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25/07/2017

Pobre é bom, a pobreza é ruim! Isso é tão certo assim?


Ser pobre não é ser bom. Mas o cristianismo e, depois, o liberalismo inicial mudaram isso. Redescreveram a palavra “pobre” e a transformaram num imediato juízo de valor.

O pobre está sempre certo. Até quando ele está errado, ele está certo. Isso é tão forte que quando digo que a esquerda é, historicamente, o partido que defende os pobres, as pessoas não entendem que estou fazendo uma descrição, não uma valoração do tipo “a esquerda defende os que estão certos”. Não raro, isso nubla não somente o senso comum, mas também nossas teorias.

A teoria que aprioristicamente está comprometida com os bons enquanto pobres pode aqui e acolá entrar por uma via pouco produtiva. O Papa Francisco pode estar nessa. O Papa Francisco defende um bocado de coisas que eu defendo. Gosto dele. Mas, tenho de admitir, sua correta vinculação aos pobres está articulada a uma necessidade inconfessável de aceitar que “superestruturas” (para usar um velho termo marxista) podem até mover algo, mas não são o que realmente fazem o mundo funcionar. Isso é falso. O que move o mundo, nessa visão, é a economia, o dinheiro, a moeda que se fez deus. Assim, nos seus últimos discursos, Francisco culpa com razão o capitalismo de criar situações injustas, mas o faz não raro antes por estar preso a algo não analisável a partir de sua posição. Seu ecumenismo correto o faz não poder dizer que a “superestrutura” religiosa também é responsável pela guerra. Ele tem de dizer que todas as religiões são de paz, que Deus é único e de amor, que as guerras e as injustiças são frutos somente da pobreza. O dinheiro ou, melhor, a falta dele, é o mal do mundo. É uma boa teoria para o ecumenismo, mas ela é estreita. Não raro, leva a não nos deixar pensar.

Um pensamento assim se encarrega de repor um certo marxismo vulgar. Ou seja: há um demônio no mundo, único, responsável pelo mal: a pobreza. O pobre é santo uma vez que é vítima da pobreza, que santifica e ao mesmo tempo, fruto do capitalismo, da busca do dinheiro pelo dinheiro, causa todo o mal. Por essa visão, as religiões por si só não são responsáveis por nenhum tiro ou chicotada. Ora, será que eliminada a miséria dos lugares de miséria estes, então, passarão a se desfazer do ódio? Será que o riquíssimo Bin Laden não seria terrorista se fosse mais rico? Será que se o riquíssimos Bin Laden tivesse sido rico junto de outros ricos não teria se tornado o formadores de algozes de Nova York? Será mesmo que o ISIS é fruto da pobreza? A doutrina marxista vulgar e a doutrina atual de Francisco I estão presas nisso. Em ambos os casos, denunciar isso, minha obrigação de filósofo, me faz mal. Pois eu até gostaria que Francisco e o Marx Vulgar estivessem certos. Mas não creio nisso.

As religiões são doutrinas que colocam um ethos sobre outro ethos. São formas de conduta moral que, não raro, abominam outras formas de conduta moral. Não existe nelas a paz pela paz. Existem nelas o certo e o errado de modo bem delimitado. E elas possuem uma grande dificuldade de aceitar o que é o melhor do capitalismo, que é a paz do mercado, a necessidade de tolerar o outro por conta da negociação do balcão. Assim, não é só a miséria do capitalismo que traz o ódio político e a guerra, mas às vezes as doutrinas éticas por elas mesmas, contra a doutrina liberal que se associa ao capitalismo, que se faz rainha da intolerância. Tenho de admitir isso se quiser pensar sem as amarras da tríplice ideia de que o capitalismo é o demônio, o pobre é bom por natureza e a pobreza o único problema do mundo.

Isso tudo não invalida em nada o trabalho do Papa de insistir numa mentira, a de que a miséria é responsável pelo ódio. Não é. Aliás, nem todo ódio é político. Só uma parte da esquerda, economicista, ainda acredita nisso. É gente que acha que o banditismo acaba numa sociedade onde todos recebem um prato de comida, sonho do populismo latino americano que caiu na boca de vários, inclusive do Enganador Mor da República recente. Pensar à direita não melhora isso, mas pensar com essa esquerda piora tudo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo. São Paulo, 09/08/2016

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6 Responses “Pobre é bom, a pobreza é ruim! Isso é tão certo assim?”

  1. Renato A. Gimenes
    10/08/2016 at 12:28

    “Só uma parte da esquerda, economicista, ainda acredita nisso”.

    Bom, infelizmente aqui essa parte da esquerda é quase toda a esquerda, seja a velha esquerda, a nova velha esquerda, ou a velha nova esquerda.

    • 10/08/2016 at 13:45

      Renato, Obama é de esquerda e não acredita nisso. E é bem votado.

    • Renato A. Gimenes
      10/08/2016 at 23:07

      Paulo, sem dúvida! Mas vá fazer a esquerda brasileira, na média (?) entender que o Obama é de esquerda? Vá tentar dizer à esquerda brasileira que há uma esquerda nos EUA! Veja o desconhecimento da História dos EUA, ignorância que baseia o nosso anti-americanismo! Esse é o ponto, a incapacidade atual da esquerda brasileira de olhar para fora, de pensar fora de algo como a sua tradição populista!

    • 11/08/2016 at 12:36

      Renato parece que a esquerda brasileira, até aqueles que a gente achava que podiam pensar, deixaram de vez essa prerrogativa. Como a direita é burra por natureza, então …

  2. Cléber Augusto
    09/08/2016 at 16:26

    Afirmar que a falta de dinheiro é o mal do mundo significa que o que não for dinheiro não tem valor próprio, nem você. Sabia?

    • 09/08/2016 at 16:48

      Cléber uma coisa que tem valor é a alfabetização. Com ela você poderá entender o artigo que escrevi, que você não conseguiu entender.

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