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17/08/2017

Para entender a política brasileira atual


Exige-se visibilidade em uma situação onde não há mais nada a esconder. O que estamos fazendo, então?

A vida moderna ou a chamada vida burguesa é aquela que instaura, de um modo nunca antes ocorrido, a dualidade entre o privado e o público, entre o que pode ser escondido e tem legitimidade para tal e o que é requisitado como o que vem à aparência. Em um reino assim, a vida política, tradicionalmente falando, tem a sua virtude exatamente na sua amostrabilidade, na sua “transparência”.

Agamben coroa esse saber dizendo que “a exposição é o lugar da política”. E complementa: “se não há, talvez, uma política animal, é apenas porque os animais , os quais já sempre estão no aberto, não procuram apropriar-se de sua exposição, simplesmente habitam nela sem cuidar dela”. “O poder dos Estados não está mais fundado, em nosso tempo, no monopólio do uso legítimo da violência (…), mas, antes de tudo, no controle da aparência”. (O rosto. Meios sem fim. BH: Editora Autêntica, 2015, pp. 88-90)

Isso parece ser aceitável e bem cabe como o que descreve a vida atual. Funciona, no entanto, só até o momento em que percebemos que, em nossos tempos, ainda que exista a distinção entre o privado e o público, é difícil achar que esta se dê por meio de uma fronteira de separação entre a aparência ou o campo do visível e o local do que não se vê. Ninguém mais possui segredo algum ou alguma condição de pular o balcão e deixar os negócios de um lado, e também a vida política, e adentrar a casa burguesa indevassável. Tanto quanto a ciência, que acabou revelando para outros o que cada um tem de comum com o seu vizinho, agora são os meios de comunicação que expõem diretamente – com a Internet à frente – tudo que somos a quatro paredes. Não há nada mais que sobrevive aquém do balcão e que seja secreto. O quarto de dormir é uma janela para o mundo, inclusive o lugar em que a esposa, na hora que o marido dorme, se apresenta nua mexicanos, russos e para o vizinho, e as vezes faz isso junto com o marido. Vivemos nos tempos que um beijo numa balada nos obriga a chegar no indevassável quarto de dormir burguês e mandar “nudes” para aquele com que nos esfregamos lá fora. O mundo dos espiões, que tanto alimentou os escritores e cineastas no tempo da Guerra Fria, hoje não cria absolutamente nenhuma emoção. Quem disser que tem um segredo está mentindo.

Todo mundo grava todo mundo, filma todo mundo, e a ideia do Big Brother se torna ridícula, pois o próprio se socializa e ocupa o lugar onde cada um de nós está. Pois cada um de nós é o Big Brother do outro e, de uma forma muito esquisita, de nós mesmos. Assim, quando homens do governo se corrompem junto a empresários e prostitutas ou quando estas mesmas se corrompem por estarem com empresários e homens do governo, tudo vem à tona de uma maneira muito repentina. Dá-se a tragicomédia dos ministros que são ministros apenas por alguns dias, ou só por algumas horas, e chegamos então ao fantástico e ridículo caso do Lula, cujo mandato de ministro foi tão breve que nem chegou mesmo à posse! Visibilidade e velocidade dão uma nova característica para o mundo que é, agora, incrivelmente transparente.

Em um mundo em que tudo é visível, como então compreender o conceito de público e privado? As coisas ficam embaralhadas. Há dezenas de teorias sobre isso. De Debord a Agamben chegando a Sloterdijk, paradigmas se alternam para encontrar como que chegamos a isso. Não é sobre as causas que falo aqui, mas sobre as consequências.

Em um mundo como esse, cada vez mais radicalizam-se atitudes: uma parte da população tende a adquirir uma insensibilidade para com a vergonha, abraça a conduta “cara de pau”, outra parte,  torna-se altamente obcecada pela ideia do “escândalo”, acreditando ainda na sua força, contanto que se ache para amanhã algo espetacularmente mais escandaloso do que aquilo que foi revelado hoje. As sociedades ocidentais apresentam tais características. Todas elas. Elas se sentem em profundo tédio e amargura se não há bombardeios de notícias que mostram aquilo que não se sabia, não se imagina, não se havia visto, mas que, na verdade, todos sabiam, todos imaginavam e todos haviam senão visto, ao menos previsto. Esse quadro, que é o que vivemos no Brasil atual, tem seus momentos em outros países. Ele vai e volta. E a questão da transformação do sentimento de vergonha está no centro das transformações dessa visibilidade imperativa.

A sociedade do escândalo, que é diferente do que se pode chamar de sociedade do espetáculo, é nosso reino ocidental atual, num mundo de paz imperativa e numa situação em que o consumo – inclusive o consumo do escândalo – se transformou num dever patriótico, como disse Peter Sloterdijk.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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10 Responses “Para entender a política brasileira atual”

  1. Dorvalina S. MONTEIRO
    08/07/2017 at 17:39

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk, boa se politizar eu diria , para refutar um texto com grande complexidade da história politica do Brasil. vivenciamos uma acelerada mudança de paradigmas em nossa convivencia politica e social . Ademais os impactos estão seriamente comprometendo os segmentos sociais mais carentes.

  2. MAchado
    27/05/2016 at 01:17

    Por quê vc não vai embora desse país? Vc não contribui com nada, vc todo rancoroso e reclamão. VAI EMBORA! Não é lugar pra vc VAI EMBORA!!!!!

    • 27/05/2016 at 13:21

      Machado, não é “por quê”, OK? Primeiro aprenda a escrever, alfabetize-se, depois volta. Sobre rancor, você não entendeu o texto. Ele nada tem de rancor. Bom, não podia entender mesmo, dado que não é bem alfabetizado.

  3. Macunaíma
    25/05/2016 at 00:54

    Veja porque o Pr. Caio Fábio é mais guru que você:

    https://www.youtube.com/watch?v=gtAdRjrOOx8

    • 25/05/2016 at 09:16

      Qualquer um é mais guru que eu. Se tem uma coisa que o bom filósofo não deve ser é guru, meu caro. Consegue entender isso ou sua cabecinha só quer guru?

    • Macunaíma
      28/05/2016 at 23:03

      Paulo, mas é verdade o homem é sábio. Veja que engraçado esse depoimento. Certeza que vai achar graça.

      https://www.youtube.com/watch?v=NlzdHhEo6Gk

  4. Rodrigo Bonfim
    25/05/2016 at 00:36

    Tem o grande segredo do Illuminatis. Esse garanto que ninguém sabe, só acha que sabe. por tá tudo indo conforme Eles desejam.

    • 25/05/2016 at 09:17

      Rodrigo, que tal tomar um remédio? Qualquer um, antes que seja tarde.

    • 25/05/2016 at 19:20

      Bonfim ha ha ha ha você precisa de internação!

  5. Matheus
    24/05/2016 at 14:42

    Vergonha, orgulho e thymos, cada vez mais fica claro que sem olhar para essas questões não vamos entender o presente.

    As vezes me aprece que chega a ser quase paradoxal: se vivemos uma “sociedade de escândalo” então ainda existe alguma idéia de vergonha, porém há muitos que se orgulham de sua ignorância (passando por pondés, bolsonaros e petistas da vida) e outros tantos que se orgulham da “pouca vergonha” de “não ter vergonha na cara”.

    Eu não cheguei a ler a teoria de sentimentos morais do Smith, será que naquela obra há aglo sobre “vergonha”? Ou em outros autores mais antigos?

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