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01/05/2017

Peter Sloterdijk e os gêmeos siameses de Nabokov (1)


É a esfera o elemento inicial que uma arqueologia da intimidade desenha bem. Uma pré-história da subjetividade, como pensaram Adorno e Horkheimer, não se faz por meio de um Ulisses lançado ao mar e já compondo a situação de burguês moderno.

O campo chamado subjetividade, em Sloterdijk, corresponde a uma esfera de duplo polo. Em um polo encontramos o feto e no outro seus companheiros e ampliadores, ou seja, tudo o que pertence e forma a bolsa placentária. São os não-objetos, segundo Thomas Macho.

Antes da explícita e objetiva situação exclusivamente psicológica (mental), que consagramos como sendo a consciência e que, não raro, imaginamos ser toda a subjetividade, há a construção da intimidade por meio de relações variadas entre os dois polos da esfera inicial. Desse modo, somos seres duplos, que jamais nascem sozinhos e que não possuem a experiência da individualidade solitária. Quando a placenta vai embora, a esfera já está preparada para os outros elementos, ou melhor, para os elementos velhos então transformados, que devem compor o polo companheiro e manter a situação de ressonância de algo que é sempre, no básico, dual. A esfera e, no caso, a esfera da intimidade como uma primeira bolha é exatamente um campo imunológico e de ressonância.

Na hora da transição, de despedida da placenta, entram os elementos subjetivos como o gênio, o anjo da guarda, o daimon, o gêmeo etc. Eles são substitutos dos primeiros ampliadores do sujeito (ou da subjetividade), o aparato todo da placenta. Entre eles e a criança recém-nascida, não mais o feto, esboçam-se relações de proteção que já eram as da placenta. Ela, como parte de uma primeira esfera, formava uma membrana com dupla parede, de modo que seu espaço como membrana funcionava como uma espécie de eclusa, capaz de manter o fluxo entre o exterior e o interior em situação de ritmo normal, harmônico. Seu trabalho era o de não causar uma invasão do polo que mais tarde será a criança, nem a reação desta de modo a se fechar para o mundo exterior, gerando o autismo. Essa membrana e reconstruída, então, em um plano ainda mais caracteristicamente psicológico.

De modo a compreender esse modelo a respeito da intimidade, que nos vê como duplo, Sloterdijk lança mão da análise do daimon, do anjo da guarda etc., e escolhe os gêmeos de Nabokov para arrancar aperfeiçoamentos sobre a descrição da subjetividade[1].

O que são os gêmeos de Nabokov?

São personagens do seu conto “Cenas da vida de um duplo monstro”. Nada mais nada menos que a história de Floyd e Lloyd, gêmeos siameses, narrada pela voz de Floyd e sem nenhuma participação notável de Lloyd.

Muito provavelmente esse conto nunca foi feito para ter fim como um conto, e sim como um livro. Há informações de que Nabokov falou desse livro para amigos, num jantar, como um projeto que deveria receber logo um término. Nesse episódio, Vera, sua esposa, teria dito laconicamente: “não, não vai terminar”. Mais do que talvez o próprio Wladimir Nabokov, ela sabia o quão difícil era para seu marido tocar nessa questão de irmãos que se gostam, mas que incapazes de relações do tipo de uma conversa franca. Vladimir teve um irmão 11 meses mais novo, cuja vida foi completamente diferente da sua via, a de escritor de enorme sucesso capaz de viver em um casamento feliz, dar aulas na América e passar o resto dos dias caçando borboletas numa casa rica da Suíça. Serguei Nabokov era gay. Às vezes se envolvia em episódio nada agradáveis para um russo da estirpe de Vladimir – um aristocrata com orgulho de seu passado e da própria hombridade, tomada como masculinidade, de seu pai. Mais difícil ainda era saber que Serguei teve uma vida solitária e terminou seus dias em um campo de concentração nazista. Floyd e Lloyd tinham algo de mais doloroso que o fato já terrível de comporem um monstro. Vera apostou certo.

No conto, Floyd e Lloyd nascem em uma montanha perto do mar Negro, num vilarejo de fim de mundo, filhos de uma mãe que morre no parto, dando a luz ao que havia sido fruto de um estupro. O próprio Floyd anuncia que a mãe chegou a ver o bebê monstro, e que talvez tenha falecido exatamente pelo exagero que lhe tomou: “a mistura de repulsa, pena e amor materno foi demais para ela”. Assim, o duplo foi abrigado pelo avô e cuidado por tias, cercado então de gente falante, ignorante e incontida. Essa gente logo espalhou a novidade e então o avô notou que o monstro seria sua fonte de renda eterna. Nada melhor que encher os bolsos cobrando visitas. O povo passou mesmo a peregrinar por ali, e ficar olhando por horas Floyd e Lloyd brincarem.

