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19/08/2017

Pode Michel Temer fazer algo na Educação?


Temer tem duas ideias básicas para a educação: bônus e ensino profissionalizante. Convenhamos, não são nada originais ou novas. Mas, enfim, são ou não boas ideias?

Em si mesmas, não são ideias ruins. Todavia, o problema é que no contexto brasileiro, muito mais coisa entra em jogo do que as ideias pelas ideias.

A tese de bônus para os professores é de matriz liberal e vem da doutrina da meritocracia. A proposta de ensino profissionalizante é de matriz conservadora.  Seus problemas, no entanto, não advêm de suas origens político-filosóficas. Em ambos os casos, seus problemas são oriundos de suas já plantadas raízes na sociedade brasileira.

O bônus seria uma ideia interessante se ele não viesse como complemento salarial que ao fim e ao cabo secundariza o salário e perturba a isonomia salarial constitucional, criando uma disparidade inaceitável entre professores de lugares ricos e lugares pobres. Mas, claro, isso poderia ser resolvido se o bônus fosse pensado efetivamente como bônus, e não como uma maneira de deixar de corrigir o salário que, para tornar a carreira do magistério algo viável, hoje, deveria ser de no mínimo nove mil reais.  O professor universitário brasileiro, em média, líquido, não ganha isso. Mas há dinheiro, sim, se não fossem os programas imbecis do governo e a corrupção. Agora, o bônus possui outro problema: tem de ser dado por desempenho dos alunos em exame intelectual nacional, e não por “pontinhos” aqui e ali conferidos à escola por uma série de fatores que não o mensurável.  Em suma: a meritocracia é uma boa pedida, mas se  vem para criar um fosso entre dois grupos de professores, deixando ao fim e ao cabo todo mundo à míngua, então, é até melhor que não venha.

A profissionalização seria interessante se não se confundisse com “terminalização em nível médio”. Ou seja, toda vez que se fala em profissionalização do ensino médio brasileiro o que se pensa é a separação entre escola propedêutica à universidade, deixada aos colégios particulares que devem levar o filho do rico para a universidade pública, e a escola de currículo enxuto, empobrecido, que acaba sendo o vigente nas instituições públicas que, então, fingem que profissionalizam alguém. Não profissionalizam. Pois a profissionalização é, no Brasil, o ensino médio propedêutico à universidade, uma vez bem feito. Qualquer ensino propedêutico à universidade torna-se profissionalizante por si só se for bom. Pois o conteúdo do ensino médio, em termos tradicionais, se cumprido, já torna o aluno que dele sai um jovem apto a milhares de empregos “de nível médio”.

Infelizmente, no nosso contexto social, bônus sempre vem como forma de não melhorar salário e ensino profissionalizante sempre surge como uma forma de tornar a escola boa em uma escola técnica ruim. Essa é nossa tradição. Essas duas ideias estão tão ligadas a uma tal prática no Brasil que, para ser sincero, eu teria outras para propor a um novo governo. Mas, em educação, propor algo a esses governos todos, é desgastante. O PMDB e o PSDB estão tão interessados em educação quanto o PT estava, ou seja, o interesse verdadeiro é zero.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Doutor em filosofia pela USP e doutor em filosofia da educação pela PUC-SP. Autor de Sócrates: filósofo e educador (Cortez, 2015).

EM VÍDEO: Temer e a educação

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16 Responses “Pode Michel Temer fazer algo na Educação?”

  1. vera bosco
    11/05/2016 at 15:00

    O curso Normal, nível médio, deveria ser pós-médio. Não há grade com conteúdos programáticos elementares,muito menos carga horária suficiente.O que há é afluência de alunos pobres de rede pública em busca de canudo porque é “uma profissão”.Cai tanto de qualidade que viram caixa de supermercado quando conseguem.
    O ciclo do cachorro correndo atrás do rabo fica assim : finge que ensina e profissionaliza.Ah, mas tem a Faculdade de R$1,99 de Pedagogia depois,né?

  2. 29/04/2016 at 00:34

    Paulo, uma curiosidade, já li alguns livros seus, o último agora do Sócrates (2015) também, e esse ano vai publicar mais um?

