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29/03/2017

A piada macabra da filha de Rorty


A piada da filha de Rorty é o motivo de uma exposição de como funciona a filosofia de Peter Sloterdijk

Em 2006 eu tinha um encontro marcado com o filósofo americano e meu amigo Richard Rorty. Aconteceria no Brasil, por ocasião do lançamento de um livro de ensaios dele e meus. Rorty tinha uma passagem nas mãos, fornecida por um evento em Buenos Aires e, então, como era de seu feitio, sempre muito solícito e fraterno, usaria o voo para também estar em São Paulo. Tudo estava marcado e bem arranjado, mas o destino nos atropelou.

Já há algum tempo Rorty vinha sentido fortes dores de cabeça. Com as viagens marcadas, resolveu não ser pego por um contratempo e, por isso mesmo, procurou realizar exames médicos para observar direito aquele incômodo diário. Logo então ele me escreveu, avisando-me que os exames haviam detectado um câncer inoperável e incurável no cérebro. Foi um ano duríssimo para ele, para todos nós seus amigos, até sua morte em 2007. Recebi dele nesse período várias notícias, e então uma carta final, agradecendo a amizade e “tudo que havia sido feito por sua obra”. Veio a morte de Dick Rorty e, logo depois, Jurgen Habermas publicou um texto revelando o conteúdo da carta que ele havia recebido do amigo americano.

A carta recebida por Habermas trouxe uma peculiaridade proposital. Nela, Rorty começa dizendo que está sofrendo da “mesma doença” que havia há pouco atingido e matado Jaçques Derrida, amigo de ambos e, durante certo momento, membro desse triunvirato de democratas que se impôs na ligação entre América-França-Alemanha. Logo em seguida, na carta, como expõe Habermas, Rorty conta que sua filha, numa piada macabra, disse que seu câncer adveio de tanto ler Heidegger. Habermas tomou aquilo como que uma forma de abrandar a notícia do câncer. Mas, como conheci bem Rorty, sei que não foi exclusivamente por isso. Creio que Habermas também sabia, claro. Habermas nunca engoliu a filosofia vinda de Nietzsche e Heidegger, e de certo modo achava que o que Derrida fazia era a morte da filosofia. Diferentemente de Habermas, Rorty separava de modo forte filosofia de posição política. Nunca viu nos filósofos que Habermas tomava como adversários outra coisa senão um encantado mundo da reflexão da necessária da filosofia pós-metafísica e, de certo modo, também pós-positivista, o modo de filosofar que, podemos dizer, deve estar para além da “morte de Deus” anunciada por Nietzsche.

Em meio a esse assunto, me vi interessado pelo curioso texto de Peter Sloterdijk sobre a tal carta recebida por Habermas.[1] Sloterdijk apanha as duas partes centrais citadas por Habermas, a referente a Derrida e a referente a Heidegger. Sobre este último ponto, Sloterdijk lembra o lugar comum que é falar que alguém pode morrer de doenças da alma, na admissão de que uma leitura pode afetar o corpo e trazer moléstias. Admite-se aí que esse tipo de saber sobre a relação leitura-espírito-corpo, que tomamos às vezes de modo folclórico e somente como uma forma de expressão, teve lá sua história na qual foi levado a sério como resultado do que seria, na linguagem atual, efeito de uma reação psicosomática. Assim, ler algo na linha de Heidegger, um filósofo que vive sendo acusado de pouco apreço pela democracia liberal, não seria nada alvissareiro, só poderia mesmo trazer, para liberais, algum resultado psicossomático negativo. E eis então que se iria morrer “da mesma doença” que atingiu Derrida. Câncer? Sim, mas um câncer provocado por um tumor nitidamente heideggeriano.

Com tais dados nas mãos, Sloterdijk conjectura como seria para Derrida ouvir tudo isso. O próprio Sloterdijk aproveita essas conjecturas para então dizer que tudo aí tem a ver com um saber que em tempos pré-analíticos seria do campo da mágica, com resultados que hoje falamos ser do campo da psicossomática ou neuropsicoimunologia. Diz então que, pela via da antropologia seria o caso de articular de modo moderno o que, no saber vindo de crenças arcaicas, se postulava como a inexistência da morte natural. Por tais crenças, cada morte se deve a um “espírito maligno que corta o fio da vida das pessoas de forma arbitrária”. Assim, “cada morte foi obra do mal, uma maldição, um veneno administrado” – no caso, “presentes filosóficos dados por um químico alemão suspeito”, dono de uma prática que, se investigada, deve bater lá na antiga farmácia platônica.