Lendo esse conto morbidamente maravilhoso, Sloterdijk seleciona algumas passagens que lhe são úteis. Em especial, ele capta uma passagem que mostra uma característica bastante interessante para o modelo das esferas: Floyd conta que nunca precisou conversar com Lloyd, que ambos sabiam o que o outro pensava e sentia, não exatamente, mas em boa medida, aquela que os permitia evitar longas discussões.[2] Sentiam-se normais assim. Também corporalmente normais. Nunca eles foram outra coisa.

Outra passagem diz respeito diretamente à questão de como que nós, dominados pelas teorias da subjetividade prenhes da doutrina liberal, não chegamos a conceber a cena – e por isso precisamos dela e, então, do conto – em que os gêmeos siameses recebem a visita de um garoto da idade deles. Eis Floyd narrando:

“Cada um era eminentemente normal, mas juntos formavam um monstro. (…) Adultos eram demasiadamente diferente de nós sob todos os aspectos para prover qualquer analogia, mas o primeiro visitante de nossa mesma idade foi para mim uma suave revelação. Enquanto Lloyd contemplava placidamente a criança perplexa de sete ou oito anos que nos espiava debaixo de uma figueira corcunda que também nos espiava, me lembro de ter percebido plenamente a diferença essencial entre mim e o recém-chegado. Ele lançava uma espécie de sombra azulada no chão e eu também; mas além desse companheiro simplificado, plano e instável, que ele e eu devíamos ao sol e que desaparecia no tempo encoberto, eu possuía uma outra sombra, um reflexo palpável de meu ser corporal, que eu tinha sempre ao meu lado, o meu lado esquerdo, enquanto que meu visitante havia, de alguma forma, conseguido perder o dele, ou tinha se desprendido dele e o deixado em casa. Os interligados Floyd e Lloyd eram completos e normais: ele não era nem uma coisa e nem outra. “[3]

Sloterdijk chama o menino visitante, aos olhos de Floyd, de “um monstro de isolação”.[4] Da perspectiva dos siameses, claro, o garoto solitário é o monstro. Como ele conseguiu não ter seu outro, sua sombra efetiva, ao seu lado? Deveria ser terrível viver assim, incompleto e somente com uma sombra instável, que pode desaparecer quando o sol se vai, mesmo em pleno dia! Caso pudéssemos nos desfazer da teoria liberal que nos individualiza antes mesmo de nascermos ou até antes da concepção, teríamos a experiência que de fato temos, mas que não colocamos em plano completamente consciente e teórico, que é a de sermos duplos. Uma coisa é viver uma experiência dupla – e sem ela não viveríamos senão como malucos ou menos como um nada – e não tê-la elevada em forma de uma teoria a respeito de nós mesmos, outra coisa, bem diferente, é se apossar de uma teoria, com a esferologia, e então notar a riqueza da nossa subjetividade.

Por meio da teoria das esferas, evitamos uma antropologia dominada pelas auras de Descartes ou Habermas. A primeira nos lança como Ulisses solitários no mundo, e fica atarantada a respeito de como há nossa aptidão para lidar com outros, mesmo que seja só uma forma de lidar guiada pela troca em termos de sociedade de mercado, que exige apenas uma racionalidade rasa. A segunda faz o mesmo e, então, deve invocar o ‘mundo da vida’, para criar o artificial campo da intersubjetividade e, com isso, expor nossa capacidade de interação, linguagem, trabalho etc., que nos faz humanos como gostamos de nos qualificar.

Levando em consideração esse saber das esferas, Sloterdijk nos revela o que seria a chave do sucesso de gêmeos siameses como objetos de circo e, mesmo hoje, como casos de atenção que não conseguimos deixar de olhar mais de uma vez.

Para ele, o que ocorre é que a ‘castração do umbigo’, como nós a temos, parece não ter ocorrido nos siameses. Eles não ficam de frente para aquilo que será o mundo, do qual serão protegidos segundo o serviço de eclusa de uma nova membrana (para que a esfera não se dilua) que ao mesmo tempo guardará os elementos de seu preenchimento, como o anjo da guarda ou o daimon, etc. Os companheiros invisíveis, nos gêmeos, parecem ter perdido o caráter de sonho e de silhuetas simbólicas e recebido um estranho dom de se fazerem carnais. Uma “multidão fascinada” vem ver os siameses, certamente. Caso tivesse no senso comum a teoria das esferas e não o liberalismo, a multidão deveria agir mais ou menos fascinada perante aquele que conseguiu agarrar seu anjo em uma armadilha.[5] De certo modo, a multidão intui a esferologia, pois realmente fica fascinada diante dos siameses.

