se de uma matreirice que mesmo aqueles que, entre nós, são reflexivos e capazes de profunda auto-análise, são pegos de surpresa ao descobrirem que estão sendo conduzidos pelo preconceito.

Entra-se em um consultório particular de um médico que atende ricos e eis que ele é negro. Há sempre um estranhamento. O caso só não ocorre a ponto de notarmos por que a situação nossa fica aquém disso, uma vez que essa figura, a do médico negro de ricos, praticamente não existe no Brasil. Mas, encontrar o médico negro no consultório particular é quase como encontrar um urso panda adulto, não de pelúcia, no elevador.

Pode-se dizer depois, “ah, não é preconceito, eu apenas levei um pequeno susto porque foi alguma coisa que eu nunca vi”. Um médico particular negro. Um urso panda adulto, vivo, no elevador. O estranhamento pode ter a ver. Mas o resultado do primeiro estranhamento no interior psicológico de cada pessoa é diferente. Não se cria preconceitos contra ursos pandas porque eles não foram vendidos acorrentados em praça pública, eles não foram vistos como espalhadores de doença, eles não receberam chibatas em lugares públicos (os pelourinhos da vida) até à morte por causa de falar em liberdade, eles não foram confundidos com dementes por causa de falarem uma língua esquisita, não foram vistos como demônios por conta de danças referentes a outros deuses. E o mais importante: o urso panda é lindo, mas o negro é sexualmente atrativo. Tão atrativo que acabou por dar leite ao filho do branco, acabou por dar filho ao branco, mesmo depois que o branco o libertou nu e sem nada no centro do Rio, para em seguida caçá-lo por “vagabundagem”. Esse teatro ainda está em cartaz até hoje. O Brasil adora apresentar o “Esquenta” da Regina Casé na Globo enaltecendo a cultura negra, “popular”, enquanto o genocídio da juventude negra continua mantendo estatísticas intactas.

O teste do preconceito vem no casamento. O branco casa-se com a negra com que frequência no Brasil? Pouca! E os filhos? Os filhos do casal são tratados iguais? A mãe negra jura que não separa as funções? Ela jura não apostar mais na “mais clarinha”? E nós todos, quando vamos nos referir à beleza da mulher, como falamos? Não falamos “negra linda”, com algo separado de “mulher bonita”? Não é esse pequeno tropeço do nosso vocabulário um dado revelador da capacidade de nosso preconceito se esconder a ponto de jurarmos que falamos assim “por costume” e não “por preconceito”? Ora, mas é o costume que faz o preconceito se esconder sutilmente e sobreviver.  E a pior coisa é acreditar que certas proibições exageradas quanto ao modo de conversar poderá alterar alguma coisa se a visibilidade do negro em nossa sociedade não mudar.

Não estão ainda entendendo como funciona o preconceito? Dou mais um exemplo. A Caixa Econômica Federal contratou uma agência famosa, de publicitários tidos como cultos, para produzir uma peça publicitária em que apareceria Machado de Assis. Ele apareceu e era branco!  Afinal, pensaram os falsos cultos ideologizados que fizeram o trabalho: como que o maior escritor do Brasil seria negro? Não pode! Aí o remédio para a doença quase mata o paciente. Veio a Camila Pitanga para fazer uma segunda propaganda, mas ela pouco representou a mulher negra. Veio com um visual de branca! Não há quem vença o preconceito contra o negro no peito. Uma lambada no traseiro dele o faz sair pela porta, mas voltar pela janela.

Sem espelho social nenhum grupo alcança o patamar dos grupos majoritários culturalmente. Por isso as cotas para negros foram criadas. A geografia do país não é homogênea. Há elevadores sem seus ursos pandas. Elevadores públicos. Não adianta ficar esperando o urso panda pegar o elevador. Caso ele venha, não o deixarão subir. É necessário um programa para colocar ursos pandas em elevador.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Post Scriptum. O não entendimento dessa história simples que o Brasil vive é um fantástico atestado de dominação ideológica. Aposto que vou receber um comentário daqueles assim: “sou contra as cotas”. Claro! Mas aí não é o caso de preconceito sutil, mas de racismo mesmo. Ou QI afastado da média, para baixo.

6 Responses “Por que existe a política de cotas para negros?”

  1. Ovlynn Malámen
    08/06/2019 at 12:53

    Gostei. Eu acho que um certo racismo, uma certa xenofobia, e outros preconceitos são inerentes ao ser humano. Separamos verde de azul naturalmente. O que não é inerente é, depois de verificarmos que verde e azul são humanos, tratar melhor uns do que outros. Classificamos por cor do cabelo, da pele, dos olhos. Classificamos pela gordura ou ausência dela. Classificamos segundo o nosso critério de inteligência. Enfim, classificamos por qualquer coisa que dê para colocar um rótulo. Até aí é normal, e talvez impossível de retirar do carácter humano. O que não é normal, e tem que ser reprimido, educado, é utilizar uma dessas características como superioridade à outra. É a diversidade que faz com que a espécie evolua e corra menos riscos de extinção.

  2. Valdério
    25/03/2015 at 08:58

    Em textos do ano passado já tinha entendido a necessidade de se separar as quotas etnicas das sociais, além de perceber que você não aprova as sociais.

    A melhor defesa que você sempre apresenta é que a quota étnica é para a sociedade e não uma compensação, como neste texto.

    Mesmo que já tenha entendido, acho bom ler suas novas abordagens. Sempre pego algo novo. Eu mesmo já me usei a expressão “negra bonita”, de forma inocente porque minha intenção era fugir da expressão “morena bonita”. Este erro será corrigido. Mulher bonita!

    De resto, meu pedido de casamento para Camila Pitanga continua em pé! Teremos cinco filhos e que todos puxem a beleza da mãe!

    Abç

    • 25/03/2015 at 09:07

      O uso da expressão “negra bonita” não deve causar problema ou ser censurado. Deus me livre censuras. Mas ele serve para notarmos que mulher é uma coisa e negra é outra, ou seja, que nosso vocabulário tem marcas registradas.

  3. Raimundo Marinho
    24/03/2015 at 12:47

    Obrigado Mestre.

  4. Raimundo Marinho
    24/03/2015 at 11:18

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.
    Tenho que certeza que muito em breve verei o Mestre no horário nobre falando sobre todos esses assuntos (cotas, intolerância, coxinhas, quibes, etc).
    O Brasil precisa de mais filósofos que se importem com a educação.
    Faço votos.

    • 24/03/2015 at 11:34

      Raimundo já estou no horário nobre, o horário nobre é o Hora da Coruja.

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