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18/11/2017

Peter Sloterdijk, filósofo da revolução


Peter Sloterdijk é taxativo: “eu concebo a filosofia como introdução à ciência revolucionária universal”. (1) Essa formulação é bem explicada por ele:

Eu penso após a falsa revolução e no meio da alteração global das coisas. Eu trabalho numa teoria não-marxista da revolução e afirmo que a ‘revolução’ permanece o tema central verdadeiro do pensamento. Nós vivemos atualmente na maior reviravolta que alguma vez aconteceu nessa velha terra, uma mudança radical que nem marxistas nem liberais nem burgueses cristãos compreendem. Perfeitamente diabólico seria o homem que eliminasse totalmente a ideia de revolução. Eu nunca o fiz, nunca deixei de acreditar que as pessoas, em civilizações altamente educadas, são seres que precisam da revolução. Mas também precisam de proteção contra a falsas reviravoltas. É por essa razão que, depois da queda da velha esquerda, me lancei numa espécie arqueologia da revolução, estudei de novo as suas fontes e motivos e tentei determinar quando e onde germinou a ideia de grande viragem, da reviravolta de todas as coisas. (2)

Assim, filosofia como “introdução à ciência revolucionária universal” é um projeto ambicioso. Trata-se de uma teoria capaz de construir uma narrativa explicativa a respeito de grandes viragens, considerando que seria algo “diabólico” imaginar um intelectual que dissesse que “civilizações altamente educadas” pudesse gerar seres avessos às necessidades de viragem. Uma análise mais minuciosa sobre isso, então, não deveria ser narrada na base de uma filosofia da história tomada a partir da contradição entre forças produtivas e relações de produção, como fez Marx, mas a partir de uma narrativa chamada aqui de “arqueologia da revolução”. Uma investigação sobre a germinação da ideia de “reviravolta de todas as coisas”. Nesse sentido, a filosofia de Sloterdijk se põe como uma irmã da história das ideias.

Ele disse tudo isso quatro anos antes da publicação do primeiro volume de sua trilogia das Esferas, de 1998. Quem leu a trilogia, agora pode entender perfeitamente a que se referia o filósofo alemão, nesse trecho citado, retirado de um livro de conversação com  o espanhol Carlos Oliveira, então estudante de filosofia em Paris e Munique. Todavia, se ainda ficamos nesse escrito anterior, temos de notar o trajeto então delineado. Neste, Sloterdijk fala de um cadáver da velha ideia de revolução que alimentou a esquerda culminando nos eventos de 1968, de como isso morreu e se expôs como cadáver em decomposição, deixando então “radicais livres” emergentes da putrefação de seu corpo. Nessa metáfora bioquímica ao sabor de necrotério, pode-se ir até o esqueleto e encontrar “radicais não redutíveis”, isto é, “três motivos ou figuras de base” vivendo independentemente do restolho ideológico morto, e também autônomas entre si.

Sloterdijk nomeia os três radicais. “A primeira pedra, o radical primeiro da grande revolução mítica é o Estado de direito burguês com o seu pathos formal e igualitarista”. “O segundo radical da revolução é a experiência individual do nascimento, a dramática ruptura da criança para fora do corpo da mãe em direção ao mundo. Isso permanece latente e presente em cada indivíduo como cena primitiva constituindo a vanguarda das esperanças futuras de novas rupturas e em direção a condições de vida menos estreitas”. O terceiro radical da revolução vem da filosofia ou das disciplinas espirituais. É a alteração espiritual sofrida que permite ao ser humano, por assim dizer, desfazer os seus erros e discernir a diferença entre uma vida que segue numa boa direção e uma vida que segue numa má direção”. (3)

Não é difícil aqui ver nesse elenco de “radicais”, caso se deseje com eles fazer uma exposição, um empurrão no sentido de uma construção de um texto que nada tem a ver com “sociologia” ou “psicologia” ou coisas assim, dentro da divisão tradicional das Humanidades. Os próprios “radicais” já estão apontados por meio de nomes e direções que exigem uma narrativa nova e singular. Essa narrativa, na trilogia das Esferas e livros publicados conjuntamente, assim se fez efetivamente. Prática, esferas, antropotécnicas, verticalização, mimo, emergência da sorte, vida single e outros conceitos e temas assim se colocaram no sentido de expor o itinerário e a razão de ser dos “radicais livres” emergentes. A construção e trama de conceitos de Sloterdijk se tornou imensa. Trata-se de um dos poucos filósofos contemporâneos que não se repete em seus livros. Um leigo tem a impressão de que nem se trata de um filósofo que busca a construção de uma teoria geral. Mas Sloterdijk é, sim, um filósofo de uma teoria geral. Uma teoria que ele insiste em dizer que pertence – e ele está correto – ao que chamamos de filosofia. É a “filosofia como introdução à ciência revolucionária universal”.

Nessa teoria, o homem é apresentado – assim diz o próprio Sloterdijk – como quem olha para si e não vê apenas “sociologia e vazio”. Não vê apenas uma ciência que quer explicar as relações entre indivíduo e sociedade, ou que se depara com aquilo que Pascal e Hume denunciaram, o eu como alheio a qualquer essência ou conteúdo própria. Cabe aí, nessa teoria, um redespertar de uma teoria da subjetividade. Particularmente, foi assim que eu o li e desse modo escrevi o Para ler Sloterdijk (Via Vérita): uma visão filosófica da modernidade e da subjetividade, e até mesmo uma teoria da subjetividade contemporânea. O homem é visto, em Sloterdijk, como “animal de chegada”. Alguém que está sempre no advento, sempre chegando. O homem é aquele que tem a “experiência do mundo”.

 

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 29/8/2017

  1. Sloterdijk, P. Ensaio sobre a intoxicação voluntária – um diálogo com Carlos Oliveira. Lisboa: Fenda, 2001, p. 58.
  2.  Idem, ibidem, p. 49.
  3. Idem, ibidem, pp. 55-7.

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2 Responses “Peter Sloterdijk, filósofo da revolução”

  1. Eduardo Rocha
    29/08/2017 at 21:51

    Paulo, você acha que em breve haverá o volume II da obra Esferas em português? E Jesus não seria um caso desses dois últimos radicais. Um quanto ao nascimento e ressurreição? E outro quanto à moralidade ? Essa revolução seria também uma transformação?

    • 30/08/2017 at 08:21

      Eduardo, a ideia de encontrar figuras da revolução pode ser usada como você quiser. Mas Jesus não vem do cadáver morto da revolução, que Sloterdijk caracteriza muito bem como sendo o cadáver de 68. A descrença na revolução é o cadáver do qual saem radicais livres.

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