    • 29/04/2016 at 07:14

      Enoque, tá no prelo “Para ler Peter Sloterdijk”, pela Viaveritas

  3. João Lucas
    29/04/2016 at 00:02

    Se ele privatizar a educação técnica, por exemplo, elas ainda serão gratuitas? Teríamos nós, concursados que pagar para ter esse ensino?
    Aguardo resposta e parabéns pelas postagens!

    • 29/04/2016 at 07:15

      João Lucas, ele não vai privatizar nada. O Brasil não caminha por essa via em educação.

  4. JANE
    28/04/2016 at 16:45

    Paulo.

    Estou lendo seu livro história da filosofia dos pré-socráticos a Santo Agostinho.

    Na pag.99 e 100 quando você fala do modo filosófico platônico:

    (…) que não é uma “pedagogia de sala de aula”. Nem uma “filosofia de escola”. É um caminho de uma vida toda. Não é algo que pode ser aprendido nos livros. É a continuidade de experiências vitais (…). (Pag. 99).

    (…) se faz necessário tomar tal dialética como um processo da práxis vital de quem se dedica a viver na filosofia e pela filosofia. (Pag. 100).

    Além de Platão podemos compreender desta forma, os antigos, ou podemos também conceber toda a história da filosofia?

    Att.

    • 28/04/2016 at 17:07

      Jane, temos dificuldade de viver filosoficamente, mas eu tento, vários outros filósofos também.

  5. Silvio Carlos Marinho Ribeiro
    28/04/2016 at 13:58

    Caro Paulo,

    O problema da Educação no Brasil está no fato de que políticos e burocratas é que detêm o poder de decidir sobre as políticas educacionais e eles sempre parecem ter sérias limitações intelectuais e práticas para poder propor soluções adequadas. Mas mesmo quando educadores têm o poder e a prerrogativa de propor políticas educacionais, parecem ou esbarrar no fato de que estão no ambiente político, tendo que se tornarem ratos e transarem como ratos, ou têm que se deparar com sérias limitações em um sistema que trata a educação como um peso ou uma despesa muito onerosa. Políticos ficam indignados com o fato de nossas crianças e jovens não saberem Matemática e Língua Portuguesa e pensam que a solução é eliminar as demais disciplinas e ficar apenas com as duas. Esse tipo de visão é como a de alguém que percebe que fazemos uso constante dos olhos e da boca e tem o insight de que é necessário cortar os demais orgãos, já que não os usamos ou os usamos pouco. Eis como funciona a mente de nossos gênios da política educacional. Por outro lado, creio que uma boa parte dos educadores não estão tão bem preparados para construir práticas e políticas educacionais, nem a comunidade. O ideal seria que houvesse uma educação para compreender o que queremos com Educação. Talvez, se existisse uma tal educação, descobriríamos que há uma multiplicidade de fins e valores e que nem sempre são compatíveis com o ambiente formal da escola, nem mesmo com a relação de poder que há entre professor e aluno. Porém, se esse tipo de visão desescolarizada fosse levada a cabo, o próprio conceito de educação que anima os discursos políticos e pedagógicos perderia o sentido.

    • 28/04/2016 at 14:17

      Sílvio, minha pequena experiência no campo da educação me diz que você está errado, que talvez o desinteresse pela educação venha da sociedade, e se reflita nos políticos.

    • Silvio Carlos Marinho Ribeiro
      29/04/2016 at 11:31

      Paulo, não neguei esta possibilidade, enfatizei apenas o comportamento político típico. Por outro lado, se é verdade que a sociedade se desinteressa pela educação, é possível ter expectativas de que um dia haverá políticas públicas que enfrentarão de fato e adequadamente os problemas da educação?

    • 29/04/2016 at 11:33

      Sílvio, um milagre traria um político para fazer algo que a sociedade não deseja. Só isso.

  6. Beto
    28/04/2016 at 11:07

    Se o Temer te convidasse para ser o Ministro da Educaçao, aceitaria?

    • 28/04/2016 at 11:35

      ha ha ha ha!

    • LMC
      29/04/2016 at 11:29

      E que você acha da idéia de
      Temer de voltar o Ministério
      da Educação e Cultura?

    • 29/04/2016 at 11:33

      Isso é ruim, significa confusão de atribuições de corte de verbas.

    • LMC
      29/04/2016 at 11:43

      Ih,acabei de ler na Folha que o
      Temer voltou atrás nesta idéia
      que te perguntei.

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