Sloterdijk diz que uma tal conclusão do caso, cujo centro é a piada da filha de Rorty, pode soar “um pouco surrealista” e talvez até “intelectualmente irresponsável”. Todavia, ele insiste, o peso para aceitá-la e levá-la a sério aparece ao pensarmos que a relação entre leitura e leitor tem a ver com algum processo que nossa linguagem, não à toa, às vezes relaciona ao metabolismo. A leitura seria então um ato de anexação, com consequências dramáticas. Para entendermos isso, nessa linha, diz ele, poderíamos lembrar do “aparato organicista e psicossomático”, que viria de Schelling a Freud passando por Schopenhauer, responsável por circunscrever transformações de risco geradas “atrás das costas do sujeito”. Formar-se-ia então, segundo esse saber, algo como que depósitos neuronais para a memória, sendo só uma parte representável, e a outra parte ficaria permanentemente no campo do irrepresentável, e sendo justamente esta a parte produtora de consequências graves no comportamento das pessoas. Assim, em uma consideração melhorada de uma teoria toxicológica psicanalítica e psicodinâmica, a vida total espiritual seria um “drama metabólico sutil”. Nada senão um longo proceso de venenos e antídotos.

Toda essa exposição de Sloterdijk diz muito do que ele pensa sobre o modo como devemos interpretar a vida humana. Há de se levar a sério a antropologia e, portanto, ver as articulações entre o moderno e o arcaico, os saberes mágicos e os saberes de nossa mágica moderna, as ciências, com isso, seria bom considerar toda uma inter-relação entre as linguagens da religião, da mitologia, dos sonhos de outrora, da literatura atual e antiga, das biografias e casos particulares históricos, que podem bem ser tratados por alguém que, enfim, sabe além disso tudo, bastante história da filosofia. E se não se pode fazer isso como no caso de certo procedimento das ciências positivas positivistas, que colocam entre os saberes uma hierarquia epistemológica rígida, então, há de se ver outros meios. O que se pode fazer é mesmo um tipo de recorrente “reconstrução fantástica”, algo que, sem medo, abre portas para abordagens que soam surrealistas. Afinal, se não fosse assim, teríamos que simplesmente desconsiderar a piada da filha de Rorty, tomando-a como simples piada. Mas se todo esse saber não é evocado assim, o chiste da filha de Rorty nem como piada serviria. A piada é uma boa piada porque pode ser levada a sério, uma espécie de aviso: já se sabia há muito que a leitura intoxica,  e o faz num todo, por isso mesmo há reações psicossomáticas. O saber popular sobre isso não deve ser jogado fora, mas posto nas suas transformações, no quanto se atualizou por ciência e por chiste no nosso vocabulário atual.

Esse modo de fazer filosofia, que tem com Derrida e Rorty a semelhança de também ser pós-metafísico, difere de ambos porque não se trata totalmente do procedimento da desconstrução ou do procedimento da ironia, respectivamente típico de ambos, pois apela efetivamente para o que se pode chamar de surrealismo. Algo que parece uma terceira via entre as práticas filosóficas do argelino e do americano, práticas que se parecem por meio da “semelhança de família” – irmãos e primos são iguais de um modo desigual que não conseguimos explicar. Não sabemos bem no que se parecem e no que diferem. A “reconstrução fantástica” é o procedimento próprio de Sloterdijk,o que lhe dá um charme especial como um filósofo do século XXI, alguém que se auto-intitula um macro-historiador, um intelectual que diz como se pode fazer, de um modo até então impensado, a filosofia em um mundo intelectual que já experimentou ironia e desconstrução.

[1] Os comentários todos da carta estão em: Sloterdijk, P. Der Denker im Spukschloß. Über Derridas Traumdeutung. In: Was geschah im 20. Jahrhundert?Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 24/07/2016.

[1] Os comentários todos da carta estão em: Sloterdijk, P. Der Denker im Spukschloß. Über Derridas Traumdeutung. In: Was geschah im 20. Jahrhundert?Berlin: Suhrkamp Verlag, 2016.

Foto: Richard Rorty e filha.

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4 Responses “A piada macabra da filha de Rorty”

  1. 23/08/2016 at 00:48

    Achei interessante.

  2. Silvia
    29/07/2016 at 11:10

    Fugindo do assunto: Ghiraldelli, Davidson era adepto da teoria coerentista da verdade? É que vejo isso em vários lugares

    • 29/07/2016 at 11:18

      Davidson achava que a verdade é um conceito primitivo, não se define. É intuitiva.

  3. Max Paim
    24/07/2016 at 14:32

    Que espanto tive ao ler pelas primeiras vezes os aforismos de Nietzsche nos quais ele escrevia sendo bom psicólogo, em linhas gerais, que o pensamento pode ser avaliado pelo metabolismo, ou pela degeneração dos instintos. Aliás, me ocorre a máxima agora: me diga como pensa e te direi a saúdedo teu organismo.

    Inclusive isso pode ser percebido por nós que não comemos carne e que cada vez mais nos tornamos exigentes quanto aos gostos, em nosso nível de sensibilidade para diversos ambientes.

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Filósofo