Siameses são fazedores de arapucas de daimons, e os seguram para sempre em seus corpos. No lugar de uma atadura simbólica, uma atadura real – eis aí efetivamente nada de ter de criar situações tão complexas para a subjetividade: tudo é dado de modo físico, explícito. Ao mesmo tempo, todos podem notar que de fato o monstro é mesmo os siameses: a vida sob a possessão de um gênio que não mantém qualquer distância é monstruosa. Os siameses dão vazão ao que jamais deveria aparecer: a reencarnação da placenta. A placenta que deve ficar na raiz de uma árvore, enterrada, crescendo à parte, não é deixada se transmutar em elementos mais psicológicos. Os siameses, então, não são aqueles espertos que com uma arapuca, prenderam o daimon, mas aqueles que por azar não puderam soltar o proto-daimon.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

[1]Sloterdijk, P. Bubbles – Spheres I. LA: Semiotext(e), 2011, pp. 448-53.

[2] Há casos de gêmeos siameses nessa situação, em especial um caso célebre, atual, de gêmeos presos pela cabeça.

[3] Nabokov. V. Contos reunidos. Rio de Janeiro: Alfaguara – Editora Objetiva, 2008, pp. 742-3.

[4] Sloterdijk, P. Bubbles – Spheres I, op. cit., p. 451.

[5] Idem, ibidem, p. 451.

(1) Capítulo inédito de livro que está sendo preparado sobre teoria da subjetividade em Peter Slorterdijk .Esse estudo será apresentado no CEFA, somente para convidados, entre 24 e 31 de julho de 2014.

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5 Responses “Peter Sloterdijk e os gêmeos siameses de Nabokov (1)”

  1. Carlos Bengio Neto
    29/05/2014 at 11:45

    Professor, é possível estabelecer alguma relação entre os Siameses de Sloterdijk e aquelas criaturas hermafroditas que são narradas por Aristófanes no banquete de Platão? Aquelas que são castigadas pelos deuses tendo os seus corpos separados por um “corte” umbilical, de modo a buscarem a outra metade faltante: “a metade da laranja”…

    • 29/05/2014 at 12:49

      Sim Carlos, Sloterdijk as toma como também uma referência do quanto “não nascemos sozinhos”, em sua teoria da subjetividade, dentro de dezenas de outros exemplos. Você pegou a coisa!

    • Carlos Bengio Neto
      30/05/2014 at 12:02

      Na hora me veio o tal discurso na cabeça! Se não vejamos: De fato o discuso de Aristófanes era bom. Porém ainda não se tratava do ‘amor’ propriamente dito, mas algo prototípico, como um vazio que depois poderia/seria preenchido pelo ‘Daimon’; o Eros que Sócrates, ai sim, descreveu de maneira fantástica levando a melhor no banquete.

      E o inverso do que o seu texto falou Paulo também é verdadeiro, também o gênio real-físico pode ser transformado em algo simbólico-espiritual. Em algumas religiões africanas (se não me engano originárias do Candomblé) há uma crença segundo á qual os gêmeos mortos precisam receber em seus túmulos os mesmos presentes e afetos que a sua contra-parte viva. Este irmão vivo ainda usava uma espécie de amuleto que corresponderia à esse vínculo com o irmão-gêmeo transformado em espirito protetor da família. Em tempos mais remotos ainda, logo após o nascimento matava-se um dos gêmeos a fim de que fosse transformado em ídolo.

      Ah esse é um assunto que me interessa muito Paulo! Não sei se espero a tradução do Casa Nova, ou se compro o Esferas I em espanhol mesmo, pois a vontade que estou de adquirir esse livro depois de ler o seu texto!

    • 30/05/2014 at 14:00

      Quando falei do gênio falei do daimon, e quando falei do gêmeo, pode ser real ou imaginário também, ainda que no Caso de Sloterdijk ele tenha pego o caso do conto de Nabokov para mostrar detalhes da sua teoria. Os livros do Sloterdijk existem em inglês facilmente adquiríveis. Ou espanhol. Uso o inglês e consulto o alemão. Está sabendo que o CEFA promoverá um encontro sobre Teoria da subjetividade em Sloterdijk entre 24 e 31 de julho, em São Paulo. É gratuito, mas por convite. Fale com a Fran, ela está organizando.

  2. Hugo Lopes de Oliveira
    28/05/2014 at 23:41

    Ótimo texto.

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Filósofo